O FDA aprovou o daraxonrasibe, primeira terapia-alvo contra proteínas RAS para adenocarcinoma pancreático metastático. Em estudos clínicos, a droga reduziu o risco de morte em 60% e dobrou a sobrevida mediana para 13,2 meses, superando a quimioterapia padrão e com menos efeitos adversos graves. O fármaco age bloqueando os sinais que multiplicam as células tumorais. Paralelamente, novas pesquisas avaliam vacinas terapêuticas personalizadas para estimular a resposta imune contra a doença.
O câncer de pâncreas representa uma parcela relativamente pequena dos diagnósticos de câncer, mas é um dos maiores desafios da oncologia moderna. No Brasil, são estimados 13.240 novos casos por ano entre 2026 e 2028. Isso equivale a aproximadamente 2,6% dos cerca de 518 mil casos anuais previstos, sem contar o câncer de pele não melanoma. Excluindo esses tumores, o câncer de pâncreas ocupa a nona posição entre os mais frequentes no país.
Na última quarta-feira, 26 de agosto, a medicina ganhou um aliado importante para tratar essa doença: o FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o daraxonrasibe, a primeira terapia-alvo dirigida às proteínas RAS aprovada para o câncer de pâncreas.
O medicamento foi aprovado para pacientes adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que já receberam pelo menos um tratamento sistêmico ou que não podem receber quimioterapia combinada. No estudo RASolute-302, com 500 pacientes, apresentado em maio de 2026 durante o congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), a sobrevida mediana foi de 13,2 meses com daraxonrasibe e de 6,7 meses com a quimioterapia padrão. Durante o acompanhamento, o medicamento esteve associado a uma redução de 60% no risco de morte. O tempo mediano em que a doença permaneceu sem avançar também dobrou, de 3,6 para 7,2 meses.
Além do ganho de sobrevida, o daraxonrasibe aumentou a proporção de pacientes cujos tumores diminuíram: a taxa de resposta objetiva foi de 31,6%, ante 11,2% com a quimioterapia. Eventos adversos de grau 3, que interferem nas atividades cotidianas e podem exigir internação ou intervenção médica, ocorreram em 43,6% dos pacientes que receberam o novo medicamento e em 57,5% dos tratados com quimioterapia.
Ação sobre um mecanismo central do tumor
Os resultados chamam atenção também pelo mecanismo sobre o qual o medicamento atua: ele interfere diretamente no sistema de sinais que diz às células quando crescer e se dividir e que, no câncer de pâncreas, pode permanecer continuamente acionado. As proteínas RAS fazem parte desse sistema de sinalização. Uma delas é a proteína KRAS, produzida a partir das instruções do gene de mesmo nome. Mutações nesse gene estão presentes em mais de 90% dos adenocarcinomas ductais pancreáticos, o tipo mais frequente da doença.
Em condições normais, as proteínas RAS funcionam como uma espécie de interruptor molecular. Quando estão ativas, transmitem para o interior da célula sinais que estimulam seu crescimento e sua divisão. Cumprida essa função, passam para um estado inativo e o sinal é interrompido. Determinadas mutações no gene KRAS alteram esse mecanismo e fazem com que a proteína KRAS permaneça ativa. É como se o comando para a célula crescer ficasse permanentemente ligado. A transmissão contínua desses sinais favorece a multiplicação e a sobrevivência das células tumorais e é um dos principais mecanismos que sustentam o crescimento do câncer de pâncreas.
Durante muito tempo, as proteínas RAS foram consideradas alvos praticamente impossíveis para medicamentos. Uma das dificuldades está na própria estrutura dessas proteínas, que oferece poucos pontos aos quais uma molécula possa se ligar para bloquear sua atividade. Além disso, existem diferentes proteínas da família RAS e diferentes mutações capazes de mantê-las acionadas. O desenvolvimento de novas estratégias, porém, começou a permitir que esse mecanismo fosse atingido.
É nesse ponto que está uma das inovações do daraxonrasibe. Em vez de bloquear somente uma proteína RAS associada a uma mutação específica, o medicamento foi desenvolvido para atingir diferentes formas dessas proteínas quando estão em seu estado ativo — justamente o momento em que transmitem os sinais que mantêm a célula tumoral crescendo.
Para conseguir isso, o daraxonrasibe usa uma proteína que já existe dentro das células, a ciclofilina A. O medicamento se liga a ela e, juntos, formam um complexo capaz de se ligar às proteínas RAS ativas, bloqueando a interação de RAS com outras proteínas responsáveis pela transmissão do sinal. Com a cadeia de comunicação interrompida, diminui o estímulo que leva as células tumorais a crescer, sobreviver e se multiplicar.
Conseguir interferir nesse mecanismo e produzir ganho de sobrevida representa um passo importante no tratamento do câncer de pâncreas. Significa atingir diretamente uma das engrenagens moleculares que mantêm o tumor crescendo — e que, durante décadas, a oncologia teve dificuldade para alcançar.
Por que esse avanço demorou tanto
A dimensão desse passo fica mais clara quando se observa o que ocorreu no tratamento do câncer nas últimas duas décadas. Terapias-alvo e imunoterapias transformaram o tratamento de diferentes tipos de câncer, mas tiveram impacto mais restrito no câncer de pâncreas. O diagnóstico frequentemente tardio, a elevada agressividade biológica e as poucas opções terapêuticas ajudam a explicar por que esse tumor permanece entre os mais difíceis de tratar.
