Ex-padrasto é condenado a 26 anos de prisão por estuprar a enteada por mais de uma década: ‘Destruiu minha infância’

Abusos ocorreram quando a jovem tinha entre 3 e 14 anos; réu segue solto, pois o caso ainda cabe recurso

28 fev 2026 - 04h58
Vítima ainda lida com os traumas
Vítima ainda lida com os traumas
Foto: Imagem ilustrativa/Freepik

Alerta de gatilho: Esta reportagem contém relatos de abuso sexual. O conteúdo pode ser sensível para algumas pessoas. Se você ou alguém que você conhece passou por uma situação de violência, saiba que existe ajuda disponível. Em caso de pedido de ajuda urgente, entre em contato com a Polícia Militar (190) ou Samu (192). Para fazer denúncia, disque 180 (Central de Atendimento à Mulher (gratuito e anônimo) ou disque 100: Direitos Humanos (focado em crianças e adolescentes).

A jovem F.C.P. ainda carrega o trauma de ter sido violentada sexualmente por mais de dez anos pelo seu então padrasto, R.R., durante toda a sua infância. Dez anos após a denúncia à Polícia Civil, no início deste mês o caso começou a se encaminhar para uma solução: ele foi condenado a 26 anos e oito meses de prisão, em primeira instância, pelo crime de estupro de vulnerável. O caso ainda cabe recurso e ele segue solto até que se esgotem todas as possibilidades de recorrer.

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Apesar disso, a mulher de 28 anos não vê justiça. “Tudo bem que foram 26 anos que o juiz deu, mas para mim não é justiça quando ele pode recorrer. Tudo bem que é a lei, só que eu não vejo isso. Ele acabou com a minha vida, sofro com isso até hoje não tem um dia que eu não pague por isso inconscientemente e conscientemente”, desabafa ao Terra

O processo está em segredo de Justiça, no entanto, a reportagem teve acesso à decisão. Segundo a ação, os crimes ocorreram entre de janeiro de 2001 e janeiro de 2012, de forma contínua, tanto na cidade de Itariri (SP), onde o acusado vivia, quanto no munícipio de Peruíbe, no litoral paulista, onde a família morava. 

F. tinha 3 anos na época que sua mãe passou a se relacionar com o homem. Na época,a família passou a frequentar o sítio dele, em Itariri, e foi lá que os abusos começaram, pouco depois do início do namoro. Ele passava a mão nas partes íntimas da vítima, entre outros abusos.

Após dois anos, todos foram morar em um condomínio da cidade, então, os episódios criminosos se tornaram mais frequentes. “Minha mãe era professora na época e dava aula em vários bairros diferentes, de manhã, à tarde e à noite. Então era bem difícil ela estar em casa porque estava trabalhando e ele aproveitava esses momentos para cometer os abusos”, explica a vítima. 

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“Não tinha um intervalo grande. Às vezes eram várias vezes no dia, várias vezes na semana. Às vezes tinha um intervalo ali de 15 dias ou ficava um mês sem acontecer nada, mas sempre acontecia”, complementa. 

F.C.P foi vítima de abuso sexual por seu padrasto por mais de dez anos
Foto: Getty Images

Quando F. denunciou a situação para a família, o padrasto disse que era mentira e que a menina estava “ficando louca”. Na época, seus familiares acreditaram na versão dele, porque o acusado fez “um mega drama”, segundo relato da vítima.

Se calou por anos

Após ser desacreditada, a jovem se calou por anos. O acusado repetia que ninguém acreditaria em uma "criança mentirosa, que ela iria perder o contato com a mãe e seria levada para um abrigo". 

“O único abrigo lá de Itariri ficava perto do sítio dele e eu sempre vi as menininhas passando, paravam ali perto para pegar alguma fruta e ele falou assim: ‘Vai acontecer com você a mesma coisa que acontece com aquelas menininhas, ficar longe da mãe porque elas provavelmente mentiram para a mãe’. Meu maior medo era ficar longe da minha mãe porque eu era muito apegada”, relembra. 

