Prever os impactos das mudanças climáticas na Amazônia exige integrar modelagem ecológica à experiência direta de pesquisadores locais. Diante da vasta heterogeneidade regional, a ciência precisa reconhecer a Amazônia como centro de produção de conhecimento, e não apenas de coleta. Parcerias científicas buscam antecipar cenários e orientar políticas públicas de conservação, protegendo a biodiversidade, a segurança hídrica e os modos de vida das populações tradicionais.
Quais regiões da Amazônia estarão mais expostas às mudanças climáticas antropogênicas nas próximas décadas? Onde a biodiversidade está mais ameaçada na região? Quais são os riscos de perda da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos? E quais paisagens ou regiões deveriam ser priorizadas nas políticas públicas de conservação e restauração?
Responder a essas peiguntas têm sido um grande desafio para os cientistas que estudam a Amazônia. Essa dificuldade não se relaciona apenas à enorme extensão da região ou à quantidade relativamente pequena de dados disponíveis, mas também à ampla diversidade de habitats e realidades socioeconômicas que ela reúne.
Prever essas transformações e seus impactos sobre os povos da floresta exige combinar informações sobre biodiversidade, clima, cobertura vegetal, carbono e uso da terra com modelos capazes de representar a diversidade da Amazônia e suas respostas a diferentes tipos de ameaças. Isso também requer ampliar o conhecimento das ferramentas e abordagens disponíveis para investigar essas transformações, através da colaboração entre pesquisadores e instituições com diferentes expertises.
É nesse contexto que a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o Institute for Global Change Biology, da University of Michigan, realizaram este mês, em Belém, o workshop "[Biodivers
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dada e transformações florestais diante das mudanças globais: ferramentas, modelos e cenários](https://www.youtube.com/watch?v=ai2OeMMWJw0)". A iniciativa reuniu mais de 50 pesquisadores, professores e estudantes para discutir e aplicar ferramentas capazes de ajudar a compreender e antecipar transformações que ocorrem na região.
A Amazônia não responderá de maneira uniforme
Quando se fala no futuro da região, é comum tratar a Floresta Amazônica como uma unidade homogênea submetida aos mesmos processos ambientais. Na prática, porém, as respostas variam conforme as características das diferentes partes do território. Mudanças na temperatura e na precipitação interagem com a fragmentação florestal, os incêndios, o desmatamento, a expansão da infraestrutura e as diferentes formas de uso da terra.
Mesmo duas áreas submetidas a pressões semelhantes, ou ao mesmo aumento médio de temperatura, podem responder de maneira distinta, dependendo da disponibilidade de água, da composição de espécies e do histórico de perturbações.
Essa heterogeneidade também se estende aos ecossistemas aquáticos. Rios, igarapés, lagos e áreas úmidas sustentam uma parcela importante da biodiversidade amazônica e estão diretamente ligados à segurança hídrica, à alimentação e à saúde, bem como à mobilidade e aos modos de vida de milhões de pessoas na Amazônia. Compreender como responderão às mudanças climáticas e às transformações no uso da terra é, portanto, tão importante quanto prever o futuro das florestas.
Diante dessa gama de possibilidades de resposta, os métodos de modelagem tornam-se especialmente importantes para compreender o futuro da região. Ao integrar dados ecológicos, climáticos e socioeconômicos, esses métodos permitem identificar onde diferentes pressões se sobrepõem, quais regiões apresentam maior vulnerabilidade e como diferentes formas de uso da terra podem modificar os riscos futuros.
Modelos e cenários não representam previsões exatas do que acontecerá, mas permitem comparar futuros possíveis e avaliar como diferentes combinações de mudanças climáticas, desmatamento, degradação e ações de conservação podem transformar os ecossistemas amazônicos. Essas análises ajudam a identificar áreas prioritárias para conservação da biodiversidade e restauração, bem como locais estratégicos para manter ou ampliar a oferta de serviços ecossistêmicos, como o armazenamento de carbono e a disponibilidade de água.
Mais dados não significam automaticamente melhores previsões
A qualidade dessas previsões ecológicas, porém, não depende apenas da quantidade de informação disponível. Ela depende também da experiência direta dos pesquisadores amazônidas com os diferentes ambientes, espécies e formas de ocupação territorial da região.
