Diferentes Amazônias, diferentes mulheres: o que move o voto feminino no Norte

Região é marcada por figuras políticas femininas que abriram portas à representatividade no poder público

1 out 2026 - 04h57

Assim como as Amazônias se diferenciam nos sete Estados da região Norte, o eleitorado feminino do território também tem suas particularidades. Mesmo em diferentes espectros ideológicos, as experiências concretas dessas mulheres revelam demandas específicas relacionadas ao território e à representação feminina. 

  • Essa reportagem faz parte do especial Mulheres do Brasil nas urnas, que traz um Raio-X das eleitoras e candidatas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que as mulheres correspondem a 51% do eleitorado da região Norte, com 6.694.588 mulheres aptas a votar. A região também apresenta um alto número de candidaturas femininas, com 64% de candidatas contra 38% de candidatos do gênero masculino. Apesar de serem maioria, elas continuam sub-representadas nos espaços de poder. 

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Especialistas avaliam perfil das eleitoras da região Norte e suas principais demandas
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Por outro lado, a região Norte abriu espaço para a representação feminina em diversas esferas do poder público. Foi no Acre, por exemplo, que uma mulher chegou ao governo de um Estado pela primeira vez. Na ocasião, Iolanda Fleming foi responsável pelo pioneirismo em 1986. Quatro anos antes, a acreana Laélia de Alcântara já havia se tornado primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Senado. O Estado também tem a figura de Marina Silva como representante em esferas federais. 

No Amazonas, a professora Eunice Michiles foi a primeira mulher a ser eleita senadora pelo voto popular após a redemocratização. Em Roraima, a advogada Joênie Wapichana tornou-se a primeira mulher indígena a conseguir uma cadeira como deputada federal, na eleição de 2018.

Exemplos de mulheres nortistas aguerridas, e que buscam a representação feminina em cargos de poder, não faltam. Mas as dificuldades que eleitoras da região Norte enfrentam, com suas particularidades variando de região para região, trazem à tona a necessidade de atenção para demandas específicas.  

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Eleições 2026

Eleitorado Feminino no Norte

Total Mulheres: 6.690.697 (51,04%)
 
PA Pará 3.172.200 eleitoras AM Amazonas 1.413.500 eleitoras RR 206.640 AP 297.850 RO 640.080 TO 600.620 AC 314.150 * Toque em qualquer estado do mapa ou use as abas acima para selecionar
Dados Oficiais TSE 2026

Pará (PA)

Capital: Belém

PA
Mulheres Aptas
3.172.200
51,00% do total
Homens Aptos
3.047.800
49,00% do total
Feminino: 51.0% Masculino: 49.0%
 
 
Total de Eleitores no Estado: 6.220.000

Maior colégio eleitoral da Região Norte, concentrando quase metade de todos os eleitores da Amazônia legal. As mulheres lideram em Belém, Ananindeua e Santarém.

Estado (UF) Eleitoras (Mulheres) % Feminino Eleitores (Homens) Total Geral
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - Estatísticas do Eleitorado 2026. Região Norte • 7 Estados • Brasil

Em busca de Justiça

A amazonense Nathália Castro, de 29 anos, conta ao Terra que o interessa pela política surgiu em 2016, quando estava iniciando um estágio no setor público. A partir de situações erradas e fora do comum no âmbito em que trabalhava, ela percebeu que o local sofria com desvios de recursos públicos que acabavam prejudicando a oferta de medicamentos a população. 

