A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial vai além de um revés nas urnas e pode mudar os rumos do bolsonarismo. A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Terra, que apontam tanto a força da mobilização progressista na reta final da campanha quanto os desafios que a família Bolsonaro terá para preservar sua influência política.
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Para Mayra Goulart, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o resultado não deve ser interpretado como uma derrota do bolsonarismo em si, mas como uma vitória das forças progressistas, que conseguiram ampliar a coesão e mobilizar eleitores na reta final.
Já Letícia Mendes, cientista política da BMJ Consultores, avalia que o resultado representa um revés para Flávio e abre uma nova etapa para o movimento político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ela, havia uma expectativa de vitória entre os aliados do senador, alimentada pela vantagem que ele apresentou no primeiro turno e por pesquisas eleitorais que indicavam uma disputa acirrada.
No primeiro turno, Flávio liderou com 47,04% dos votos válidos contra 45,16% de Lula (PT). A diferença surpreendeu a população e fez com que parte do eleitorado presumisse uma eleição ganha, visto que, desde a redemocratização brasileira, o líder do primeiro turno sempre vencia a eleição presidencial.
Para Letícia, a escolha de Flávio como candidato à Presidência foi parte de uma estratégia para manter o poder político concentrado na família Bolsonaro. A derrota, porém, pode alterar os planos de lideranças da direita que apoiaram o senador pensando em uma futura sucessão.
"Inclusive, a não escolha da Michelle [Bolsonaro] também foi muito direcionada por meio disso", afirmou.
A disputa pelo legado do ex-presidente, no entanto, não deve ficar restrita aos filhos. Letícia aponta que Michelle Bolsonaro também pode buscar protagonismo próprio e vê a possibilidade de uma disputa interna sobre quem terá mais influência na continuidade do movimento.
O que muda para a direita?
A derrota também pode afetar o planejamento de lideranças que se aproximaram de Flávio durante a campanha. De acordo com Letícia, parte dos políticos de centro-direita via a candidatura como uma etapa de transição para ampliar sua participação no poder nos próximos anos.
Com a vitória de Lula, esse cenário deixa de existir. A especialista avalia que essas lideranças podem passar a construir projetos paralelos ao bolsonarismo, enquanto os integrantes da família tentam manter a influência conquistada nos últimos anos. Michelle também vai estar buscando reafirmar ali a sua trajetória política através do nome de Jair Bolsonaro. Inclusive, eu acho que pode haver uma disputa dentro entre Michelle e os filhos em relação a isso. Ela, inclusive, acho que sai um pouco na frente por conta do seguimento desse legado".