País executou ao menos 14 presos políticos nas últimas semanas, em meio à ofensiva dos EUA e de Israel. Cerca de duas dezenas de presos correm risco de execução iminente.As autoridades do Irã lançaram, em março, uma nova onda de execuções de indivíduos considerados presos políticos, mesmo enquanto Estados Unidos e Israel realizavam ataques aéreos contra a república islâmica.
Desde o início da guerra, no fim de fevereiro, o regime dos aiatolás já executou 14 pessoas.
Em 18 de março - dois dias antes do Nowruz, o Ano Novo persa - o Irã executou Kouroush Keyvani, cidadão com dupla nacionalidade iraniana e sueca, sob a acusação de espionagem para Israel.
Keyvani havia sido preso durante a guerra de 12 dias entre Irã e Israel no ano passado, acusado de fotografar áreas sensíveis.
Um dia depois, três jovens foram executados pela participação nos protestos em massa de janeiro. foram as primeiras execuções realizadas pelo Irã relacionadas às manifestações nacionais que terminaram com uma sangrenta repressão.
Nos dias seguintes, várias outras pessoas foram enforcadas sob acusações de rebelião, em razão de suposta ligação com os Mujahedin do Povo do Irã (MEK), grupo oposicionista proibido no país.
As execuções continuaram inclusive durante o Sizdah Bedar - o 13º e último dia das celebrações do Ano Novo persa. Amirhossein, de 18 anos, detido durante os protestos de janeiro, foi enforcado.
Outras execuções foram registradas nos dias posteriores ao fim das festividades do Nowruz.
Dezenas podem ser executadas em breve
Raha Bahreini, especialista em Irã da Anistia Internacional, afirmou que há "pelo menos duas dezenas" de presos políticos que enfrentam risco iminente de execução.
"Entre eles estão indivíduos presos durante os protestos de janeiro, pessoas cujos julgamentos remontam ao movimento 'Mulher, Vida, Liberdade' e alguns com ligações reais ou supostas com partidos curdos, com os Mujahedin do Povo do Irã ou com outros grupos de oposição", diz Bahreini à DW.
Segundo a especialista, também fazem parte desse grupo "indivíduos que foram forçados a fazer 'confissões' sob tortura e que agora enfrentam acusações de espionagem ou imputações vagas, como moharebeh (guerra contra Deus), baghi (rebelião contra o governo islâmico) ou 'corrupção na Terra'".
Mesmo antes do início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, a Anistia Internacional já havia alertado que ao menos 30 presos ligados aos protestos de janeiro corriam risco de execução - entre eles, dois menores de idade. Desde então, sete desses detidos foram executados por enforcamento.
Padrão conhecido
De acordo com a jurista Afrooz Maghzi, o aumento das execuções durante a guerra era "totalmente previsível" e representa a repetição de um padrão já observado nos anos 1980.
Ela alerta para uma "tendência perigosa", acrescentando que o regime teocrático vem explorando a retórica política proveniente do exterior - como declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu - para legitimar a repressão interna.
Segundo Maghzi, referências, no exterior, a "grupos insurgentes" ou "forças dentro do Exército ou das instituições militares leais ao movimento monarquista", são utilizadas pelo governo iraniano para retratar protestos civis como "operações armadas" ou "terrorismo dirigido do exterior", diz ela à DW.
A jurista também aponta um aumento no número de "indivíduos desconhecidos", sobre os quais não há informações disponíveis e que aparentemente não tinham acesso a dados sensíveis, executados sob acusações de espionagem desde que a guerra eclodiu.
Maghzi classifica isso como uma nova tendência, a partir da qual o regime iraniano busca projetar uma imagem artificial de "força" em tempos de conflito.
O que as pessoas no exterior podem fazer?
Das 14 pessoas executadas nas últimas seis semanas, seis foram mortas sob a acusação de integrar os Mujahedin do Povo do Irã (MEK), grupo de oposição proibido no país. Segundo Afrooz Maghzi, as autoridades iranianas estão usando deliberadamente o MEK para caracterizar todo o movimento de protesto como "militarizado".
Para a jurista, quem vive fora do Irã devem desconstruir essa narrativa. "É preciso continuar enfatizando que esses executados são professores, estudantes e cidadãos comuns - não combatentes armados", destaca.
Maghzi também afirma que é necessário aumentar o custo político das ações de Teerã. "As negociações internacionais com o Irã devem estar claramente condicionadas à suspensão das execuções", afirma ela.
Pressão externa tem limites
Segundo grupos de defesa dos direitos humanos, o Irã é o segundo país que mais executa pessoas no mundo, atrás apenas da China. No ano passado, ao menos 1,5 mil pessoas foram enforcadas no país persa, de acordo com dados da Iran Human Rights (IHR).
Desde 1979, foram aprovadas 72 resoluções na Assembleia Geral da ONU, além de outras 17 moções no Conselho de Direitos Humanos, que instavam o Irã a enfrentar as graves preocupações relacionadas a violações de direitos humanos no país.
Mesmo assim, segundo a especialista da Anistia Internacional Raha Bahreini, o governo iraniano permanece totalmente indiferente a essas pressões.
Segundo ela, o regime usa deliberadamente a pena de morte como instrumento de intimidação - sobretudo no contexto atual, em que a população também sofre com a devastação provocada pela guerra.
Embora a pressão da opinião pública desempenhe um papel central em países democráticos, Bahreini observa que, em tempos de guerra, torna-se particularmente difícil chamar atenção para as execuções, já que a imprensa e a sociedade civil tendem a concentrar o foco nos desdobramentos militares.
O papel dos países não-ocidentais
Bahreini destaca a importância do papel de países que mantêm laços econômicos com o Irã, em especial na Ásia, na África e na América Latina.
Segundo ela, iranianos que vivem nessas regiões devem tentar ampliar a conscientização sobre o tema junto à imprensa e à sociedade civil locais.
Ativistas de direitos humanos também instam a comunidade internacional a deixar claro às autoridades judiciais e de segurança do Irã que o estado de guerra não se equivale à impunidade pelos crimes cometidos dentro do país.