Novos estudos indicam que mesmo mamíferos podem regenerar membros

Existem vermes capazes de regenerar todo corpo e peixes que reconstroem suas barbatanas e até órgãos como o coração, mas seres humanos mal conseguem cicatrizar feridas. Ou pelo menos era o que pensávamos até agora

27 abr 2026 - 08h45

Há aspectos da nossa biologia que consideramos inevitáveis. Por exemplo, que se perdermos um braço ou uma perna, eles não voltarão a crescer.

Mas isso não acontece em todo o reino animal. Existem vermes capazes de regenerar seu corpo inteiro, peixes que reconstroem suas barbatanas — e até mesmo órgãos como o coração — e anfíbios, como as salamandras, que crescem patas inteiras após uma amputação.

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Por outro lado, nós, mamíferos, mal conseguimos fechar uma ferida e, quando o fazemos, geralmente é à custa da formação de uma cicatriz. Embora exista certa capacidade de regeneração nas extremidades dos mamíferos, incluindo os humanos, ela se limita praticamente às pontas dos dedos, e apenas quando a lesão ocorre em condições muito específicas.

Mas essa aparente limitação pode não ser tão definitiva. Dois trabalhos publicados recentemente na revista científica Science, juntamente com um texto de perspectiva que os integra, sugerem que os mamíferos poderiam conservar uma capacidade regenerativa latente que está bloqueada pelo seu ambiente.

O tecido decide: cicatriz ou regeneração

Por muito tempo pensou-se que a capacidade de regenerar estruturas complexas dependia fundamentalmente dos genes. De acordo com essa ideia, os mamíferos teriam perdido, ao longo da evolução, os programas necessários para reconstruir tecidos completos.

Os novos resultados de estudos, no entanto, obrigam a repensar essa abordagem. A regeneração não seria apenas uma propriedade genética, mas uma consequência da interação entre as células e o ambiente em que se encontram. Em outras palavras, o contexto tecidual pode determinar se uma ferida cicatriza ou se inicia um processo regenerativo.

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Um dos estudos concentra-se no modelo de regeneração da ponta do dedo em um camundongo.

Os pesquisadores observaram que os tecidos que cicatrizam são rígidos e dominados pelo colágeno, enquanto os tecidos capazes de se regenerar apresentam uma matriz extracelular mais flexível e rica em moléculas como o ácido hialurônico.

Essas diferenças biomecânicas não são insignificantes, uma vez que condicionam diretamente o comportamento celular e a ativação de programas genéticos de reparo. De fato, quando os pesquisadores modificaram experimentalmente o ambiente tecidual para estabilizar a quantidade de ácido hialurônico, observaram uma redução da fibrose e uma promoção da regeneração, inclusive em áreas onde ela normalmente não ocorre.

Isso aponta para uma ideia fundamental: em determinados modelos experimentais, a cicatriz pode não ser o destino inevitável de uma ferida, mas uma consequência do ambiente em que ela se repara.

O oxigênio como interruptor biológico

O segundo estudo aborda a regeneração sob outra perspectiva, mas chega a uma conclusão complementar. Como os girinos de rã vivem em ambientes com menor disponibilidade de oxigênio do que os mamíferos terrestres, os pesquisadores analisaram o papel desse fator na regeneração.

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Ao comparar os membros em desenvolvimento de ambas as espécies, descobriram que os níveis de oxigênio atuam como um verdadeiro interruptor biológico. Em condições de baixo oxigênio (hipóxia), o fator HIF1A é ativado, o que favorece a proliferação e a migração celular e facilita a expressão de genes associados à regeneração.

Por outro lado, em condições normais de oxigênio, características dos mamíferos, esses processos ficam bloqueados. Além disso, o oxigênio também influencia a estrutura do DNA por meio de alterações epigenéticas que determinam se os genes regenerativos estão ativos ou silenciados.

Nesse contexto experimental, baseado em extremidades embrionárias in vitro, os autores demonstram que é possível ativar respostas iniciais associadas à regeneração em tecidos de mamíferos, mais do que induzir uma regeneração completa.

Ambos os trabalhos apontam na mesma direção: os mamíferos podem não carecer completamente de programas regenerativos. Em vez disso, estes não estariam sendo ativados nas condições habituais em que vivem, um ambiente biológico que favorece a cicatrização em detrimento da regeneração.

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Um novo paradigma na biologia

A mudança conceitual sugerida por esses resultados é importante. A regeneração não seria uma capacidade completamente ausente nos mamíferos, mas um estado dinâmico que depende de fatores como a rigidez do tecido, a composição da matriz extracelular, a disponibilidade de oxigênio e a regulação epigenética.

Mas convém ser cauteloso. Nestes estudos, não se conseguiu a regeneração completa de extremidades em mamíferos. Os trabalhos concentraram-se em modelos experimentais — como a regeneração da ponta do dedo ou de tecidos cultivados em laboratório — e analisam principalmente as fases iniciais do processo.

Implicações médicas

Mesmo com essas limitações, as implicações são relevantes. Se o ambiente tecidual puder ser modificado de forma controlada, novas vias poderão se abrir na medicina regenerativa, como melhorar a cicatrização evitando a fibrose, favorecer a regeneração óssea ou tratar doenças associadas a alterações na reparação de tecidos, como ocorre no diabetes.

Em suma, o problema talvez não seja que nós, mamíferos, não possamos nos regenerar, mas que ainda não sabemos como criar as condições para isso. Como lembrava o médico e ensaísta Lewis Thomas, "somos profundamente ignorantes sobre a natureza". Talvez estejamos começando a entender que algumas de nossas aparentes limitações biológicas não são tão definitivas quanto acreditávamos.

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The Conversation
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Foto: The Conversation

Francisco José Esteban Ruiz recebe financiamento para pesquisa do Ministério da Ciência e Inovação, da Agência Estatal de Pesquisa (AEI) e do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) no âmbito do projeto PID-156228NB-I00, bem como da Secretaria de Saúde e Consumo da Junta da Andaluzia (PIP-0113-2024).

Oscar H. Ocaña Terraza não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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