As imagens que circularam recentemente, captadas durante a noite de passagem de ano em um bairro residencial de Lisboa, possuem uma gramática visual perturbadoramente familiar para quem estuda a segurança pública no Brasil.
Homens disparando rajadas para o céu, o clarão intermitente das armas automáticas rasgando a escuridão e a subsequente viralização desses registros nas redes sociais não configuram apenas atos isolados de desordem pública. Quando somados a ataques a tiros contra fachadas no Algarve e ao uso de metralhadoras em emboscadas contra veículos na região de Almada, esses eventos provocam um alerta.
Não se trata apenas de episódios esparsos de violência urbana; observa-se, possivelmente, os sintomas iniciais de uma metamorfose estrutural na criminalidade portuguesa, um processo que, se não for interrompido, conduz a um estado de coisas que pode ser denominado "a hegemonia da pólvora".
O uso visível de armas automáticas e semiautomáticas indica uma mudança qualitativa no arsenal criminoso. A análise do cenário aponta para variáveis críticas já bem documentadas em outras latitudes: a facilidade do acesso a armas de guerra, no contexto europeu possivelmente oriundas de rotas de tráfico internacional ou conflitos regionais, e a presença cada vez mais marcante de dinâmicas próprias de grandes facções transnacionais em solo europeu.
Do malandro à cocaína
Para compreender a gravidade e as possíveis consequências do que se desenha agora em território luso, é necessário utilizar a história da segurança pública do Rio de Janeiro como um espelho retrovisor.
A historiografia do crime carioca identifica um ponto de inflexão claro na década de 1980. Até o final dos anos 1970, a violência nas favelas e periferias operava em uma escala de baixa intensidade tecnológica. O armamento predominante resumia-se a revólveres de calibres permitidos (.32 e .38), garruchas e navalhas.
A figura central dessa sociabilidade marginal era o "malandro", um sujeito que operava nas frestas da legalidade e cuja principal "arma" não era o poder de fogo, mas a astúcia, a retórica e a capacidade de mediação social. O malandro evitava o confronto direto com a polícia, preferindo a fuga ou a negociação, e sua autoridade local não dependia do terror armado.
Contudo, a introdução da cocaína no mercado e a sua lucratividade exponencial transformaram a economia política do crime. O capital acumulado permitiu o investimento em ativos fixos de defesa: o armamento de guerra. Foi neste contexto que as primeiras carabinas semiautomáticas e, subsequentemente, os fuzis automáticos (como o AK-47 e o AR-15) começaram a surgir nas comunidades.
O fuzil não chegou apenas para combater a polícia, mas, primordialmente, para defender territórios enriquecidos contra a cobiça de quadrilhas rivais, inaugurando a era das facções e das guerras de posição por controle territorial.
Mudança antropológica na hierarquia criminal
O que se observa hoje em Portugal, com relatos de uma postura mais agressiva para a demarcação de território e a ostentação de armamento nas redes sociais, reflete exatamente essa transição ontológica observada no Brasil décadas atrás. No Rio de Janeiro, a chegada do fuzil não representou apenas um aumento na letalidade; catalisou uma mudança antropológica na hierarquia criminal.
O "malandro" foi substituído pela figura do "soldado do tráfico". Diferente do seu antecessor, que valorizava a autonomia individual, o soldado é definido pela subordinação hierárquica e pela disposição para o confronto letal. O fuzil confere a jovens, muitas vezes excluídos dos mecanismos tradicionais de ascensão social, um status imediato de poder e virilidade, uma "inclusão social perversa" que fetichiza a arma como símbolo de autoridade suprema.
Ao verificar que criminosos em Lisboa "não se escondem e até se promovem", constata-se a importação de uma "espetacularização" do poder armado. Diferentemente de outras cidades globais onde o crime organizado opera sob a lógica da dissimulação e da corrupção silenciosa, o modelo desenvolvido no Rio de Janeiro, e que parece seduzir novas gerações de delinquentes em Portugal, baseia-se na visibilidade do arsenal de guerra como componente central da autoridade. A arma deixa de ser apenas um instrumento tático para se tornar um componente de identidade e soberania.
