Mais governadoras, mesmas barreiras: o que o pioneirismo do Nordeste revela sobre o voto feminino

Região tem metade das governadoras eleitas por voto direto do País, mas recorte não significa avanço consciente da representatividade

29 set 2026 - 04h57
Em 1928, antes mesmo de as brasileiras poderem votar, Alzira Soriano foi eleita prefeita da cidade de Lajes (RN), segundo a Agência Brasil
Em 1928, antes mesmo de as brasileiras poderem votar, Alzira Soriano foi eleita prefeita da cidade de Lajes (RN), segundo a Agência Brasil
Foto: Arquivo Nacional

Entra e sai eleição, a discussão sobre a importância do eleitorado feminino só aumenta. As mulheres são maioria entre os eleitores, mas ainda representam uma fração muito pequena dos políticos eleitos tanto nos cargos do Executivo quanto do Legislativo. Fazendo o recorte por região, pode-se dizer que o Nordeste se destaca positivamente, com o maior número de governadoras eleitas na história em todo o País. 

  • Essa reportagem faz parte do especial Mulheres do Brasil nas urnas, que traz um Raio-X das eleitoras e candidatas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul

Das 10 governadoras eleitas por voto direto no Brasil, metade foi escolhida pelo Nordeste --sendo que três delas apenas no Rio Grande do Norte, Estado com histórico de pioneirismo feminino na política. Ainda assim, tal dado não chega a ser sinônimo de um avanço consciente da busca por representatividade feminina na região. Mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Vanderlânia Ferreira analisa que quatro das cinco mulheres eleitas no Nordeste tinham ao seu favor algum tipo de capital político familiar.  

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“Não estamos falando só de um sobrenome conhecido, é claro que isso conta, mas de redes políticas, de um conhecimento de campo, de relações partidárias, do reconhecimento público. Uma estrutura que foi construída muitas vezes ao longo de gerações” -- Vanderlânia Ferreira

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Infográfico Exclusivo Eleições & Representatividade

Governadoras Eleitas no Nordeste

5 Governadoras
3 de 9 Estados
9 Vitórias
1994 1ª Eleição
Clique nos estados destacados:
MA 1 PI CE RN 3 PB PE 1 AL SE BA
RN (3) MA (1) PE (1)
Cinza: sem eleitas
Todas as Governadoras 5 nomes
Conteúdo interativo preparado para publicação no Portal Terra Atualizado • Fontes: TSE / TRE-RN / TRE-MA / TRE-PE

A cientista social explica que, no Brasil, tal estrutura de capital político é importante para eleger tanto homens quanto mulheres. Mas, no caso específico do público feminino, ganha ainda mais relevância, ao considerar as barreiras a mais que elas costumam enfrentar na política em comparação com os homens.

Já Sonia Jay Wright, doutora em Ciências Sociais e professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ressalta que até mesmo neste cenário familiar os homens costumam ser privilegiados. “Vai ser sempre o patriarca primeiro, depois o filho. A mulher entra em último caso.”

Eleitorado feminino no Nordeste é plural e atravessado por diferentes marcadores sociais
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As pesquisadoras ressaltam, porém, que o fenômeno das famílias políticas não se restringe ao Nordeste, como é disseminado em todo o País. Há uma mulher eleita na região, no entanto, que se destaca justamente por ter construído seu capital político próprio: trata-se de Fátima Bezerra, eleita duas vezes governadora do Rio Grande do Norte pelo PT. 

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A esquerda no Nordeste

Fátima Bezerra (PT) chegou ao posto de governadora do RN sem capital político familiar
Foto: Divulgação

Em 2018, o Brasil elegeu apenas uma governadora entre todas as 27 unidades federativas do País. Mais uma vez, no Rio Grande do Norte. Em um contexto de disseminação da extrema-direita, com a eleição de Jair Bolsonaro no governo federal, os potiguares colocavam no topo do seu Executivo uma mulher vinda do movimento sindical.

“Fátima não surge de uma dessas famílias. Ela construi ali uma trajetória ao longo de décadas, que vem do movimento sindical dos professores, ela entra no PT ainda no início dos anos 80, se não me engano. Ela foi deputada estadual, foi deputada federal, por três mandatos, ela chega ao Senado antes de disputar o governo”, avalia Vanderlânia Ferreira, que destaca que Fátima Bezerra não chegou ao cargo de governadora como uma “outsider política”

“O que ela não tinha era esse capital familiar que aparece na trajetória de grande parte de outras governadoras. A gente trabalha justamente com essa diferença entre o capital familiar e aquilo que a gente chama de ‘capital de notoriedade’. É um reconhecimento que foi construído pela própria Fátima, pela própria trajetória dela, pela atuação dela sindical e política” -- Vanderlânia Ferreira

Para a cientista social Sônia Wright, os movimentos sindicais e sociais são uma das principais formas de mulheres conseguirem se manifestar organicamente na política. “Isso não ocorre só no Nordeste. São estudos que abrangem de forma internacional mesmo.”

