Hegemonia da pólvora: episódios de violência típicos do Rio de Janeiro revelam como cresce a criminalidade em Lisboa

Episódios de violência urbana na capital de Portugal são sintomas iniciais de uma metamorfose estrutural da criminalidade no país. Um processo que, se não interrompido, conduzirá ao que chamam de "hegemonia da pólvora"

10 fev 2026 - 12h41
Veículos incendiados nobairo de Almada, em Lisboa, no fim de 2025: sintomas iniciais de uma metamorfose estrutural na criminalidade portuguesa.
Veículos incendiados nobairo de Almada, em Lisboa, no fim de 2025: sintomas iniciais de uma metamorfose estrutural na criminalidade portuguesa.
Foto: Reprodução de TV / The Conversation

As imagens que circularam recentemente, captadas durante a noite de passagem de ano em um bairro residencial de Lisboa, possuem uma gramática visual perturbadoramente familiar para quem estuda a segurança pública no Brasil.

Homens disparando rajadas para o céu, o clarão intermitente das armas automáticas rasgando a escuridão e a subsequente viralização desses registros nas redes sociais não configuram apenas atos isolados de desordem pública. Quando somados a ataques a tiros contra fachadas no Algarve e ao uso de metralhadoras em emboscadas contra veículos na região de Almada, esses eventos provocam um alerta.

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Não se trata apenas de episódios esparsos de violência urbana; observa-se, possivelmente, os sintomas iniciais de uma metamorfose estrutural na criminalidade portuguesa, um processo que, se não for interrompido, conduz a um estado de coisas que pode ser denominado "a hegemonia da pólvora".

O uso visível de armas automáticas e semiautomáticas indica uma mudança qualitativa no arsenal criminoso. A análise do cenário aponta para variáveis críticas já bem documentadas em outras latitudes: a facilidade do acesso a armas de guerra, no contexto europeu possivelmente oriundas de rotas de tráfico internacional ou conflitos regionais, e a presença cada vez mais marcante de dinâmicas próprias de grandes facções transnacionais em solo europeu.

Do malandro à cocaína

Para compreender a gravidade e as possíveis consequências do que se desenha agora em território luso, é necessário utilizar a história da segurança pública do Rio de Janeiro como um espelho retrovisor.

A historiografia do crime carioca identifica um ponto de inflexão claro na década de 1980. Até o final dos anos 1970, a violência nas favelas e periferias operava em uma escala de baixa intensidade tecnológica. O armamento predominante resumia-se a revólveres de calibres permitidos (.32 e .38), garruchas e navalhas.

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A figura central dessa sociabilidade marginal era o "malandro", um sujeito que operava nas frestas da legalidade e cuja principal "arma" não era o poder de fogo, mas a astúcia, a retórica e a capacidade de mediação social. O malandro evitava o confronto direto com a polícia, preferindo a fuga ou a negociação, e sua autoridade local não dependia do terror armado.

Contudo, a introdução da cocaína no mercado e a sua lucratividade exponencial transformaram a economia política do crime. O capital acumulado permitiu o investimento em ativos fixos de defesa: o armamento de guerra. Foi neste contexto que as primeiras carabinas semiautomáticas e, subsequentemente, os fuzis automáticos (como o AK-47 e o AR-15) começaram a surgir nas comunidades.

O fuzil não chegou apenas para combater a polícia, mas, primordialmente, para defender territórios enriquecidos contra a cobiça de quadrilhas rivais, inaugurando a era das facções e das guerras de posição por controle territorial.

Mudança antropológica na hierarquia criminal

O que se observa hoje em Portugal, com relatos de uma postura mais agressiva para a demarcação de território e a ostentação de armamento nas redes sociais, reflete exatamente essa transição ontológica observada no Brasil décadas atrás. No Rio de Janeiro, a chegada do fuzil não representou apenas um aumento na letalidade; catalisou uma mudança antropológica na hierarquia criminal.

O "malandro" foi substituído pela figura do "soldado do tráfico". Diferente do seu antecessor, que valorizava a autonomia individual, o soldado é definido pela subordinação hierárquica e pela disposição para o confronto letal. O fuzil confere a jovens, muitas vezes excluídos dos mecanismos tradicionais de ascensão social, um status imediato de poder e virilidade, uma "inclusão social perversa" que fetichiza a arma como símbolo de autoridade suprema.

