O voto feminino pode ser o grande fiel da balança nesta eleição. Com 83,9 milhões de títulos, as mulheres serão a maioria, representando 52,8% do total. Já durante a pré-campanha, os candidatos fizeram vários acenos e buscam conquistar essa parcela importante do eleitorado.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Apesar disso, pela primeira vez neste século, não há uma mulher presente em uma das chapas competitivas. Lula (PT), Flávio (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) optaram por homens como candidatos a vice.
Em comparação a 2022, o retrocesso fica claro. Na ocasião, quatro mulheres foram postulantes ao Palácio do Planalto: Simone Tebet (MDB), Soraya Thronicke (União), Sofia Manzano (PCB) e Vera Lúcia (PSTU). Na ocasião, inclusive, Tebet liderava uma chapa 100% feminina com a senadora Mara Gabrilli (PSDB) como vice.
Neste ano, as únicas chapas com candidatas mulheres são: Clariana Barão (DC), com Fabiana Torquato como vice; e Samara Martins (UP), ao lado de Raquel Brício. Em duas dobradinhas compostas por um único gênero.
Os números mais recentes da pesquisa Datafolha, divulgados em 24 de julho, reforçam a avaliação da importância do voto feminino ao mostrar uma vantagem de Lula entre as mulheres e um empate técnico entre os homens, indicando que o eleitorado feminino pode ser decisivo na definição da disputa. Entre as eleitoras, o atual presidente aparece com 50% das intenções de voto, enquanto Flávio registra 40%. Já entre os homens, o senador soma 46%, contra 45% de Lula. No levantamento geral, o petista tem 48% das intenções de voto, ante 43% de Flávio. Outros 9% afirmam que votariam em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos, enquanto 1% não soube responder.
A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais no resultado geral e de três pontos percentuais, para mais ou para menos, nos recortes por gênero. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-01166/2026.
Diante desse cenário, o eleitorado feminino passou a ocupar posição central nas estratégias dos presidenciáveis. Ao longo da campanha, os candidatos intensificaram os acenos às mulheres, tanto por meio dos discursos quanto das propostas apresentadas, na tentativa de ampliar a adesão desse segmento do eleitorado.
Lula amplia aceno, mas fica deixa mulheres longe em ações práticas
A campanha de Lula tem buscado aproximar o presidente do eleitorado feminino a partir de pautas ligadas à proteção das mulheres e à ampliação de direitos. Nos discursos recentes, o petista passou a dar mais destaque ao combate ao feminicídio, defendendo o endurecimento das punições para crimes cometidos contra mulheres. O governo ainda tem utilizado programas sociais como uma de suas principais vitrines, sob o argumento de que essas iniciativas têm impacto especialmente entre as mulheres.
Porém, durante a convenção nacional do PT, ficou claro que a falta de protagonismo real para as mulheres. Durante o seu discurso, Lula chamou Janja, de improviso, para corrigir o erro e fez dela uma voz feminina entre os oradores masculinos presentes no palco.
No terceiro mandato, o petista sancionou a lei que estabelece a igualdade salarial entre homens e mulheres e iniciou a composição do governo com um recorde de 11 ministras. Após as mudanças realizadas no primeiro escalão, em abril de 2026, o número de mulheres à frente de ministérios caiu para oito.
Apesar das iniciativas voltadas ao público feminino, o governo também enfrentou críticas de entidades ligadas às mulheres negras e de juristas pela ausência de uma mulher negra entre as indicações feitas para o Supremo Tribunal Federal (STF). Durante o atual mandato, as três escolhas para ocupar vagas na Corte foram homens: Cristiano Zanin, Flávio Dino e Jorge Messias, sendo este último rejeitado pelo Senado e apontado como uma possível nova indicação.
Flávio tenta ampliar diálogo em meio a tensão com Michelle
Senador desde 2019, Flávio Bolsonaro passou a incorporar pautas direcionadas diretamente às mulheres em sua atuação política a partir de 2025. Naquele ano, apoiou uma PEC relacionada ao direito das mulheres a uma vida livre de violência. Já em 2026, apresentou dois projetos com foco nesse público: um que prevê a criação de unidades de pronto atendimento à mulher dentro do SUS e outro que autoriza autoridades policiais a conceder medidas protetivas de forma imediata em casos de violência doméstica.
Durante a convenção que oficializou sua candidatura à Presidência, o senador começou o discurso com uma homenagem à esposa, Fernanda Bolsonaro, e agradeceu o apoio dela em sua trajetória política. Na sequência, também se dirigiu à mãe, Rogéria, que estava presente no palco. A escolha por começar a fala com referências familiares foi vista como uma tentativa de aproximar sua imagem do eleitorado feminino, segmento em que enfrenta maior dificuldade de adesão.
A tentativa de aproximação com esse eleitorado, porém, ocorre em meio a episódios que geraram desgaste para a imagem do senador. A relação pública conturbada com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e declarações do influenciador Paulo Figueiredo -- aliado de Flávio -- afirmando que mulheres "votam muito mal" tiveram repercussão negativa. Após a reação às falas, Figueiredo voltou ao tema nas redes sociais e publicou uma foto segurando um cartaz com a frase: "Mulher vota mal para caralho. Mude a minha opinião".