É essa experiência que permite avaliar se os padrões identificados pelos modelos representam processos ecológicos plausíveis ou se podem refletir lacunas de dados, vieses de amostragem ou limitações intrínsecas das próprias ferramentas de modelagem. Assim, produzir cenários mais robustos não depende apenas de algoritmos cada vez mais sofisticados, mas também da experiência de quem formula as perguntas, seleciona e organiza os dados e, sobretudo, interpreta os resultados à luz da realidade amazônica.
No entanto, historicamente, em muitos estudos realizados na Amazônia, instituições e pesquisadores locais participaram principalmente da coleta de dados, enquanto etapas como a formulação das perguntas, o desenvolvimento das abordagens analíticas e dos modelos, bem como a liderança das publicações permaneceram concentradas em instituições de outras regiões ou países.
Transformar essa dinâmica significa reconhecer a Amazônia não apenas como um local de coleta de dados, mas também como um espaço integrado de produção de conhecimento, de formulação de teorias, de desenvolvimento de métodos e de definição de agendas científicas.
Esse é um dos princípios que orientam a cooperação entre a UFPA e a University of Michigan, ao promover a troca de experiência entre pesquisadores que atuam diretamente na região amazônica e pesquisadores internacionais. No âmbito das atividades propostas neste evento em Belém, os participantes trabalharam com análise de dados, sensoriamento remoto, inteligência artificial e modelagem ecológica para responder a perguntas e desenvolver produtos de pesquisa com a finalidade de manter essas discussões e parcerias estabelecidas.
Ciência para lidar com incertezas
Uma das aplicações dos métodos discutidos no workshop é combinar dados sobre distribuição de espécies com projeções climáticas e mudanças na cobertura florestal. Isso permitirá investigar se áreas climaticamente adequadas continuarão conectadas ou se o avanço do desmatamento poderá isolar populações. Outra possibilidade é integrar sensoriamento remoto a informações sobre a estrutura florestal, o carbono e o histórico de perturbações, identificando regiões onde a floresta permanece de pé, mas já apresenta sinais de degradação.
Abordagens semelhantes podem integrar informações sobre rios, igarapés, lagos e áreas úmidas para identificar regiões em que mudanças no clima, no uso da terra e na cobertura vegetal podem comprometer simultaneamente a biodiversidade aquática, a qualidade e a disponibilidade da água e os recursos utilizados pelas populações locais.
Os modelos discutidos no workshop também consideram a dependência dos povos amazônidas de recursos provenientes da floresta e dos ambientes aquáticos, o que permite modelar a vulnerabilidade das florestas e de seus povos às mudanças climáticas e às pressões decorrentes de diferentes atividades econômicas. Também permitem discutir e comparar alternativas de conservação e restauração, considerando simultaneamente a biodiversidade, a conectividade, o carbono e a exposição climática.
Essas análises não eliminam as incertezas sobre o futuro da Amazônia. Elas ajudam a torná-las mais explícitas e também permitem identificar decisões mais robustas em diferentes cenários. Parte do trabalho em Belém está, por isso, voltada à produção de artigos científicos, sínteses técnicas e de um policy brief bilíngue.
A intenção é conectar os resultados da pesquisa a problemas de conservação, restauração, planejamento territorial e políticas públicas, contribuindo para proteger a biodiversidade, a água e outros recursos naturais dos quais dependem o bem-estar e os modos de vida das populações amazônicas.
As próximas décadas deverão impor intensas transformações às florestas amazônicas e aos seus rios. Fortalecer instituições e pesquisadores da região, nesse sentido, não é apenas uma questão de equidade, é parte do próprio desafio de compreender o funcionamento e o futuro da Amazônia.
Ana Cristina Mendes de Oliveira recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em projeto de pesquisa e bolsa produtividade de pesquisa, e da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA) em Projeto de Pesquisa. Diretora do Comitê Cientifico do Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC)
Bethânia Oliveira de Resende recebe financiamento de bolsa CNPq.
Fernanda Alves Martins recebe financiamento do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (EECBio) (384716/2025-3).
Karina Dias-Silva recebe financiamento de projetos de pesquisa do CNPQ.
Leandro Juen recebe financiamento de projetos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA) e pelo consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC).
Luciano Fogaça de Assis Montag recebe financiamento de projetos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA) e pelo Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC).
Marcela Guimarães Moreira Lima recebe financiamento da projetos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Maria Malcher recebe financiamento recebe financiamento de projetos de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), projetos de pesquisa financiados CNPq e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Raphael Ligeiro recebe financiamento do Consórcio de Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC) e Bolsa Produtividade em Pesquisa pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Thaisa Sala Michelan recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), e pelo consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC).
Thiago Gonçalves Souza não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.