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Economia do cuidado é levada em consideração por eleitoras do Sudeste na hora de escolher candidatos  Foto: Imagem ilustrativa/Brasil com S/Lab678

Sobrecarga, trabalho e violência: o que consideram na hora de votar as mulheres do Sudeste, maioria nas urnas

Eleitoras conciliam carreira, família e cuidado enquanto cobram espaço em lugares de poder; especialistas explicam diversidade dos votos

Imagem: Imagem ilustrativa/Brasil com S/Lab678
  • Marcela Ferreira Marcela Ferreira
  • Marcela Coelho Marcela Coelho
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30 set 2026 - 04h57

Trabalhar para sustentar os filhos e a casa, pegar transporte público, chegar em casa e cuidar da família, a realidade em uma cidade violenta e o alto custo de vida. Esses são apenas alguns fatores da rotina que as mulheres que vivem na região Sudeste enfrentam diariamente. Na hora de decidir em quem votar, tudo isso entra na equação, afinal, quem pode representar no governo os interesses de uma mulher que está sempre sobrecarregada?

  • Essa reportagem faz parte do especial Mulheres do Brasil nas urnas, que traz um Raio-X das eleitoras e candidatas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul

As mulheres são maioria entre os eleitores, tanto no Brasil quanto no Sudeste, região formada pelos Estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo e que concentra o maior colégio eleitoral do País.

Nas eleições deste ano, 66,3 milhões de pessoas estão aptas a votar no Sudeste. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 35.280.228 são do gênero feminino, o que representa 53,19% dos eleitores da região.

Os dados mostram que a maior parte das eleitoras da região se declaram solteiras, são 18.764.575 (53,19%). A maioria também tem ensino médio completo (30,78%), e a faixa etária com o maior número de mulheres é a de 40 a 44 anos (9,76%). As eleitoras que declararam nome social são 10.154 (0,03%) e as que citaram ter algum tipo de deficiência são 470.211 (1,33%).

Eleições 2026

Eleitorado Feminino no Sudeste

Total Mulheres: 35.503.501 (53,07%)
 
SP São Paulo 18.233.913 eleitoras MG Minas Gerais 8.646.306 eleitoras RJ 7.038.322 ES 1.584.960 * Toque em qualquer estado do mapa ou use as abas acima para selecionar
Dados Oficiais TSE 2026

São Paulo (SP)

Capital: São Paulo

SP
Mulheres Aptas
18.233.913
53,00% do total
Homens Aptos
16.169.696
47,00% do total
Feminino: 53.0% Masculino: 47.0%
 
 
Total de Eleitores no Estado: 34.403.609

Maior colégio eleitoral do país com 22% dos votos nacionais. As mulheres superam os homens por mais de 2 milhões de eleitores no estado.

Estado (UF) Eleitoras (Mulheres) % Feminino Eleitores (Homens) Total Geral
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - Estatísticas do Eleitorado 2026. Região Sudeste • 4 Estados • Brasil

A advogada, mestre e doutoranda em História Social das Relações Políticas Rosânia Soares, que também é pesquisadora do Laboratório de Estudos de Gênero, Poder e Violência da UFES, destaca que existem muitas 'mulheridades' --pluralidade e diversidade de vivências, experiências e formas de ser mulher-- no Sudeste, mas afirma que a eleitora da região com certeza é trabalhadora.

“É uma mulher que trabalha, que se dedica ao cuidado dos familiares. São mulheres que, muitas vezes, as pessoas falam: ‘As mulheres não se interessam por política’. Mas, na verdade, o cotidiano dessas mulheres está ocupado por muitas coisas: por estudo, por trabalho, pelo cuidado de outras pessoas. Realmente não é uma prioridade na vida dessas mulheres o interesse pela discussão política” -- Rosânia Soares

“Talvez por isso haja tantas mulheres que falam assim: ‘Não quero saber de política’, porque o cotidiano delas já está preenchido por muitos afazeres e por muitas preocupações. Às vezes, a política, até pelos escândalos, por toda essa questão, afasta a mulher. Mas, com certeza, é uma mulher trabalhadora”, acrescenta Rosânia. 

O peso do número expressivo de eleitoras da região também não significa que exista um único “voto feminino”. Embora as mulheres do Sudeste formem um eleitorado heterogêneo, atravessado por renda, idade, religião, escolaridade e território, há pontos que as conectam, avalia a doutora em Ciência Política Hannah Maruci.