"Ou eu assistia e ficava como uma pessoa de plateia, ou eu falava o que eu sabia. Foi quando comecei a me envolver com política. Percebo que a sociedade tem ficado cada vez mais selvagem quando falamos de política, enquanto vemos mulheres com medidas protetivas sendo assassinadas, com a demora do poder público para agir" -- Nathália Castro

Nathália Castro é empresária, estudante de Direito e comunicadora; ela se classifica como ultradireita
Nathália Castro é empresária, estudante de Direito e comunicadora; ela se classifica como ultradireita
Foto: Arquivo Pessoal

Nathália diz que se identifica como uma pessoa de ultradireita, mas ressalta que usar verde e amarelo "não é um salvo conduto para cometer crimes". Nas redes sociais, ela faz denúncias e questiona medidas tomadas por políticos ou pelo poder público, como uma maneira de ajudar a população como um todo, mas, especialmente, as mulheres.

"A pessoa deve responder pelos seus atos independente do espectro político que ela possa ocupar. Eu sou anticorrupção, por isso, me considero de ultradireita. Quando eu olho pra um político, independente de ser homem ou mulher, ele precisa defender aquilo que eu acredito", declara, revelando que votará em Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições deste ano. 

Nathália defende uma maior presença das mulheres em cargos políticos, mas reconhece que há uma carência em seu Estado. Ela acredita que as políticas públicas voltadas para o público feminino como um todo avançam a passos de formiga. 

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"Uma mulher precisa provar várias vezes o seu valor, a sua competência e sua capacidade de ser ouvida. Me atacam por achar que sou uma figura mais frágil, mas em momento nenhum isso me atinge. Muitas vezes, essas pessoas não têm argumento de verdade" -- Nathália Castro, sobre os ataques que recebe na internet

Questionada sobre as demandas que espera do próximo presidente, como mulher, ela avalia que o principal é ter um governo sem corrupção para que as políticas para o público feminino consigam avançar. "Espero que o próximo presidente sirva de forma genuína. Não se sirva do povo, mas se sirva ao povo."

Herança familiar

Na residência de Anne Larissa de Carvalho conversar sobre política sempre fez parte da rotina. A jovem de 32 anos, que é natural do Acre, recorda que, desde criança, o tema sempre foi discutido abertamente em sua família, o que a levou, ao longo dos anos, a querer desenvolver um pensamento cada vez mais crítico sobre o assunto.

“Eu não me lembro em que momento a política não fez parte da minha vida. Se hoje eu precisasse tirar a política das minhas conversas, eu não sei sobre o que eu conversaria. Vejo que o Brasil passa por uma onda extremamente confusa, onde já evitamos conversar sobre o assunto, o que antes era muito comum. Penso que cada um tem sua visão, e eu respeito" -- Anne Larissa de Carvalho

A acreana se considera de esquerda e declara que votará em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo, 4. De acordo com a empreendedora, ela se envolveu por algum tempo em movimentos estudantis e se recorda de que, muitas vezes, mulheres estavam à frente desses movimentos, mas que hoje percebe que estas mesmas mulheres não estão em cargos políticos de poder. 

Anne Larissa de Carvalho é empreendedora e se considera de esquerda
Foto: Arquivo Pessoal

"Acredito que, infelizmente, muitas candidatas entram na política para serem fantasmas, por obrigatoriedade dos partidos. O que eu gostaria hoje é que essas mulheres soubessem o por quê de estarem entrando na política e se candidatando, gostaria que levantassem pautas efetivas, e não apenas cumprissem uma obrigação."

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Para Anne, a educação é a base essencial para que uma mulher tenha empoderamento sobre as pautas que a beneficiam no dia a dia. Ela defende que o ideal é não olhar para a questão partidária, mas, sim, em candidatos que tragam pautas coerentes com o que é melhor para o eleitorado feminino.

Ela diz que é a favor de mulheres estudarem todas as pautas que a beneficiem, como segurança, saúde, educação, por exemplo, e de opinarem sobre seu próprio voto, sem seguirem opinião religiosa ou do próprio marido.

