População deveria cobrar políticas para idosos, mas não cobra, diz especialista em envelhecimento

Jorge Félix afirma que eleitores devem cobrar candidatos por projetos que vão além da Previdência Social e que contribuam para bem-estar

11 set 2026 - 04h58
Envelhecimento é um fenômeno interdisciplinar, defende o especialista
Envelhecimento é um fenômeno interdisciplinar, defende o especialista
Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

O envelhecimento populacional já é realidade em grande parte dos países, e o Brasil caminha para o mesmo destino. Nas eleições deste ano, no entanto, candidatos pouco falam sobre propostas para a população idosa, a não ser por promessas de reformar a Previdência Social ou fazer melhorias. O envelhecimento é uma pauta que afeta diversos outros setores da sociedade, como moradia, economia, saúde, entre outros que devem ser observados.

Para Jorge Félix, autor dos livros 'Economia da Longevidade' (2019, Editora Aller) e A (difícil) decisão de envelhecer (2026, Editora da Unicamp), a população deveria cobrar mais políticas para idosos, o que não acontece. Ele é especialista em envelhecimento populacional, e estuda sistemas de previdência e políticas públicas para os idosos.

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Para Félix, temas que deveriam se fazer presentes no debate eleitoral sobre os idosos não aparecem. Ao invés disso, há um confinamento das pautas apenas na questão da previdência social.

“Eu acho que as pouquíssimas vezes que os candidatos – e aí estou falando candidatos em geral –, abordam a questão do envelhecimento, com raras exceções, é para falar sobre reforma da Previdência, déficit da Previdência, e isso está ganhando espaço nos jornais”, afirma.

Jorge Félix é pesquisador e especialista em envelhecimento populacional
Foto: Divulgação

O envelhecimento, porém, não se limita à questão econômica, mas é um fenômeno interdisciplinar, defende o especialista. “Trata-se da vida da gente, então ele aborda várias dimensões, e essas outras dimensões estão completamente ausentes do debate público, que é o cuidado, a questão das cidades, a questão de adaptação do SUS, a questão de adaptação dos domicílios. Você tem uma infinidade de assuntos de subtemas, que eles estão completamente ausentes”, pontua.

Ao citar outros países, Félix afirma que também faltam propostas para os idosos, mas no Brasil a escassez é mais notável. Ele diz que, no Brasil, a sanção da Política Nacional de Cuidados, com a Lei nº 15.069, foi um marco para reconhecer o cuidado como um direito de todas as pessoas, incluindo o direito de ser cuidado e o autocuidado. “Foi um passo muito importante, e está em implementação. Mas a questão do cuidado deveria estar mais presente, porque ela está presente em todos os domicílios, seja no cuidado com crianças ou com idosos.”

“Esse deveria ser um assunto que a população deveria cobrar e ela não cobra”, afirma.

Outro ponto importante, e que impacta diretamente no envelhecimento, é a habitação. Entre pessoas idosas, a falta de habitação é um problema que cresce no Brasil. “É um problema gravíssimo, tanto a falta de habitação quanto a adaptação dos domicílios. Isso está completamente ausente do debate, embora seja um tema muito mais municipal, mas também engloba a questão federal”.

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Indiscutivelmente, ao envelhecermos, os cuidados com a saúde são dobrados. Félix vê como um desafio adaptar o Sistema Único de Saúde (SUS) para atender cada vez mais idosos. “Nós precisamos fazer uma adaptação do SUS, de um sistema curativo para um sistema de cuidado”, observa.

Félix diz que a parte curativa não deve ser abandonada, uma vez que problemas como a volta do sarampo, devido à baixa adesão à vacinação, são uma realidade. No entanto, seria necessária atenção às demandas de uma população envelhecida. “É bastante complexa essa adaptação dos sistemas de saúde no mundo para o perfil de envelhecimento, e nós estamos bem atrasados nisso."

População deveria cobrar políticas para idosos, mas não cobra, diz especialista em envelhecimento
Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Para o especialista, o voto baseado em uma plataforma política para pessoas idosas não necessariamente vem dos idosos.

"A gente tende a pensar isso, mas temos uma grande mobilização e ativismo na sociedade civil de pessoas jovens que trabalham com a questão do envelhecimento e que se pautam por essas questões na hora de votar."

Segundo Félix, não é correto pensar que apenas idosos estão de olho nas questões do envelhecimento, no que diz respeito à política, mas muitas pessoas acima dos 70 anos, quando o voto deixa de ser obrigatório, ainda fazem questão de votar. “Depois dos 80 anos, é que existe um absenteísmo desse eleitor”, diz.

