O último debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), exibido pela TV Globo, pode ter ajudado a definir votos na reta final da disputa presidencial. Mas, para além de quem teve o melhor desempenho no confronto, a questão é quais falas têm potencial para convencer eleitores que ainda não decidiram em quem votar no segundo turno da eleição mais acirrada da história brasileira.
Na avaliação de duas especialistas consultadas pelo Terra, alguns momentos podem ter repercussão para além do público que acompanhou a transmissão. Entre eles estão as perguntas de Flávio sobre o custo de vida, a reação de Lula à provocação sobre o acidente que sofreu quando jovem e as discussões sobre licença-maternidade e programas sociais. Ao mesmo tempo, ataques pessoais e respostas consideradas frágeis podem dificultar a conquista de novos eleitores.
A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que houve falas com potencial para alcançar indecisos dos dois lados. Um dos momentos com maior potencial de convencer eleitores, segundo Goulart, foi a tentativa de Flávio de traduzir a discussão econômica para o cotidiano das famílias. Ao perguntar "seu salário já acabou?" e retratar a população parcelando comida, o senador procurou dialogar com quem sente a pressão das despesas no orçamento.
As promessas de manter os programas sociais, reajustar o salário mínimo acima da inflação e ampliar o ensino integral também podem ajudar nessa tentativa. Para Goulart, essas propostas procuram diminuir o receio de eleitores que dependem de políticas públicas e temem perder benefícios em uma eventual mudança de governo.
Outro recurso foi a referência repetida à gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo. Ao mencionar quatro vezes o governo paulista, Flávio buscou associar sua candidatura a uma experiência administrativa.
Vargas-Maia também identifica avanços na apresentação de propostas. Na avaliação dela, o senador conseguiu fazer algo que não havia alcançado no debate da Band: apresentar medidas mais pontuais e se comunicar de forma mais direta com o público.
A tentativa de se apresentar como um candidato do futuro pode chamar a atenção de quem deseja mudanças. O desafio, porém, é transformar essa imagem em confiança nas propostas.
Agressividade de Flávio
Se o discurso econômico pode aproximar Flávio de eleitores preocupados com o orçamento, os ataques pessoais podem produzir o efeito contrário. Vargas-Maia avalia que o senador voltou a demonstrar uma postura agressiva e dificuldade para responder a algumas perguntas, reforçando uma impressão que já havia aparecido no debate anterior.
Dois momentos foram destacados pela professora. O primeiro ocorreu na discussão sobre Ana Clara, cuja mãe estava na plateia. Ao abordar o caso, Flávio se confundiu ao chamar a mãe pelo nome da filha, que morreu, e depois tentou defender o policial envolvido, argumentando que ele ainda não havia sido julgado.
Para Vargas-Maia, o episódio foi um momento de fragilidade porque envolvia uma questão sensível e exigia uma resposta mais cuidadosa. Ela também ressaltou que o caso mobiliza até mesmo parte do eleitorado mais convicto do bolsonarismo.
O segundo momento foi quando Flávio se referiu a Lula como "nove dedos". A professora classificou a fala como uma demonstração de agressividade e considerou insuficiente o pedido de desculpas feito em seguida.
A discussão sobre cortes no orçamento ainda pode ter limitado o alcance das propostas de Flávio. Pressionado por Lula sobre como pretende reduzir os juros e, ao mesmo tempo, manter ou ampliar programas sociais como o SUS e o Bolsa Família, o senador não teria esclarecido o suficiente.
"Me parece que ele acaba se colocando um pouco numa situação um tanto quanto dúbia, que é de não conseguir responder efetivamente de onde é que vai sair esse corte esses cortes, se não dos programas sociais, que ele diz que não apenas vai manter, mas como vai ampliar", avaliou Vargas-Maia.
Discurso trabalhador de Lula
Do lado de Lula, o momento que mais se destacou para Vargas-Maia foi a resposta à provocação de Flávio sobre o acidente que sofreu aos 17 anos e que resultou na perda de um dedo.
O presidente transformou o ataque em uma defesa de sua trajetória de trabalhador e usou a própria história para questionar a relação do adversário com a população que depende do salário para viver.
"Ele consegue transformar esse ponto de agressão pessoal do Flávio também em um comentário mais amplo a respeito da postura do Flávio com relação aos trabalhadores brasileiros", disse a professora da UFRGS. Goulart também considera que a resposta teve potencial para repercutir.
Licença-maternidade e bets podem influenciar eleitoras
As discussões sobre mulheres também produziram momentos com potencial para repercutir entre eleitores indecisos. Um deles foi o embate sobre licença-maternidade.
Depois de Lula retomar o tema, Flávio agradeceu pela pergunta, reconheceu que havia errado em sua posição anterior, falou do próprio casamento e disse que hoje votaria de outra forma. Para Goulart, a resposta neutralizou parte do ataque do presidente. Lula, no entanto, argumentou que o senador só havia mudado de posição agora, por ser candidato.
Já Lula abordou a pandemia de covid-19, com referência à mãe do humorista Paulo Gustavo e às mortes que poderiam ter sido evitadas, e criticou as apostas on-line, as chamadas bets, por consumirem recursos que poderiam ser usados para despesas básicas, como o leite das crianças.
Para Goulart, as duas falas podem dialogar especialmente com as mulheres porque mobilizam a maternidade e o cuidado familiar.