O trabalho, o cuidado e a violência são assuntos comuns entre mulheres do Sudeste de diferentes ideologias políticas
O trabalho, o cuidado e a violência são assuntos comuns entre mulheres do Sudeste de diferentes ideologias políticas
Foto: Imagem ilustrativa/Brasil com S/Lab678

No Sudeste, segundo Hannah, esse comportamento ganha contornos específicos nas periferias das grandes regiões metropolitanas. As capitais São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Vitória concentram mulheres que, em muitos casos, são chefes de família, trabalham na informalidade e dependem diretamente de serviços públicos.

“Essa sobrecarga a gente poderia dizer que é um fio comum”, ressalta. Para ela, violência, saúde, trabalho e cuidado estão conectados porque recaem de maneira desproporcional sobre as mulheres, em comparação aos homens. A economia entra no conjunto especialmente quando elas são as principais provedoras do lar.

Para Hannah, o voto das mulheres no Sudeste não é ideologicamente uniforme. “Mais que o alinhamento ideológico, o voto feminino está muito ligado a um critério pragmático”, explica. De acordo com ela, uma mesma eleitora pode escolher candidatos de correntes políticas diferentes para cargos distintos, avaliando o impacto que cada proposta pode ter sobre sua vida.

Renda, religião e território ajudam a explicar essas diferenças. Mulheres de baixa renda podem dar maior peso a programas sociais e ao custo de vida, enquanto mulheres evangélicas das periferias metropolitanas são, conforme Hannah, um eleitorado disputado pelo campo conservador por causa dos valores.

A cientista política ressalta ainda que esse comportamento não deve ser interpretado como falta de informação ou de capacidade de decisão. Para quem depende diretamente de uma política pública, o resultado dela pode ser um critério concreto para avaliar a gestão do governo. “Quem depende da política pública sabe onde ela funciona melhor, e onde ela não funciona”, pontua.

Segurança é prioridade, mas cuidado e educação também estão no radar

Embora as demandas femininas do Sudeste sejam diversas, a pesquisadora Rosânia ressalta que todas elas têm preocupação com a segurança das mulheres. “Os números do feminicídio e da violência doméstica estão muito altos. Todas nós temos essa preocupação com a segurança.”

“A gente tem os direitos garantidos na Constituição, por exemplo, a lei Maria da Penha, que é uma das melhores leis do mundo, mais completas. E a gente todo dia tem a sensação de que essa lei não serve para nada. Não adianta aumentar a pena e as violências continuarem acontecendo” -- Rosânia Soares

Para Rosânia, políticas públicas para garantir o cumprimento das leis deveriam ser mais cobradas pelas mulheres de seus candidatos. “Hoje, a gente tem uma lei que acaba sendo letra morta, porque se não tem mecanismos dentro do Estado que realmente consigam enfrentar, prevenir e punir a violência contra a mulher, essa violência vai continuar acontecendo.”

“A política pública para a mulher vai desde pensar a iluminação pública do bairro até, por exemplo, a mobilidade urbana, por onde que vai passar a linha de ônibus, porque realmente a nossa realidade é diferente”, diz a especialista. “A gente precisa de políticos que, com mandato, realmente consigam compreender nossas demandas. Em toda matéria que venha a ser votada e discutida, é necessário que se lance esse olhar da perspectiva de gênero”, completa.

A violência contra as mulheres ganhou mais espaço entre os discursos políticos nas eleições deste ano. Para Hannah, a mudança mais importante é que feminicídio e violência doméstica deixaram de ser tratados apenas como questões privadas ou setoriais e passaram a integrar o debate mais amplo sobre segurança pública.

Mulheres do Sudeste têm a sobrecarga em comum, fator decisivo nas urnas. Conciliar carreira e família está entre prioridades
Mulheres do Sudeste têm a sobrecarga em comum, fator decisivo nas urnas. Conciliar carreira e família está entre prioridades
Foto: Imagem ilustrativa/Brasil com S/Lab678

De acordo com a cientista política, candidatos que deixam o tema de lado, perdem o diálogo com uma parte importante do eleitorado. “Falar de segurança sem falar de violência doméstica ou falar de economia sem falar de cuidado não é dialogar com as mulheres.”

A abordagem também varia de acordo com o campo político dos candidatos, que quando são de direita, tendem a enfatizar respostas mais punitivas, enquanto a esquerda costuma defender a prevenção e proteção, associada à Lei Maria da Penha.

A coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM) e doutora em Ciência Política Mayra Goulart identifica outro ponto de convergência entre as mulheres na hora de votar: a responsabilidade pelo cuidado dentro das famílias. “As mulheres têm em comum na sociedade patriarcal um lugar na divisão sexual do trabalho que nos coloca como responsáveis pelas dinâmicas de cuidado da família.”