Das cinco, Bezerra pode ser considerada a segunda representante da esquerda entre as governadoras eleitas na região. Além dela, houve: Roseana Sarney (MDB), no Maranhão, de centro-direita; Wilma de Faria (PSB), também no RN, de centro-esquerda, mas com alianças mais amplas localmente; Rosalba Ciarlini (DEM), que apoiou José Serra em 2010 e foi a única oposicionista do PT no governo federal a se eleger na região, também no RN; e Raquel Lyra, que se elegeu em 2022 pelo PSDB em Pernambuco, mas disputa a reeleição pelo PSD. 

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Com o predomínio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Nordeste, a região costuma ser frequentemente associada à esquerda. Mas, dentro das eleições locais, há disputas internas que vão além dessa definição. 

“O voto presidencial desde 2002 tem se consolidado como um voto de esquerda e muito vinculado à figura de Lula. Isso é imbatível, é um voto majoritário, em todos os Estados da região. Mas no âmbito subnacional, a gente tem diversidades. Vamos ter estados que são mais de centro-esquerda, mas costumam ocorrer ciclos” -- cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)

O que demandam as mulheres no Nordeste? 

Mulheres possuem, sim, demandas específicas enquanto eleitoras e cidadãs. A professora Luciana Santana explica que as mulheres precisam de mais políticas públicas do Estado e têm um olhar mais apurado para a aplicação dessas políticas.

“Pelas próprias condições de distribuição social do trabalho no Brasil, que é muito desigual, as mulheres acabam assumindo muito os custos do cuidado, da educação, do acompanhamento da saúde, de pessoas com deficiências. Elas transitam mais pelas cidades no dia-a-dia, nesses percursos, indo para escolas, postos de saúde. Então, as mulheres acabam lidando mais com problemas que afetam as pessoas no cotidiano” -- Luciana Santana 

Com relação ao recorte regional, a cientista social Vanderlânia Ferreira frisa que o Nordeste possui uma grande diversidade entre os seus nove Estados, mas há algumas condições estruturais que podem nortear como o eleitorado feminino se comporta.

“O eleitorado do Nordeste apresenta uma renda domiciliar média que é inferior à média brasileira por exemplo. Ele concentra uma população majoritariamente preta e parda, de acordo com os dados. Existe uma desigualdade de gênero muito importante na divisão do trabalho doméstico, em 2022, o IBGE mostrou, por exemplo, que as mulheres nordestinas dedicavam, em média, 23 horas semanais aos cuidados e afazeres domésticos.”

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Eleições 2026

Eleitorado Feminino no Nordeste

Total Mulheres: 22.775.760 (52,88%)
 
BA Bahia 5.980.120 eleitoras PE CE 3.706.645 MA 2.719.808 PI RN PB AL SE * Toque em qualquer estado do mapa ou use as abas para consultar
Dados Oficiais TSE 2026

Bahia (BA)

Capital: Salvador

BA
Mulheres Aptas
5.980.120
52,50% do total
Homens Aptos
5.409.880
47,50% do total
Feminino: 52.5% Masculino: 47.5%
 
 
Total de Eleitores no Estado: 11.390.000

Maior colégio eleitoral da região Nordeste e quarto maior do país. As eleitoras baianas superam os homens por mais de 570 mil votos.

Estado (UF) Eleitoras (Mulheres) % Feminino Eleitores (Homens) Total Geral
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - Estatísticas do Eleitorado 2026. Região Nordeste • 9 Estados • Brasil

Vanderlânia Ferreira defende que as desigualdades de gênero fazem com que questões como emprego, renda, saúde, educação, acesso a creches e transportes tenham consequências mais concretas sobre a vida das mulheres. 

“Vamos ter questões mais pessoais, como religião, que vão introduzir questões muito morais relacionadas à família, então também tem um peso muito importante. Não significa que a mulher nordestina necessariamente prioriza esses temas no momento de votar, mas significa que essas são condições materiais muito importantes na formação das experiências e das demandas delas" -- Vanderlânia Ferreira

Ela complementa que as mulheres do Nordeste não têm uma demanda completamente diferente das mulheres de outras regiões, mas o que muda é o contexto e muitas vezes a intensidade dessas desigualdades que elas sofrem. Vanderlânia reforça ainda que não é possível determinar o voto de alguém somente pelo gênero, religião, raça ou classe social. “Essas identidades vão se cruzando.”