As declarações aconteceram poucos dias depois de Michelle Bolsonaro publicar um vídeo no qual relatou ter sido humilhada pelo enteado. Mais tarde, os dois divulgaram gravações em que apareceram reconciliados publicamente.
Na última quarta-feira, 5, durante o anúncio do deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice, Flavio fez uma declaração machista ao afirmar que “fez duas filhas” para que elas cuidem dele quando for idoso. O filho mais velho de Jair Bolsonaro acabou anunciando um homem para compor a chapa após não avançar em acordos com mulheres para fechar uma coligação.
Caiado aposta em endurecimento de punições contra violência às mulheres
O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado também incorporou pautas voltadas às mulheres ao discurso de campanha durante a convenção que confirmou sua candidatura à Presidência pelo PSD. No evento, o candidato destacou o combate à violência contra as mulheres e defendeu medidas mais rígidas contra os autores desses crimes.
Entre as propostas apresentadas por Caiado estão a obrigatoriedade do uso de tornozeleira eletrônica por agressores, o aumento das penas para condenados por violência doméstica e feminicídio e o confisco de bens dos responsáveis por esses delitos, com a transferência dos recursos às vítimas.
O posicionamento de Caiado sobre políticas voltadas à participação feminina na política, no entanto, inclui críticas a medidas como a adoção de cotas obrigatórias para mulheres. Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em 2025, o então governador defendeu que a representatividade seja resultado da capacidade dos candidatos, e não de uma imposição legal. “Então isto aí é uma reforma que não é na obrigatoriedade, mas é na competência de você poder ter algo que seja, tá certo?”.
Durante sua gestão em Goiás, Caiado sancionou, em 2024, uma lei que criou a campanha de conscientização contra o aborto. A norma prevê que o Estado disponibilize exame de ultrassom com batimentos cardíacos do feto para mulheres que buscam o procedimento nos casos previstos pela legislação brasileira, como gravidez decorrente de estupro, risco de vida para a gestante e anencefalia fetal.
Zema associa maior presença feminina na política ao combate à corrupção
A presença feminina na política passou a fazer parte dos argumentos usados por Romeu Zema (Novo) durante a campanha presidencial. Em um vídeo publicado no início de julho, o ex-governador de Minas Gerais defendeu que a ampliação da participação das mulheres em cargos públicos poderia contribuir para reduzir casos de corrupção.
Além do discurso sobre maior participação feminina, o candidato já defendeu mudanças em políticas públicas voltadas a famílias beneficiárias do Bolsa Família. A proposta apresentada por ele prevê a manutenção ou ampliação dos benefícios para mulheres com filhos e a exigência de qualificação profissional ou trabalho para homens jovens atendidos pelo programa. Zema também afirma defender penas mais duras para autores de violência contra mulheres.
No governo de Minas Gerais, Zema criou o programa MG Mulher, voltado ao enfrentamento da violência doméstica. A política reúne ferramentas como aplicativo de apoio às vítimas, acompanhamento de agressores e um núcleo integrado para monitoramento dos casos.
A relação do candidato com pautas ligadas aos direitos das mulheres, porém, também inclui posicionamentos contrários a algumas iniciativas. Em uma publicação, Zema criticou o PL da Misoginia, projeto que propõe incluir na Lei Antirracismo os atos de misoginia, definidos como “a prática, a indução ou a incitação de menosprezo ou discriminação contra a mulher, que promova violência, negue sua igualdade de direitos ou ofenda sua dignidade, em razão da condição de mulher”.
Renan Santos mira eleitorado feminino com discurso sobre punição
Candidato à Presidência pelo Missão, Renan Santos tem colocado entre suas principais propostas para o público feminino o endurecimento das punições para crimes cometidos contra mulheres. Entre as medidas que pretende incluir no plano de governo está o aumento da pena para autores de violência doméstica.
Além das propostas de segurança e proteção às mulheres, Renan também passou a destacar referências femininas em suas manifestações públicas. No início de julho, publicou um vídeo em que citou a jornalista Malu Gaspar como uma mulher “inspiradora”, após reportagem de O Globo revelar que Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, teria mandado investigar a vida da jornalista para tentar "calá-la". Na gravação, Renan afirmou que Malu foi alvo por causa do trabalho jornalístico e disse que ela deveria ser vista como exemplo.
O histórico do candidato, porém, também inclui episódios de repercussão negativa envolvendo declarações sobre mulheres. Em 2021, um vídeo antigo, gravado em 2018, voltou a circular nas redes sociais. Na gravação, Renan aparece liderando um coro e dizendo que uma amiga poderia ser estuprada. Na época, a então ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, solicitou uma investigação sobre o caso.
No ano seguinte, em 2022, Renan voltou a se envolver em uma controvérsia relacionada ao tema. Durante uma live do MBL News, após a divulgação de áudios com declarações sexistas feitas por Arthur do Val sobre mulheres ucranianas, ele defendeu o então deputado estadual diante da possibilidade de cassação. "Foi uma declaração merda, mas isso não é roubar. E ele tá sendo cassado! Acorda! A gente precisa começar a agir já!", afirmou.