Por isso, saúde e educação ganham importância não apenas como políticas públicas gerais, mas também porque muitas mulheres são responsáveis por acompanhar filhos, pais idosos e outros familiares.

O que explica poucas mulheres em cargos políticos?

Se as mulheres são maioria entre os eleitores, a mesma proporção não aparece entre as candidatas e as eleitas. Nas últimas eleições gerais, em 2022, apenas 33% dos candidatos do Sudeste eram do gênero feminino. No pleito de 2026, são 34%.

Já entre os candidatos eleitos na região na eleição de 2022, apenas 20% são mulheres, ou seja, foram 96. Considerando todos os cargos, 374 homens do Sudeste foram eleitos, o que representa 80%.

Para a Câmara dos Deputados, nas últimas eleições gerais, 91 mulheres no Brasil todo foram eleitas, cerca de 18% da Casa. Embora tenha tido um crescimento em relação à 2018, quando 77 deputadas foram eleitas, a participação das mulheres no Legislativo federal ainda é baixa. O TSE destaca que, apesar de representarem aproximadamente 53% do eleitorado do Brasil, as mulheres ocupam menos de um quinto das cadeiras da Câmara.

“As mulheres decidem as eleições, mas elas não decidem quem está na cédula" -- Hannah Maruci

Rosânia cita que a lei de violência política foi instituída, mas não mudou a quantidade de incidências de violência política contra as mulheres nos espaços de poder, o que as afastam desse espaço.

“A violência política vai para além do ataque verbal ou físico, da agressão. Ela tem uma questão simbólica. É atrasar, por exemplo, o projeto de lei de uma mulher que só pelo fato dela ser mulher, é obstaculizar o acesso dela a certas discussões, a certos movimentos. Tem uma uma questão também que permeia que é invisível. Por ser um ambiente majoritariamente ocupado por homens é como se existe um pacto silencioso entre esses homens que realmente entende que essa mulher não deveria estar ocupando aquele espaço. É violento para as mulheres.”

Outro fator é a culpa feminina. “Por exemplo, mulheres que têm filhos e passam muitas horas longe de casa, então afasta essas mulheres”, explica. Rosânia ainda avalia que tanto mulheres quanto homens não são educados sobre política e, muitas vezes, não entendem como funciona a eleição, com sistema proporcional.

“São tantas variáveis que parece que é feito para que a gente não entenda mesmo, não só as mulheres, mas acaba que elas ficam mais prejudicadas, porque a gente tem uma representação menor e vai continuar tendo, porque a gente não compreende quais são as regras do jogo" -- Rosânia Soares

Importância das mulheres em cargos de poder

Rosânia destaca que a perspectiva da mulher dentro de qualquer espaço de poder sempre vai trazer mudanças significativas. “Para que isso chegue realmente à população, a gente precisa de orçamento. O principal da gente colocar mulheres nesse lugar é que a gente possa cobrar, é ter uma voz que cobre que seja destinado orçamento para as nossas políticas.”

“Quando tem uma mulher nesse espaço de poder, é mais fácil que essa mulher puxe uma outra mulher” -- Mayra Goulart

Eleitoras conciliam carreira, família e cuidado enquanto cobram espaço em lugares de poder; cientistas políticas explicam diversidade do voto na região
Eleitoras conciliam carreira, família e cuidado enquanto cobram espaço em lugares de poder; cientistas políticas explicam diversidade do voto na região
Foto: Imagem ilustrativa/Brasil com S/Lab678

Especialistas, no entanto, pontuam que não necessariamente as pautas femininas serão colocadas em discussão caso mais mulheres sejam eleitas. Mayra diz que há uma separação entre a presença de mulheres na política, de uma “agenda substantiva” de igualdade de gênero. Uma mulher pode ocupar um cargo público sem necessariamente defender políticas destinadas a combater desigualdades entre homens e mulheres.

Hannah também vê uma possível mudança no cenário de São Paulo. Segundo ela, duas candidaturas femininas ao Senado apresentam potencial competitivo em 2026, enquanto a disputa pelo governo estadual permanece concentrada em homens. Para a cientista política, o resultado pode ser observado como um sinal de transformação na representação feminina, ainda que o espectro ideológico das candidatas seja diferente.

Mulheres reais no Sudeste

Giovanna Ricci, empresária de 42 anos, moradora de São Paulo e mãe de três filhos, afirma que o voto feminino não pode ser pensado apenas a partir de interesses individuais. As prioridades que ela leva para a escolha de candidatos passam pela segurança das mulheres e das crianças, pela educação e por políticas que permitam conciliar maternidade e trabalho.