A mulher nordestina de direita x de esquerda

Tayna Fogos conta que se expôs como mulher conservadora apenas a partir de 2022
Foto: Arquivo Pessoal

Tayna Fogos, de 44 anos, é empresária no ramo de fogos de artifício em Vitória da Conquista, na Bahia, e diz que se envolveu com política “desde pequena, por amor mesmo”. Criança, via o avô, empresário do ramo agrícola, receber o ex-governador Antônio Carlos Magalhães (ACM) na cozinha de casa. 

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“Meu avô nunca quis entrar na política, mas sempre quis realmente apoiar, porque sabia que era dali que vinham os incentivos”, relembra. Mas mesmo sempre acompanhando a movimentação política da cidade, foi apenas em 2022, aos 40 anos, que Tayna vestiu a camisa de um partido e se assumiu como mulher conservadora de direita. 

A explicação para o alinhamento com a direita, para Tayna, é simples: “Eu sou cristã”, diz. “Sou pastora e a gente entende que na Bíblia existem algumas coisas que a gente acredita muito. E por ser de direita, o que que é de direita? Vamos dizer assim, a gente acredita na família. A base da nossa vida é a família. Então, hoje eu me posiciono. Há 4 anos, eu tive que me levantar, porque a gente viu que isso a gente tava perdendo."

A mais de 1.000 quilômetros de distância dali, em Recife, capital pernambucana, a jovem Dayane Bezerra, de 25 anos, é cientista social de formação e militante profissional, atuando como trabalhadora em movimentos sociais. Ela começou a se organizar politicamente em 2021, através de um movimento feminista que conheceu pela universidade. Mas Dayane conta que já se considerava de esquerda antes disso, por volta dos 14 anos de idade.

Dayane Bezerra participa de movimentos sociais desde 2021
Foto: Arquivo Pessoal

“Foi quando eu comecei, ali dentro das aulas de história, a entender um pouco como que funcionava. Eu lembro que o que me pegou a princípio foi estudar sobre o recorte da década de 70 de 60, ditadura empresarial-militar, e aí eu lembro que parei realmente para entender o que era direita, o que era esquerda, o que era capitalismo, o que era socialismo e a partir daí já me entendia uma mulher de esquerda.” 

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Enquanto mulheres, Tayna e Dayane dão respostas distintas sobre suas principais demandas na política: a empresária destaca como ponto principal de atenção dos governantes as ações voltadas a mães atípicas, já a militante pensa no crescimento do feminicídio e da violência contra a mulher como questão mais importante no momento.

Ao mesmo tempo, Dayane defende que se avancem em pautas relativas ao corpo feminino, como a descriminalização e legalização do aborto. Por outro lado, Tayna considera que o aborto deve ser permitido da forma como a lei atual permite – em casos de estupro, em risco de vida para a gestante ou anencefalia fetal. Pessoalmente, no entanto, pela sua religião, ela se diz contrária ao ato do aborto. 

De pontos em comum, as duas eleitoras parecem compartilhar o amor por seus Estados. Com o tradicional bairrismo comum à região, ambas destacam a cultura da Bahia e de Pernambuco como singulares. Por outro lado, enquanto Dayane afirma sentir que seu Estado é assistido pelo governo federal, Tayna diz que as políticas públicas não chegam efetivamente ao seu.

Para o próximo presidente da República, seja quem ele for, a empresária faz um apelo: “Resolva o caos do Brasil. Nós estamos no caos. É, resolva o caos. Hoje a gente precisa entender e falar para o presidente assim: ‘Ó, nós não queremos que as políticas aconteçam somente para grupinhos. Precisamos entender que a política tem que chegar a todos’.”

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Já Dayane faz um pedido mais direto, voltado aos trabalhadores: “Eu diria: ‘presidente, dialogue com os movimentos sociais, dialogue diretamente com a classe trabalhadora. Somos nós, a militância organizada, que elege o presidente, né? Que vai para as ruas, que pede voto. É a gente que dialoga e a gente não faz isso só para eleger essa figura, mas a gente quer construir essa essa gestão, durante esses 4 anos. Então, seja quem for, né, que essa essa figura possa estar dialogando diretamente com a classe trabalhadora organizada.”

Fonte: Portal Terra
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