Presidente americano insiste que o governo federal supervisione pleitos, função que cabe a cada estado. Democratas temem que, com isso, ele tente interferir nas eleições de meio de mandato de novembro de 2026.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu nesta terça-feira (03/02) que o governo federal deveria supervisionar as eleições legislativas de meio de mandato, que são organizadas pelos estados, apelando aos republicanos para "nacionalizar" o pleito - o que gerou críticas e preocupações entre seus opositores.
Trump fez essas afirmações no Salão Oval da Casa Branca enquanto respondia a jornalistas sobre o papel do Executivo nos processos eleitorais estaduais, algo que a Constituição dos EUA reserva primordialmente aos estados.
O apelo do presidente para que os republicanos "nacionalizem" as eleições provocou críticas de legisladores, inclusive republicanos, enquanto democratas expressaram preocupação de que Trump tente interferir nas próximas eleições, marcadas para 3 de novembro e que determinarão o controle sobre o Congresso.
Numa entrevista em um podcast com o ex-vice-diretor do FBI Dan Bongino, veiculada na segunda-feira, Trump repetiu suas falsas alegações de que o pleito presidencial de 2020 - que elegeu Joe Biden - foi roubado dele e proferiu que seu partido deveria "assumir o controle" e "nacionalizar" a votação em pelo menos 15 locais, sem dar mais detalhes.
Supervisão estadual
De acordo com a Constituição dos EUA, os governos estaduais supervisionam as eleições em cada Estado, e não o governo federal, e a maioria dos pleitos é administrada por funcionários municipais e locais.
Democratas e defensores dos direitos eleitorais afirmaram que os comentários de Trump, poucos dias depois que o FBI revistou o escritório eleitoral do condado de Fulton, na Geórgia, em busca de cédulas de 2020, indicam que ele planeja minar ou até mesmo manipular os resultados das eleições deste ano.
"Não se trata das eleições de 2020. Simplesmente trata-se do que vem a seguir", declarou o senador democrata Mark Warner, da Virgínia.
Trump instou os legisladores republicanos a aprovarem reformas eleitorais e reiterou seu apelo por um maior controle nacional. "O estado é um agente do governo federal nas eleições. Não sei por que o governo federal não as organiza diretamente", disse.
Acusações sem provas
O presidente americano também afirmou que existem cidades com supostas irregularidades e "terrível corrupção" eleitoral, embora não tenha apresentado provas que sustentem essas acusações.
"Observem alguns dos lugares onde há uma terrível corrupção nas eleições, o governo federal não deveria permitir isso", afirmou.
"Acho que o governo federal deveria se envolver", acrescentou Trump, reiterando uma postura que já defendeu no passado e que gerou críticas por parte de autoridades estaduais e especialistas em eleições, que apontam que uma maior intervenção federal poderia violar a autonomia dos estados.
Câmara em jogo
Historicamente, o Partido Republicano costuma perder cadeiras nas eleições de meio de mandato, e, neste ano, os democratas precisam conquistar apenas três distritos controlados pelos republicanos para obter o controle do Congresso.
Um alto funcionário da campanha republicana disse à agência de notícias Reuters que não parece haver uma estratégia por trás dos comentários de Trump, além de um esforço contínuo do Departamento de Justiça para obter os registros eleitorais de muitos estados com tendência democrata.
Legisladores e especialistas mostraram-se menos otimistas em relação às declarações de Trump. "Da última vez em que ele começou a falar assim, seus aliados minimizaram os riscos, e acabamos com o 6 de janeiro", escreveu Brendan Nyhan, professor de ciências políticas do Dartmouth College, referindo-se ao ataque ocorrido nessa data contra o Capitólio, em 2021, por uma multidão de seguidores de Trump.
Frequentemente, Trump tem expressado seu desejo de reformar as eleições do país, com base em alegações falsas de que sua derrota em 2020 para Biden foi resultado de fraude. Ele pediu, por exemplo, a proibição do voto por correspondência, questionou a segurança das urnas eletrônicas e afirmou, falsamente, que milhões de pessoas que não são cidadãos americanos votam regularmente.
gb/as (Reuters, AFP)