Giovanna Ricci afirma que segurança e educação são prioridades na hora de escolher candidatos
Giovanna Ricci afirma que segurança e educação são prioridades na hora de escolher candidatos
Foto: Arquivo pessoal/Cedido ao Terra

“Eu acho que a gente deveria fazer um exercício para votar: o que vai ser bom, o que me representa, o que vai ser bom para minha comunidade?”, comenta. Para ela, pensar no coletivo é fundamental para que questões como educação e proteção de crianças não sejam tratadas como problemas restritos a determinadas famílias.

Como mãe, a segurança e os direitos das crianças aparecem entre suas principais preocupações. Giovanna diz acompanhar propostas voltadas à proteção de menores, inclusive aquelas que discutem a relação das crianças com a internet e o acesso a conteúdos que considera nocivos.

A educação também ocupa um lugar central. Ela faz críticas ao sistema público de ensino e exige melhorias. “Você tem criança saindo que não é alfabetizada. Isso é manutenção da pobreza, isso é opressão”, afirma.

Outra demanda apontada por Giovanna é o apoio às mães que querem permanecer no mercado de trabalho. Ela defende a ampliação de escolas, creches e berçários e chama atenção para a divisão dos cuidados entre homens e mulheres. Para ela, discutir a licença-paternidade também deveria fazer parte da agenda eleitoral de todos os candidatos, o que não é discutido em grande parte das propostas de governo.

A mineira Deyse Amaral, de 41 anos, advogada, empresária, produtora rural e mãe de três filhos, também cita a segurança pública como uma das suas principais preocupações e destaca que o tema precisa ser prioridade para o próximo governo. Segundo Deyse, ela já foi assaltada e se sente insegura pelas ruas de Minas Gerais, não só devido aos criminosos como também pela presença de usuários de drogas. 

“Hoje eu não tenho coragem de soltar os meus filhos para estudar em Belo Horizonte, por exemplo. Eu trouxe os meus filhos para estudar em Goiânia por causa da segurança pública. Esse é um problema sério, que não é exclusivo de Minas. Esse problema ocorre em vários estados brasileiros, mas, infelizmente, é a insegurança que eu senti em Minas. Insegurança essa que eu não sinto em Goiás”, destaca. 

Também por conta do seu trabalho, Deyse tem duas casas: ela se divide entre Paracatu, cidade em Minas Gerais, e Goiânia, em Goiás. No entanto, a produtora rural vota na cidade mineira.   

“Como eu também tenho um escritório em Brasília, eu tenho três referências de segurança pública. E acho que Minas Gerais tem muito a aprender com o método de segurança pública de Goiás. Realmente a gente em Goiás tem uma segurança pública excepcional. Não é conversa de eleição, realmente a gente vive isso no dia a dia. Acho que Minas precisa se espelhar na segurança pública de Goiás para poder dar segurança para todo mundo, principalmente para nós mulheres, que nesse quesito de segurança pública somos realmente mais frágeis”, diz Deyse.

Deyse considera o posicionamento político do candidato para escolher quem vai receber o seu voto
Deyse considera o posicionamento político do candidato para escolher quem vai receber o seu voto
Foto: Arquivo pessoal/Cedido ao Terra

Além do investimento na segurança, ela acrescenta que os policiais precisam ser valorizados. De acordo com a mineira, outra categoria que também precisa ser mais reconhecida é a de professores, que precisam ter os salários pagos sem atrasos. 

Para Giovanna, a presença de mais mulheres na política é “o único caminho” para que pautas que dizem respeito às mulheres sejam levadas adiante, e mais políticas públicas se tornem prioridade. Ela ressalta, porém, que a discussão não deveria ser reduzida a uma disputa entre homens e mulheres. “Não é uma questão de sexo, nem uma questão de gênero. É uma questão de representatividade. Você precisa estar representada.”

A própria escolha eleitoral, diz Giovanna, deve levar em conta esse princípio de representação e os efeitos das políticas sobre a sociedade como um todo. “Não adianta a minha casa estar limpa e a do vizinho ter ratos. Vai entrar rato na minha casa”, resume.

Deyse, por sua vez, afirma que considera o posicionamento político do candidato ao escolher quem receberá seu voto. “Hoje, com certeza, eu jamais votaria em nenhum candidato de esquerda para nenhum cargo. O que eu sei é que a ideologia deles é fazer políticas públicas para poder ganhar votos e não para fazer riqueza para o estado, para resolver os problemas reais do estado. Hoje eu vou votar em candidatos de direita para tentar impedir que a esquerda volte ao poder, é para tentar impedir que essa velha política volte.”

Fonte: Portal Terra
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