A expectativa em torno de César Tralli no comando do debate presidencial da TV Globo era gigantesca. Vindo de um desempenho hesitante nas sabatinas do primeiro turno, o apresentador passou a maior parte do confronto direto entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ensaiando mais um papelão. Contudo, quando já parecia reduzido a um adereço de estúdio, o âncora achou a própria voz e se salvou no apagar das luzes.
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Durante dois blocos inteiros, Tralli reviveu os seus piores momentos. Trancado na dura missão de impor o regulamento da casa a dois candidatos exaltados, o jornalista travou nos momentos de tensão, resgatando o mesmo desespero impotente de Adriane Galisteu tentando conter a baixaria nas brigas de A Fazenda. Praticamente todas as intervenções iniciais de Tralli estiveram ligadas à gestão do tempo, e em quase todas ele foi solenemente ignorado ou feito de escada.
Na primeira tentativa de alerta, Lula aproveitou a hesitação para esticar a fala. Na segunda, Flávio Bolsonaro se impôs na voz, atropelou o apresentador e não o deixou concluir a frase. Na terceira, o atual presidente tomou as rédeas do estúdio de novo.
A lambança escancarou a falha da própria produção da Globo: afinal, o mediador deveria interromper para avisar sobre os segundos finais ou o relógio deveria correr sem piedade até cortar o microfone? A falta de critério virou bagunça e os candidatos fizeram o que quiseram.
O cenário de terra arrasada só mudou no terceiro bloco, quando a paciência do mediador finalmente esgotou. Ao ver Flávio Bolsonaro tentar mais um atropelo vocal sobre as regras do estúdio, Tralli subiu o tom, engrossou a voz e peitou o candidato de frente:
“Quando acaba o tempo, eu aviso; quando sobra tempo, eu aviso também”, disparou o apresentador, interrompendo a reação do senador na quarta tentativa.
Quando Lula resolveu reclamar publicamente do tema da pergunta sorteada pela produção, Tralli não passou pano: irritou-se ao vivo, cortou as lamúrias do presidente e exigiu o cumprimento da dinâmica.
Tralli esteve longe de fazer uma mediação impecável, mas arrancou uma vitória pessoal nos acréscimos de uma cobertura eleitoral que vinha cobrando um preço altíssimo de sua carreira.