Gasolina sintética feita no Chile revoluciona carros a combustão

Produzido com água, ar e vento na Patagônia, o combustível eFuel promete descarbonizar frotas antigas sem alterar motores

13 ago 2026 - 14h10

No extremo sul do continente americano, em Punta Arenas, opera a fábrica Haru Oni. A unidade industrial foi inaugurada no final de 2022 pela operadora HIF Global em parceria com a montadora Porsche. Essa instalação fabrica uma promissora gasolina sintética, batizada de eFuel, utilizando apenas três elementos básicos da natureza: vento, água do mar dessalgada e ar.

Combustível sintético eFuel é fabricado no Chile e visa neutralizar pegada de carbono de carros a combustão já em circulação
Combustível sintético eFuel é fabricado no Chile e visa neutralizar pegada de carbono de carros a combustão já em circulação
Foto: Divulgação / Porsche / Perfil Brasil

A iniciativa da gasolina sintética visa responder a um dos maiores desafios da transição energética mundial. Atualmente, mais de 1,3 bilhão de veículos com motor a combustão circulam pelo planeta. Estimular a venda de carros elétricos novos representa apenas o primeiro passo para a neutralidade de carbono. Em contrapartida, o grande desafio consiste em neutralizar as emissões dos automóveis fabricados em décadas anteriores.

Publicidade

A localização da fábrica no Chile atende a razões meteorológicas estratégicas para a fabricação da gasolina sintética. A região conta com ventos fortes e constantes durante quase todo o ano. Na instalação de Haru Oni, uma turbina eólica de 150 metros de altura opera a pleno rendimento por cerca de 270 dias anuais. O equipamento atinge uma taxa de aproveitamento de 74%.

Uuma turbina idêntica instalada na Alemanha funciona a plena carga durante apenas 66 dias por ano devido às condições climáticas locais. Nesses locais europeus, o aproveitamento atinge modestos 18%.

Como o ar e a água viram combustível de alta octanagem

O processo químico de fabricação da gasolina sintética transforma eletricidade limpa em um combustível com propriedades idênticas às da gasolina derivada do petróleo. Para produzir um único litro de gasolina sintética, o sistema consome cerca de três litros de água dessalgada e extrai o dióxido de carbono (CO2) presente em 6.000 m³ de ar.

O ciclo de produção divide-se em cinco etapas principais:

Publicidade
  1. Geração eólica de energia: A turbina eólica gera eletricidade contínua para alimentar toda a planta industrial.

  2. Eletrólise da água: A corrente elétrica quebra as moléculas de água do mar dessalgada para separar o hidrogênio do oxigênio. A eletrólise consome 280 litros de água por hora.

  3. Captura Direta de Ar (DAC): Um filtro cerâmico especial retira o CO2 diretamente da atmosfera.

  4. Síntese de metanol: A fábrica combina o hidrogênio verde ao CO2 capturado para gerar metanol cru.

  5. Transformação em gasolina (MtG): O metanol cru passa por destilação e entra em um reator para formar hidrocarbonetos. O processo resulta em uma gasolina pura com 93% de octanagem (E93).

A neutralidade climática da gasolina sintética apoia-se no conceito de ciclo fechado. Quando queimado no motor de um carro, a gasolina sintética libera para a atmosfera exatamente a mesma quantidade de CO2 que a fábrica retirou do ar ambiente durante a sua produção na Patagônia.

Metas de expansão e compatibilidade com motores atuais

A fábrica piloto começou operando com capacidade inicial para 130 mil litros de eFuel por ano. Contudo, o consórcio prevê atingir a marca intermediária de 55 milhões de litros anuais para, em seguida, alcançar a escala industrial de 550 milhões de litros por ano.

Em vista disso, a grande vantagem da gasolina sintética reside na sua pronta aplicação. O produto é totalmente compatível com a infraestrutura atual de postos e transportes. Além disso, os motoristas podem abastecer veículos modernos ou clássicos sem realizar qualquer modificação nos motores.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se