Se antes os abusos ocorriam somente quando a companheira não estava em casa, depois de algum tempo, o acusado já não tinha mais pudor e cometia os crimes também enquanto a mulher e o irmão da menina estavam dormindo. E também no carro da família, enquanto esperavam a matriarca sair do trabalho.

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“Teve uma época que comecei a ter muitos pesadelos com ele e eu falava que tinha um monstro entrando no meu quarto de madrugada, tanto que ele fez até uma coisa bem lúdica, do tipo, ‘os monstros desaparecem quando a luz está acesa’, foi lá e comprou uma lanterninha para mim, mas isso foi só para poder ele tentar safar, sabe? O monstro era ele entrando, só que eu não sabia como falar isso”, afirma. 

Por volta dos 9 anos, ele passou também a praticar os estupros enquanto exibia para a menina conteúdos adultos. Ao final, ele deixava o filme passando enquanto preparava pão de queijo antes de ir buscar a mãe da vítima. No caminho, até o trabalho da companheira, ele agia como se nada tivesse acontecido. “Como uma família normal, sabe? Pai e filha, normal”, descreve. 

Em um dos episódios, ele chegou a infartar depois do abuso, por achar que a mãe de F. havia percebido. Inclusive, a sentença também descreve essa cena. Após a alta hospitalar, o homem seguiu com a mesma prática criminosa. 

Réu foi condenado a 26 anos de prisão, mas aguarda a reposta do recurso em liberdade
Foto: iStock

Já na pré-adolescência, morando em Peruíbe, ele soube que ela havia se relacionado sexualmente com um rapaz, e os abusos passaram a ficar piores. “Era uma dor insuportável”, descreve a vítima. Aos 14, quando o último estupro ocorreu, ele abusou a jovem praticamente o dia todo. “Na psicologia entende-se que o prazer dele ali pela criança acabou, porque eu já tava entrando na puberdade, virando adolescente”, afirma a jovem. 

Consciência do abuso

Como estava numa fase “mais rebelde”, como aponta, a família a encaminhou para uma psicóloga. Seu abusador até tentou impedi-la, mas, depois, passou a pagar pelas consultas. No entanto, a jovem não se sentia à vontade para falar que tinha sido violentada por anos, já que na maioria das vezes, ele a esperava do lado de fora. 

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Aos 18 anos, a menina passou por uma tentativa de suicídio. Tomou os remédios do padrasto. Na ocasião, ele insistiu para que a mãe não levasse a vítima ao Pronto Socorro, mesmo ela quase indo à óbito. “A tentativa de suicídio não era para poder me matar, era um pedido de socorro, de ajuda”, frisa F. 

Na volta para casa, um programa de televisão com três garotas contando a história delas de abusos sexuais fez com que ela identificasse a situação que passava com o padrasto. 

“Ali me deu um estalo de que tudo que eu tinha passado era abuso sexual e eu não reconhecia”, explica.

No dia seguinte, em uma conversa com uma tia, que é psicóloga e mora em São Paulo, a jovem contou que tinha “sonhos” com o padrasto abusando dela. Foi nesse momento que a parente entendeu o que estava acontecendo. “Hoje ela me conta que captou que não era sonho, era realidade."

Ela foi para a capital paulista com a tia, onde passou com outra psicóloga. Foi então que teve coragem de contar sobre os abusos para a mãe. “Eu falo que foi o meu segundo trauma. Até então, eu vivia o trauma calada, mas colocar ele para fora foi tão pior quanto viver, porque eu fui tendo dores diferentes: a dor de ver a minha mãe sofrendo, as minhas tias, meu irmão, os meus tios, cada hora era uma dor diferente de contar pra cada um”, explica. 