O que muda em uma sociedade envelhecida?

O envelhecimento da população não representa apenas uma mudança no perfil etário do país. Segundo Jorge Félix, o avanço da longevidade e o aumento da proporção de idosos estão produzindo uma configuração social inédita, com impactos sobre o mercado de trabalho, a economia, as relações comerciais entre países e até a disputa política internacional.

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“Nós estamos entrando no Brasil e no mundo, porque o mundo inteiro está envelhecendo, vivendo exatamente nessa sociedade. É uma configuração inédita porque o mundo nunca experimentou a humanidade, eu falo isso no meu livro, a humanidade nunca experimentou essa taxa de expectativa de vida nesses níveis que nós estamos vivendo e também nunca experimentou um envelhecimento da população no nível em que estamos.”

Políticas de cuidados com idosos devem entrar na pauta de candidatos
Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Para o especialista, a transformação demográfica também altera a relação entre países e pode criar uma nova disputa por recursos e mão de obra. Ele chama esse processo de “geopolítica do envelhecimento”.

“O mundo está se configurando num mundo envelhecido, onde as questões de escassez, principalmente de mão de obra para o cuidado, elas estão impactando imensamente a economia, porque você precisa que pessoas deixem o mercado de trabalho para cuidar”, explica.

A falta de trabalhadores disponíveis para atividades de cuidado, segundo Félix, pode pressionar os salários e gerar efeitos sobre a economia. Ao mesmo tempo, o envelhecimento cria novos mercados para produtos e serviços voltados à população idosa.

“Você tem aí hoje a produção de produtos e serviços para o envelhecimento, sobretudo na indústria farmacêutica, indústria de beleza, mas também muito de tecnologia, e isso vai configurando uma outra relação de mercado, de comércio exterior, e que vai redefinindo o poder de cada país.”

Na avaliação do especialista, a questão também envolve uma disputa sobre quem irá arcar com os custos associados ao envelhecimento da população: “O mundo está numa disputa de quem vai pagar pelo envelhecimento de quem.”

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Brasil tem “trunfos”

Apesar dos desafios, Félix afirma que o Brasil possui dois mecanismos que podem funcionar como proteção diante dos efeitos econômicos e sociais do envelhecimento: o Sistema Único de Saúde (SUS) e o sistema público de Previdência baseado na repartição.

“O Brasil tem dois trunfos que são fundamentais e que outros países não têm. Um é o SUS, a saúde gratuita, que ela atende, podemos discutir sobre esse atendimento, mas ela atende 75% da população”, afirma.

Jorge Félix afirma que eleitores devem cobrar candidatos por projetos que vão além da Previdência Social para idosos, e que contribuam para bem-estar de idosos
Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Para ele, o SUS representa uma vantagem em relação a países que envelheceram sem uma estrutura semelhante. Félix avalia que nações ricas que passaram por um processo acelerado de envelhecimento agora enfrentam dificuldades para manter o mesmo nível de bem-estar social oferecido às gerações anteriores.

O especialista relaciona esse cenário também ao avanço de movimentos de extrema-direita em países europeus que estão entre os mais envelhecidos do mundo. Na avaliação dele, a percepção de que filhos e netos não terão o mesmo padrão de vida das gerações anteriores alimenta uma insatisfação que pode se refletir nas escolhas eleitorais.

“O envelhecimento populacional, na minha visão, ele é o pano de fundo dessa ascensão da extrema-direita nesses países”, afirma.

Segundo Félix, a preocupação também deveria estar presente no Brasil. Isso porque o envelhecimento, por si só, pode contribuir para o aumento da desigualdade social. “O envelhecimento populacional por si só, ele já é um fator de indução à desigualdade social. O país que está envelhecendo, a questão demográfica passa a ser um indutor de desigualdade social, porque você tem um filho único herdando a herança de dois. Então isso vai ao longo do tempo aumentando a concentração de renda e a desigualdade social”, explica.

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Nesse cenário, o especialista defende que as políticas públicas brasileiras voltadas a uma população cada vez mais velha tenham como prioridade o combate à desigualdade. Para ele, tanto o SUS quanto o sistema previdenciário por repartição têm uma característica importante nesse sentido.

“Então, por isso que eu posso te dizer, depois de 30 anos que eu estou estudando esse tema, essa deveria ser a prioridade do eleitor e da eleitora", finaliza.

Fonte: Portal Terra
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