Em muitos casos, os primeiros sintomas, como dor nas costas, perda de peso, alterações digestivas e fadiga, podem ser atribuídos a condições mais comuns. Esse retardo na identificação da doença contribui para que muitos pacientes recebam o diagnóstico quando o tumor já se encontra em estágio avançado.
Mas parte importante da dificuldade está na própria biologia do tumor. O câncer de pâncreas é marcado por uma intensa formação de tecido fibroso e pela presença de diferentes tipos celulares ao redor das células cancerosas. Essa estrutura participa dos mecanismos que dificultam tanto a chegada de medicamentos quanto a atuação das células de defesa.
Além disso, o tumor cria mecanismos que favorecem a imunossupressão local, reduzindo a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater a doença. Por muitos anos, essas características fizeram do câncer de pâncreas um dos tumores mais resistentes às estratégias terapêuticas modernas e ajudam a entender por que imunoterapias que produziram avanços contra outros cânceres tiveram resultados limitados para a maioria desses pacientes.
É nesse contexto que conseguir atingir as proteínas RAS ganha importância. Não se trata apenas da chegada de mais um medicamento, mas da possibilidade de atuar sobre um mecanismo central da biologia de um tumor que permaneceu por muito tempo pouco acessível às novas estratégias de tratamento.
Esse avanço também é resultado do aprimoramento da pesquisa translacional, que busca transformar descobertas realizadas no laboratório em aplicações práticas para os pacientes. O conhecimento acumulado sobre os mecanismos que sustentam o crescimento tumoral e a resistência aos medicamentos abriu caminho para novas formas de atingir as proteínas RAS e levá-las aos estudos clínicos. Organizações que atuam de forma integrada em assistência, ensino, pesquisa e inovação, como o Einstein no Brasil, têm papel nesse processo ao conectar ciência, tecnologia e cuidado ao paciente em um mesmo ambiente.
E RAS não é a única chave da biologia do câncer de pâncreas que os pesquisadores procuram explorar. Outras estratégias tentam interferir em diferentes mecanismos moleculares do tumor ou encontrar maneiras de superar uma de suas principais formas de resistência: a dificuldade do sistema imunológico de reconhecer e atacar as células cancerosas.
Fazer o sistema imunológico reconhecer o tumor
Uma das abordagens em estudo são as vacinas terapêuticas, que procuram fazer o sistema imunológico reconhecer características específicas das células cancerosas. Ainda em fase experimental, elas precisam demonstrar, em estudos maiores, se a resposta imunológica observada se traduz em redução da recorrência ou aumento da sobrevida.
Diferentemente das vacinas preventivas, as terapêuticas são utilizadas depois do diagnóstico. Para produzi-las, o tumor retirado durante a cirurgia é analisado geneticamente para identificar neoantígenos, moléculas específicas das células tumorais que surgem em decorrência de mutações. A partir dessas informações, é produzida uma vacina individualizada destinada a estimular células T, de defesa, capazes de reconhecer esses alvos.
Um estudo inicial avaliou essa estratégia em pacientes submetidos à cirurgia para câncer de pâncreas. A vacina autogene cevumeran, também conhecida como RO7198457, administrada em combinação com outros tratamentos, conseguiu induzir respostas de células T contra o tumor em uma parte dos participantes. Após um acompanhamento mediano de 3,2 anos, as células T induzidas pela vacina continuavam detectáveis e os pacientes que desenvolveram essa resposta apresentaram maior tempo sem recorrência da doença.
O estudo envolveu poucos pacientes e não foi desenhado para demonstrar que a vacina reduz a recorrência ou aumenta a sobrevida. Estudos maiores são necessários para saber se a resposta imunológica observada se traduz efetivamente em benefício clínico.
Outra vacina experimental, a ELI-002 2P, procura estimular células T contra proteínas KRAS que apresentam as mutações G12D e G12R. Em um estudo inicial com 25 pacientes — 20 com câncer de pâncreas e cinco com câncer colorretal —, 84% desenvolveram respostas de células T contra KRAS. Também aqui os resultados são preliminares e ainda não permitem concluir que a vacina prolongue a sobrevida ou impeça a recorrência.
São abordagens diversas para problemas diferentes da mesma doença. O daraxonrasibe interfere diretamente na sinalização das proteínas RAS que sustenta o crescimento das células tumorais. As vacinas procuram superar outra barreira, ensinando o sistema imunológico a reconhecer características das células cancerosas que normalmente passam despercebidas.
Outras formas de atingir RAS e mecanismos envolvidos no crescimento tumoral, na resistência aos medicamentos e na interação entre o câncer e o sistema imunológico continuam em investigação. Mecanismos durante muito tempo considerados difíceis de atingir começam, assim, a se transformar em alvos de medicamentos e de outras estratégias terapêuticas que agora precisam mostrar, nos estudos clínicos, até onde conseguem mudar a evolução da doença.
Pedro Uson é pesquisador associado na Mayo Clinic, Arizona (EUA), com bolsa do Center of individualized Medicine (CIM).