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Denúncia

Depois disso, a mãe mandou o homem embora de casa e a família retornou para Peruíbe. Naquele mesmo ano, em 2016, F. tomou coragem e denunciou o caso à Polícia Civil. Durante todo esse período, ela foi desacreditada por vários profissionais de psicologia. Inclusive, a defesa do réu usou isso para tentar contestar o caso na Justiça. 

No entanto, o juiz apontou que profissionais da psicologia atuam no campo do acolhimento e do tratamento terapêutico, e não possuem função de realizar “investigação retrospectiva da veracidade de fatos para fins de atribuição de responsabilidade penal”. 

Lula sanciona lei que aumenta para até 40 anos a pena para estupro de vulneráveis
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“Eventual crença ou descrença isolada de um profissional de saúde não tem o condão de se sobrepor ao robusto conjunto probatório colhido em juízo, sede adequada para a apuração de infrações penais”, declarou o magistrado na sentença. 

A defesa ainda requereu a absolvição por insuficiência de provas, no entanto, o juiz ponderou que a materialidade do caso ficou comprovada pelo inquérito policial. 

Desde a denúncia, que só foi aceita em janeiro de 2024 pelo Judiciário, a jovem passou por mais duas tentativas de suicídio. “Vieram lembranças, veio ele na cabeça num momento de angústia e para mim, ali naquele momento, era a única solução”, desabafa. 

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26 anos que não pagam o mal já feito

Apesar de seu abusador morar em Itanhaém, município vizinho de onde ele mora, F. nunca mais teve contato com ele, até a audiência no ano passado. Ela afirma que tinha a opção de deixar tanto a câmera dele e a dela desligadas, mas fez questão de deixar que o ex-padrasto a visse. A vítima esperava ainda por um pedido de desculpa

“Mesmo com muitos anos de terapia e pesquisa sobre como funciona a mente de um abusador. Ali, ainda antes de entrar, a criança interior ainda gritava por um perdão, um pedido de desculpa como um pai, porque eu considerava ele, no meio de toda essa nojeira. Eu chamava ele de pai. Mas quando eu vi ele rindo da situação, debochando pela câmera, aquele sentimento foi morrendo, sabe?”, descreve. 

“Foi como se todo aquele sentimento tivesse sido pisoteado. E eu saí de lá com uma certeza de que eu queria a justiça”, complementa. 

O resultado saiu no último dia 12 de fevereiro. O juiz da Comarca de Itariri o condenou a 26 anos e oito meses de prisão, em regime fechado inicialmente, além do pagamento de valor mínimo para reparação dos danos causados pelo réu, que ainda será estipulado pelo assistente de acusação. 

O caso foi julgado em primeira instância, portanto, ainda pode recorrer em liberdade. Ele já interpôs recurso de apelação para o Tribunal de Justiça de São Paulo. O Terra tentou contato com a defesa dele, mas não teve retorno até o momento. 

Para F., é um alívio grande ver que ele foi condenado. “Aqueles 26 anos mostraram que eu não menti em nenhum momento, que eu não sou louca.”

Justiça condenou ex-padrasto a 26 anos de prisão por estuprar a enteada por mais de 10 anos
Foto: Imagem ilustrativa/Freepik

“Só que 26 anos para mim ainda é pouco perto de tudo que foi causado, porque eu tenho 28 anos hoje e eu não tive infância, minha infância foi jogada no lixo. Até hoje eu tenho problema para me relacionar com as pessoas, porque eu acho que elas vão me ferir de alguma certa forma. Ele destruiu a minha infância, a minha adolescência e, infelizmente, o meu dia a dia continua sendo massacrado por conta de tudo que aconteceu”, finaliza. 

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Atenção! Em caso de pensamentos suicidas, procure ajuda especializada como o CVV (Centro de Valorização da Vida), que funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, por e-mail, chat ou pessoalmente. Confira um posto de atendimento mais próximo de você (clique aqui).

Fonte: Portal Terra
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