O risco da normalização
O grande risco para Portugal reside na normalização deste fenômeno e, de forma ainda mais crítica, na tentação estatal de responder com a mesma lógica bélica. No Rio de Janeiro, a resposta tática primária à proliferação dos fuzis foi a mecanização da força policial e a adoção de uma doutrina de enfrentamento direto. O símbolo máximo dessa política foi a introdução do Veículo Blindado de Transporte de Pessoal, popularmente conhecido como "Caveirão", no início dos anos 2000. A premissa era a de que a viatura comum não era mais capaz de patrulhar áreas sob domínio de fuzis e que a superioridade blindada retomaria o controle.
O resultado dessa estratégia, contudo, foi o oposto do pretendido. A doutrina do blindado gerou uma corrida armamentista reversa e assimétrica. Para neutralizar a blindagem policial, as facções não recuaram; buscaram armamentos com maior poder de penetração (como metralhadoras calibre .50 e granadas) e reforçaram as barricadas físicas com obras de engenharia complexa. Estabeleceu-se um ciclo vicioso de "matar e morrer": a presença de fuzis justifica a operação letal, e a operação letal justifica a aquisição de mais fuzis pelas facções para defesa e vingança.
Os indícios de "ajustes de contas" e invasões de território rival sugerem que a dinâmica de facção, onde o domínio territorial é garantido pela bala, já está em marcha. Se as autoridades portuguesas caírem na armadilha de tratar o problema apenas como uma questão de policiamento ostensivo e repressão na ponta, correm o risco de iniciar sua própria corrida armamentista.
A experiência fluminense demonstra de forma inequívoca que a saturação bélica torna a repressão tradicional obsoleta. Mesmo que as apreensões de armas em Portugal estejam aumentando, dobrando em poucos anos, segundo dados recentes, a análise quantitativa isolada pode ser enganosa.
No Rio de Janeiro, observa-se uma escalada sem precedentes nas apreensões, com recordes anuais sucessivos, atingindo 811 fuzis apenas em 2025. No entanto, a capacidade de reposição do crime organizado permanece elástica. O arsenal é rapidamente reposto porque as cadeias logísticas transnacionais e os fluxos financeiros permanecem intactos, e as perdas materiais são absorvidas como custos operacionais.
Solução é atacar redes de logística
É neste ponto que reside a verdadeira batalha estratégica, e onde Portugal ainda tem a oportunidade de evitar o abismo. A "hegemonia da pólvora" sustenta-se em uma economia política complexa. O fuzil é um ativo econômico de alto valor; no mercado ilícito, o custo de um armamento moderno é exorbitante. A manutenção de um exército territorial exige um fluxo de caixa robusto, o que pressiona os grupos criminosos a diversificarem suas receitas. O tráfico de drogas, por si só, muitas vezes não cobre os custos inflacionados dessa guerra, impulsionando crimes correlatos como roubos e extorsão.
A solução para o desarmamento e para a contenção desta violência emergente não reside na intensificação do tiroteio nas ruas de Lisboa ou do Algarve. Reside no desmantelamento das redes logísticas e financeiras que conectam o tráfico internacional à Península Ibérica, no controle rigoroso dos portos e fronteiras e no rastreamento dos lucros que permitem a compra dessas máquinas de guerra. O fuzil não pode se tornar, como se tornou no Rio, o cetro de uma soberania paralela.
A análise comparativa entre os dois cenários deixa um aviso claro: a "hegemonia da pólvora" é um processo cumulativo e estrutural. Começa com disparos comemorativos e evolui para a instalação de barricadas, a criação de zonas de exclusão e a perda efetiva da soberania estatal sobre o território. Portugal ainda está em tempo de travar essa engrenagem antes que ela ganhe inércia própria. A alternativa é assistir, passivamente, à tradução para o contexto português de uma tragédia de segurança pública que o Rio de Janeiro conhece profundamente.
Roberto Uchôa de Oliveira Santos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.