"Eu garanto para você que o homem sempre procura o que é bom para ele, ele foi ensinado sobre isso. Infelizmente, muitas vezes a mulher não tem essa visão. Por isso, é muito importante que essas mulheres estudem essas pautas, entender o que de bom será feito por elas. A Lei de Igualdade Salarial, por exemplo, existia mas, recentemente, foi tornada constitucional. Espero muito que a gente aumente a qualidade e quantidade de mulheres na política" -- Anne Larissa de Carvalho

Luta por território

Lara Tiffany Alves Ferreira se considera de esquerda e defende lutas por mulheres de comunidades tradicionais
Foto: Arquivo Pessoal

Para a assessora de movimentos sociais Lara Tiffany Alves Ferreira, de 24 anos, natural do Tocantins, o desejo por entender política surgiu ainda na adolescência, motivado pela necessidade de entender de que forma ela poderia ajudar seus familiares e vizinhos de uma comunidade tradicional no interior do Estado. 

"Sinto que o que não está sendo nutrido é a representação de mulheres nas cadeiras. É algo que precisa ser construído de base, para que sejamos de fato, ouvidas. Não para estar ali na política só pra concordar com pautas que homens constroem. Eu me entendo como uma jovem de comunidade tradicional, e entendo que estamos nas bases, mas nem tudo chega como deveria chegar. O pouco que chega pra gente, entendo que sejam de pessoas que colocamos no Congresso", opina.

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De acordo com a assessora, ela viu diferentes maneiras de como os governos federais lidaram com as demandas de sua região. De acordo com ela, uma eventual não-reeleição de Lula seria uma malefício para sua comunidade, bem como para os movimentos sociais.

"Me recordo que no governo de Jair Bolsonaro (PL) foram vetadas muitas verbas que chegavam pra gente trabalhar com indígenas, quilombolas e assetandos. Por isso, temos que analisar todos os critérios para votar, avaliar quem está do nosso lado ou ao menos quem tem um olhar mais voltado pra gente que mora no interior. Sabemos que o governo não atende a 100% das necessidades, mas é o único que tem um olhar mais nacional e sensibilizado pra gente" -- Lara Tiffany Alves Ferreira

Durante o trabalho como assessora e visitando municípios do Tocantins, Lara percebeu que muitas cidades não tinham políticas públicas voltadas exclusivamente para mulheres. Hoje, ela defende que esse tipo de representação pública se faz de extrema importância nesses territórios e que é uma pauta essencial para o próximo presidente. Além disso, ela diz que a religião muitas vezes influencia na escolha política dessas mulheres do interior.

Políticas públicas para todas

A jornalista Guadalupe Pereira menciona a falta de representatividade feminina cis e trans entre parlamentares
Foto: Arquivo Pessoal

A jornalista acreana Guadalupe Pereira, de 31 anos, elenca entre as pautas fundamentais para as mulheres trans e travestis o combate à violência e o acesso à educação.

"O Brasil é um dos países mais violentos em relação à mulheres trans e travestis no mundo. Temos muita dificuldade em colocar mais pessoas trans nas universidades, a nossa sociedade tem muita dificuldade de lidar com com pessoas trans ainda adolescentes, ainda transicionando, então há muito preconceito". 

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Guadalupe destaca que, na hora de escolher em quem votar, ela pesa a forma como a candidata está olhando para sua comunidade, que ainda é pouco representada. Ela avalia que não há um política pública naciona e ainda falta representação em instituições públicas. 

"Nós tivemos um avanço importante com duas mulheres trans deputadas federais nas últimas eleições, ainda mais em relação aos crimes de homofobia. No entanto, uma lei realmente focada na comunidade LGBT+ como um todo, e nas pessoas trans, ainda não foi discutida em plenário" -- Guadalupe Pereira

A jornalista cita a parte econômica como um dos pilares fundamentais para as mulheres trans e travestis, que muitas vezes precisam recorrer a trabalhos precarizados, não regulamentados, ou acabam dependendo de hoomens para conseguir tirar o próprio sustento.

Guadalupe diz, ainda, que apesar de se sentir representada por algumas parlamentares, a quantidade de mulheres cis e trans nessas posições ainda é muito pequena. "Precisamos pensar em algo unificado e que realmente diminua os problemas que todas essas mulheres vivem, para que isso não passe para as próximas gerações."

