Gastos militares batem novo recorde em meio a conflitos

27 abr 2026 - 08h35

Despesas totais de 2,887 trilhões de dólares representam 11º aumento anual consecutivo, e instituto Sipri diz que a tendência deve se manter.Numa época de proliferação de conflitos ao redor do mundo, os gastos militares globais atingiram em 2025 o maior nível já registrado. Os governos gastaram 2,887 trilhões de dólares (R$ 14,435 trilhões) em navios, aeronaves, mísseis e outras armas, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês).

Em 2025, os EUA continuaram investindo pesadamente em armas nucleares e convencionais, a fim de manter a supremacia militar
Em 2025, os EUA continuaram investindo pesadamente em armas nucleares e convencionais, a fim de manter a supremacia militar
Foto: DW / Deutsche Welle

Este é o 11º aumento anual consecutivo. Desde 2016, as despesas aumentam continuamente. Em 2025, elas foram puxadas sobretudo pela Europa. As Américas, entretanto, são o continente com maior gasto absoluto, em razão dos elevados gastos militares dos Estados Unidos.

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"Isso realmente reflete as reações dos países às guerras em curso, às tensões e à incerteza geopolítica", avalia o pesquisador Xiao Liang, do Sipri.

Os combates continuaram na Ucrânia e em Gaza em 2025, enquanto outros conflitos, como a guerra no Sudão, também contribuíram para a instabilidade global. "Com todas essas crises em andamento e muitos planos de gastos de longo prazo dos países já definidos, a tendência provavelmente continuará ao longo de 2026 e além."

Tensões em alta na Europa

Os gastos na Europa cresceram 14% em 2025, chegando a 864 bilhões de dólares (R$ 4,32 trilhões). As despesas da Rússia e da Ucrânia, em guerra desde 2022, são o principal motor.

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Mas o conflito também mudou a forma como os países europeus veem a própria segurança. Parte dos governos europeus teme que a Rússia represente uma ameaça mais ampla.

Em resposta, eles aumentam gastos com defesa para fortalecer as forças armadas e dissuadir novas agressões — sobretudo os membros da Otan. O orçamento de defesa da Espanha cresceu 50%, o da Polônia, 23%, e o da Itália, 20%.

"Em termos de gastos totais, o foco mudou para os países da Europa Central e Ocidental, à medida que seus planos de militarização e de aumento de gastos começam a se concretizar," acrescenta Liang. "Eles registraram o maior crescimento anual desde o fim da Guerra Fria no ano passado."

Alemanha muda regras orçamentárias

Em 2025, a Alemanha teve o maior gasto militar da Europa e o quarto maior do mundo. O orçamento da defesa aumentou 24%, chegando a 114 bilhões de dólares (R$ 570 bilhões).

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Pela primeira vez desde 1990, os gastos militares alemães ultrapassaram a meta da Otan de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), alcançando 2,3%. Para viabilizar o aumento, o parlamento alemão alterou as regras fiscais no ano passado.

Os gastos militares acima de 1% do PIB passaram a ficar isentos do rígido freio da dívida, permitindo que o governo contraia mais empréstimos.

"Não acho que a capacidade militar da Alemanha esteja crescendo tão rapidamente quanto o número dos gastos sugere", diz Liang. "Mas, a longo prazo, acredito que a Alemanha está se tornando mais poderosa e mais independente militarmente."

O aumento dos gastos alemães também reflete a incerteza quanto às futuras garantias de segurança dos Estados Unidos. Assim como outros aliados da Otan, o governo alemão busca reduzir a dependência dos Estados Unidos, especialmente depois de o presidente Donald Trump voltar a colocar em questão os compromissos de defesa coletiva da aliança.

Encolhe participação dos EUA

Os Estados Unidos gastaram menos com suas Forças Armadas — foram 954 bilhões de dólares (R$ 4,77 trilhões) em 2025, uma queda de 7,5% em relação a 2024.

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Mesmo assim, o país tem os maiores gastos militares do mundo, respondendo por um terço do valor global. Ao mesmo tempo, sua participação vem diminuindo de forma constante desde 2020.

