A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para seu quarto mandato lançou luz sobre o papel e a importância de alguns dos principais aliados do petista para a campanha: da visibilidade e empoderamento político conquistado por André Janones (Rede) às críticas enfrentadas por Sidônio Palmeira após o desempenho aquém do esperado no primeiro turno, especialistas ouvidos pelo Terra avaliam a influência de cada figura sobre o resultado conquistado nas urnas.
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Os nomes foram analisados por Hannah Maruci, doutora em Ciência Política pela USP e pós-doutoranda pelo Cebrap, e Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Além de Janones e Sidônio, também foi avaliado o desempenho de Camilo Santana (PT), Rafael Fonteles (PT), e Fernando Haddad (PT), assim como a importância de novas lideranças entre a juventude, como a das deputadas federais Erika Hilton (PSOL-SP) e Ana Elisa (PT-MG).
Confira a análise sobre o desempenho dos aliados de Lula:
- André Janones (Rede-MG)
Hannah Maruci e Rodrigo Prando concordam que o deputado federal mineiro foi o aliado de maior visibilidade e o mais empoderado no segundo turno, atribuindo a Janones um papel fundamental na virada eleitoral por meio da mobilização nas redes sociais.
Hannah destaca o aspecto ético e estratégico da comunicação, ressaltando que Janones provou a força da esquerda nas redes sem recorrer a fake news ou 'jogo sujo': "Muito dessa virada se deve à mobilização que ele conseguiu fazer. Ele teve um papel muito importante e isso deve se reverter em poder institucional".
Prando entende que, após passar pelo primeiro turno 'por baixo', Janones conseguiu driblar as próprias polêmicas para assumir um papel central na busca pela virada de Lula: "Ele foi escanteado desde que teve a denúncia da rachadinha. Mas quando ele volta e, por conta própria, monta o Exército do Lula, ele recuperou o prestígio com o presidente, com essa militância digital. É quem sai mais empoderado com a virada".
- Camilo Santana (PT-CE)
Para os cientistas políticos, Camilo Santana também é um dos grandes vencedores do processo eleitoral. Hannah e Prando entendem que o senador sai fortalecido pela sua atuação na articulação política da campanha e cotado para cargos de destaque e coordenação no novo governo Lula.
"Depois de um revés, ele acabou ficando com a articulação política, o Rui Costa com a agenda e o Rafael Fonteles com a comunicação. Mas o Camilo também se tornou um porta-voz, um fiador político dessa virada. Ele entra no grupo que disputará a sucessão de 2030. E alguns jornalistas já o colocam como alguém cotado para assumir a Casa Civil", afirma Rodrigo Prando.
- Rafael Fonteles (PT-PI)
Ambos os cientistas políticos reconhecem o saldo positivo, o ganho de projeção e musculatura política do governador reeleito do Piauí durante a campanha a Lula. A divergência se dá, no entanto, na temporalidade do aproveitamento desse capital político.
Hannah Maruci enxerga um ganho imediato, apontando que a leitura matemática e econômica, além da comunicação digital, credenciam Fonteles para papéis de poder no Governo Federal. Já Rodrigo Prando avalia o ganho como de médio prazo, acredito que o aliado deva permanecer no Executivo estadual do Piauí por pelo menos mais um ano antes de alçar voo na esfera federal.
"Ele trouxe tanto uma questão da reorganização da comunicação digital, que foi essencial para a virada, mas também uma parte muito importante de ciência política, econômica, matemática mesmo, que apontou para a possibilidade de virada. Ele fez uma leitura muito boa do contexto, e está cotado para assumir papéis de poder dentro do governo", afirma Hannah.
"O Rafael Fonteles ganha projeção nacional, mas é um ganho de médio prazo. Eu tenho a impressão de que ele deve permanecer no governo estadual por 1 ou 2 anos antes de assumir um posto federal. Para um governador jovem do Piauí assumir a comunicação da campanha presidencial e vencer, é um cartão de visitas e tanto. Isso credencia a ultrapassar os limites do Estado do Piauí", complementa Prando.
- Sidônio Palmeira
Os especialistas avaliam que o publicitário e atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social é a liderança que sai mais desgastada, abalada e enfraquecida do pleito, o que culminou com a perda do monopólio do marketing e da narrativa eleitoral.
Hannah observa que a virada no segundo turno não decorreu do trabalho de Sidônio, e impôs a ele o desafio de atualizar-se: "É uma força que saiu abalada. Ele vai ter um desafio de atualização a esse novo cenário. É claro que não sai do jogo, mas com certeza abala, porque depois de um primeiro turno tão difícil, a mobilização não parte do trabalho dele".
Prando, por sua vez, entende que a vitória ameniza o impacto sobre a imagem do publicitário, mas que a cúpula do PT atribui a ele a responsabilidade pelo desempenho aquém do esperado no primeiro turno: "Pesou na aposta da soberania como mote que, segundo o PT entendeu, não empolgou o eleitorado, e na proibição das bets na véspera da votação. Ele costuma dizer que a relação dele com o presidente é a mesma, mas eu diria que ele perdeu, de certa forma, o monopólio da narrativa desta campanha".
- Fernando Haddad (PT)
A avaliação sobre o ex-ministro da Fazenda, por sua vez, é a de um saldo misto. Apesar da derrota eleitoral na disputa pelo governo de São Paulo, Haddad preservou-se politicamente por ter demonstrado lealdade partidária ao dar palanque para Lula no Estado, que é o maior colégio eleitoral do País.
"Haddad é um homem de partido. Ele assumiu a posição de vir para São Paulo para tentar dar palanque ao Lula e perder para o Tarcísio. Mas o fato de ser um homem de partido o coloca como um ator político legal e disciplinado ao assumir a articulação e a agenda do presidente no Estado. Em síntese, ele sai derrotado eleitoralmente e preservado políticamente. Talvez tenha pedido essa força de projeção política, mas certamente tem condições de ter um ministério pela sua capacidade intelectual, técnica e política", analisa Prando.
- Novas lideranças
Hannah Maruci chamou a atenção para a emergência de duas lideranças femininas e negras que desempenharam papel relevante com o eleitorado jovem e na renovação da comunicação da esquerda: as deputadas federais Erika Hilton, que sai da eleição consolidada como liderança nacional, e Ana Elisa, que representa a nova geração do PT.
"Ambas apresentaram um capital político próprio, capacidades de mobilização, de renovação e da comunicação na forma de lideranças políticas. A Erika Hilton consolidou-se como uma liderança nacional, enquanto a Ana Elisa representa essa nova geração do PT, estava muito difícil ver essas novas lideranças do partido ganhando força, e é algo que atualiza, principalmente por serem mulheres negras", afirma.
"A gente está falando de homens, em sua maioria brancos, e é importante falar da relevância que essas mulheres tiveram nesse processo. O canal da Erika de mobilização tem quase 1 milhão de seguidores, é muito relevante principalmente para o diálogo com os eleitores jovens, que é um eleitorado que estava muito em disputa", acrescentou Hannah.
"Até agora, a gente tem quem ajudou o Lula a vencer. Agora, quem vai sair com mais poder, quem vai ter isso traduzido em poder institucional, ainda é cedo para saber", finalizou a especialista.