Particularidades regionais influenciam eleitoras

Márcia Meireles de Assis, professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre (UFAC) e doutora em Ciências Sociais com habilitação em Política e Sociologia, explica que o voto das mulheres da região Norte é marcado por resistência e por conquistas políticas dentro do território, associado a um contexto histórico, político, territorial e socioespacial, que se diferencia de outras regiões.

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"Quando falamos de democracia política, a questão de gênero realmente ainda persiste nas estruturas de poder partidária. As representações do masculino nessas escolhas ainda pesam bastante", argumenta.

Voto das mulheres da região Norte é marcado por resistência e por conquistas políticas dentro do território
Foto: Marcio Binow Da Silva/Getty Images

Historicamente, as demandas femininas estão ligadas aos direitos básicos como saúde, moradia, educação, cultura e lazer. Ela elenca as desigualdades sociais e a educação como fatores essenciais para que as mulheres passem a compreender a política em sua essência, citando a escola como um ativo socializador que fornece sentidos da vida coletiva.

A Profa. Dra. Iara da Silva Castro Almeida, da Universidade Federal do Acre (UFAC), ressalta que as mulheres da região Norte se dividem em diferentes óticas e que, comumente, trazem um olhar ligado mais à sustentabilidade e ao cuidado com a natureza.

"Temos muitas mulheres que vêm de uma raiz sem escolaridade, mulheres que não tiveram estudos. Mulheres que trabalham, estudam, que saem muito cedo das suas casas e voltam muito tarde, mulheres que tem dupla ou até tripla jornada. O que nos diferencia de outras regiões é que aqui pensamos esse espaço como Amazônia" -- Profa. Dra. Iara da Silva Castro Almeida

"Diria que somos múltiplsa, diversas, porque cada uma de nós tem uam visão diferente sobre o mundo que queremos. A política é um cenário de representação e, se não tivermos mulheres pensando políticas para outras mulheres, não teremos uma sociedade melhor e que evolua e que pense nesse público. A política é sobretudo um espaço de decisão", acrescenta a educadora.

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Para Karoline Cavalcante, socióloga e doutora em Ciência Política, existem diversas barreiras que impedem a chegada de mulheres aos cargos eletivos. Ela relembra que em 2026 copletam 30 anos da cota de gênero do Brasil e e declara que, mais da metade desse período, foi com partidos construindo mecanismos para driblar a legislação ou recorrendo a candidaturas fictícias como forma de fingir seu cumprimento.

Entre os fatores que influenciam na entrada das mulheres na política, segundo a socióloga, está a ausência política de cuidados. Ela afirma que, na maioria das vezes, essas mulheres estão consumidas com a tarefa de cuidados de familiares, aliado ao trabalho doméstico ou trabalho fora de casa. 

"Que horas as mulheres vão participar de atividades políticas? Participar de reuniões etc.? Isso por si só já coloca as mulheres em condições de desvantagem na construção de uma possibilidade de se candidatar e consequentemente de participar efetivamente da competição. Soma-se a isso os partidos políticos no Brasil atuam como agentes que criam barreiras adicionais para que as mulheres participem da vida partidária" -- Karoline Cavalcante

Para a especialista, o sistema político a reserva de cadeiras para as mulheres seria uma medida possível capaz de combater esse cenário de baixa representação. Países que adotaram esse mecanismo ampliaram a presença de mulheres nos espaços de poder, de acordo com a socióloga. 

A especialista alerta que, no Brasil, atualmente, as mulheres somam 17% apenas no legislativo e que vários países já conseguiram alcançar a paridade no parlamento, enquanto o Brasil segue entre os piores países do mundo quando o assunto é sub-representação política, segundo os dados da UIP e da ONU mulheres.

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Fonte: Portal Terra
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