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Ao verificar que criminosos em Lisboa "não se escondem e até se promovem", constata-se a importação de uma "espetacularização" do poder armado. Diferentemente de outras cidades globais onde o crime organizado opera sob a lógica da dissimulação e da corrupção silenciosa, o modelo desenvolvido no Rio de Janeiro, e que parece seduzir novas gerações de delinquentes em Portugal, baseia-se na visibilidade do arsenal de guerra como componente central da autoridade. A arma deixa de ser apenas um instrumento tático para se tornar um componente de identidade e soberania.

O risco da normalização

O grande risco para Portugal reside na normalização deste fenômeno e, de forma ainda mais crítica, na tentação estatal de responder com a mesma lógica bélica. No Rio de Janeiro, a resposta tática primária à proliferação dos fuzis foi a mecanização da força policial e a adoção de uma doutrina de enfrentamento direto. O símbolo máximo dessa política foi a introdução do Veículo Blindado de Transporte de Pessoal, popularmente conhecido como "Caveirão", no início dos anos 2000. A premissa era a de que a viatura comum não era mais capaz de patrulhar áreas sob domínio de fuzis e que a superioridade blindada retomaria o controle.

O resultado dessa estratégia, contudo, foi o oposto do pretendido. A doutrina do blindado gerou uma corrida armamentista reversa e assimétrica. Para neutralizar a blindagem policial, as facções não recuaram; buscaram armamentos com maior poder de penetração (como metralhadoras calibre .50 e granadas) e reforçaram as barricadas físicas com obras de engenharia complexa. Estabeleceu-se um ciclo vicioso de "matar e morrer": a presença de fuzis justifica a operação letal, e a operação letal justifica a aquisição de mais fuzis pelas facções para defesa e vingança.

Os indícios de "ajustes de contas" e invasões de território rival sugerem que a dinâmica de facção, onde o domínio territorial é garantido pela bala, já está em marcha. Se as autoridades portuguesas caírem na armadilha de tratar o problema apenas como uma questão de policiamento ostensivo e repressão na ponta, correm o risco de iniciar sua própria corrida armamentista.

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A experiência fluminense demonstra de forma inequívoca que a saturação bélica torna a repressão tradicional obsoleta. Mesmo que as apreensões de armas em Portugal estejam aumentando, dobrando em poucos anos, segundo dados recentes, a análise quantitativa isolada pode ser enganosa.

No Rio de Janeiro, observa-se uma escalada sem precedentes nas apreensões, com recordes anuais sucessivos, atingindo 811 fuzis apenas em 2025. No entanto, a capacidade de reposição do crime organizado permanece elástica. O arsenal é rapidamente reposto porque as cadeias logísticas transnacionais e os fluxos financeiros permanecem intactos, e as perdas materiais são absorvidas como custos operacionais.

Solução é atacar redes de logística

É neste ponto que reside a verdadeira batalha estratégica, e onde Portugal ainda tem a oportunidade de evitar o abismo. A "hegemonia da pólvora" sustenta-se em uma economia política complexa. O fuzil é um ativo econômico de alto valor; no mercado ilícito, o custo de um armamento moderno é exorbitante. A manutenção de um exército territorial exige um fluxo de caixa robusto, o que pressiona os grupos criminosos a diversificarem suas receitas. O tráfico de drogas, por si só, muitas vezes não cobre os custos inflacionados dessa guerra, impulsionando crimes correlatos como roubos e extorsão.

A solução para o desarmamento e para a contenção desta violência emergente não reside na intensificação do tiroteio nas ruas de Lisboa ou do Algarve. Reside no desmantelamento das redes logísticas e financeiras que conectam o tráfico internacional à Península Ibérica, no controle rigoroso dos portos e fronteiras e no rastreamento dos lucros que permitem a compra dessas máquinas de guerra. O fuzil não pode se tornar, como se tornou no Rio, o cetro de uma soberania paralela.

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A análise comparativa entre os dois cenários deixa um aviso claro: a "hegemonia da pólvora" é um processo cumulativo e estrutural. Começa com disparos comemorativos e evolui para a instalação de barricadas, a criação de zonas de exclusão e a perda efetiva da soberania estatal sobre o território. Portugal ainda está em tempo de travar essa engrenagem antes que ela ganhe inércia própria. A alternativa é assistir, passivamente, à tradução para o contexto português de uma tragédia de segurança pública que o Rio de Janeiro conhece profundamente.

The Conversation
Foto: The Conversation

Roberto Uchôa de Oliveira Santos não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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