A queda se deve sobretudo ao fato de o Congresso dos EUA não ter aprovado novos pacotes de ajuda militar à Ucrânia, ao contrário dos três anos anteriores. O Sipri contabiliza esse tipo de ajuda como parte dos gastos militares do país doador.

"Essa tendência já está se revertendo", diz Liang. "O orçamento de 2026 aprovado pelo Congresso dos EUA sinaliza um grande aumento. Com a guerra no Oriente Médio e as tensões crescendo na Ásia, a desaceleração provavelmente será de curta duração."

Segundo o Pentágono, apenas os primeiros seis dias da guerra com o Irã em 2026 custaram 11,3 bilhões de dólares (R$ 56,5 bilhões) aos EUA.

Em 2025, os EUA continuaram investindo pesadamente em armas nucleares e convencionais, a fim de manter a supremacia militar e dissuadir a China no Indo‑Pacífico, um objetivo central da estratégia de segurança nacional dos EUA.

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Alguns argumentam que um maior equilíbrio militar poderia tornar o mundo mais seguro. Liang discorda. "Isso apenas significa mais armas e mais armamentos", diz. "Uma nova corrida armamentista reduz a confiança e aumenta o risco de erros de cálculo."

Gastos aumentam também na Ásia

Com o segundo maior orçamento militar do mundo, a China aumentou os gastos continuamente nos últimos 31 anos, mais do que qualquer outro país monitorado pelo Sipri.

Os gastos cresceram 7,4% em 2025, à medida que a China avançou no plano de modernizar suas Forças Armadas até 2035. No ano passado, o país testou protótipos de caças de sexta geração e avançou no projeto do bombardeiro furtivo H‑20.

"A modernização militar da China e as tensões com seus vizinhos há muito tempo impulsionam maiores gastos na região, especialmente em países como Japão, Taiwan e Filipinas", afirma Liang. "Mas, em 2025, isso também esteve ligado a mudanças no pensamento de segurança entre os aliados dos EUA. Países como Austrália, Japão e Taiwan estão sob crescente pressão para gastar mais em defesa e se tornarem mais autossuficientes."

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Os gastos militares do Japão chegaram a 62,2 bilhões de dólares (R$ 311 bilhões) no ano passado, um aumento de 9,7% em relação a 2024. A alta é resultado de um plano de expansão lançado em 2022, impulsionado por preocupações de segurança em relação à China e à Coreia do Norte.

A ampliação dos programas de mísseis e drones sinaliza uma grande mudança, colocando o Japão, de forte tradição pacifista, no caminho para ter um dos maiores orçamentos militares do mundo.

Já na Índia, o aumento foi de 8,9%, chegando a 92,1 bilhões de dólares (R$ 460,5 bilhões), principalmente devido às tensões com a China. Mas esse não foi o único fator. "Também houve uma guerra entre a Índia e o Paquistão em 2025. Isso teve um grande peso, e eles investiram fortemente em aeronáutica e drones, que foram amplamente utilizados nesse conflito."

O custo mais amplo da militarização

Os gastos militares de um país como proporção da sua economia (o chamado ônus militar) mostram quanto da riqueza de uma sociedade está sendo direcionada à defesa em vez de outras necessidades. Essa é uma das formas mais claras de comparar o custo econômico real dos gastos militares entre países.

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Esse ônus subiu para uma estimativa de 2,5% do PIB global em 2025, o nível mais alto desde 2009. Isso significa que os governos não estão apenas gastando mais em termos absolutos, mas também destinando uma parcela maior da produção econômica ao setor militar.

Essa mudança tem consequências que vão além da política de segurança. "Isso vai afetar outras áreas do gasto público", diz Liang. "Os governos podem cortar serviços sociais ou ajuda ao desenvolvimento. Portanto, não se trata apenas de guerras e armas. Isso terá efeitos profundos em toda a sociedade."

O Brasil, por sua vez, tem o maior orçamento militar da América do Sul, ficando em 21º lugar no ranking do Sipri, que elenca 40 países pelos maiores gastos no setor. O aumento nacional foi de 13% em 2025, alcançando 23,9 bilhões de dólares (R$ 119,5 bilhões). O aumento reflete sobretudo os investimentos no desenvolvimento tecnológico naval e os custos com pessoal militar.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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