A carta de teor golpista divulgada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) após a derrota nas eleições presidenciais expôs divergências dentro do próprio partido e entre aliados da direita. Enquanto o parlamentar contestou, sem apresentar provas, o resultado das urnas, lideranças do PL reconheceram a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e defenderam a necessidade de respeitar o desfecho da disputa.
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A reação ocorreu após Flávio divulgar duas versões de um documento em que questionava o resultado eleitoral. Na primeira, o senador se autointitulou "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Cerca de 30 minutos depois, alterou o texto e passou a se apresentar como "líder do Brasil". A mudança ocorreu após uma determinação do governo dos Estados Unidos, segundo apuração da GloboNews. Assessores do Departamento de Estado americano avaliaram que a expressão inicial poderia sugerir que Washington reconhecia Flávio como presidente eleito, o que poderia prejudicar as relações diplomáticas com o Brasil.
Para a cientista política Tathiana Chicarino, doutora em Ciências Sociais e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), as reações à carta podem indicar um realinhamento dentro da direita, com consequências para a relação entre os setores mais radicais e as alas tradicionais do campo conservador.
“Esse cenário indica um enfraquecimento político de Flávio, com certeza, não apenas pelo isolamento que a gente viu agora de seus principais aliados institucionais, que fizeram campanha com ele, inclusive do coordenador de campanha e do presidente do partido, mas também porque ele não está recebendo o apoio de Trump como imaginava", diz a cientista política.
Dirigentes do PL rejeitam carta e defendem resultado das urnas
As manifestações de integrantes do próprio partido evidenciaram o desconforto com a iniciativa do senador. Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio, afirmou na quarta-feira, 28, que não há provas que sustentem as acusações de fraude eleitoral.
“O PL não pode fazer essa afirmação porque não tem prova nesse sentido", declarou Marinho a jornalistas no Senado. Entretanto, o parlamentar questionou a interpretação sobre a declaração de Flávio e preferiu dar o tom de "desabafo" ao que o senador escreveu na carta publicada por ele.
“Se você quer desabafar, isso é crime? Se você faz alguma afirmação, você precisa trazer provas. Eu acabei de dizer, me foi perguntado se eu concordo com uma fraude. Eu não posso fazer essa afirmação, não tenho provas. E eu acabei de dizer que é um desabafo”, completou
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), também se posicionou após a circulação da carta. Em um vídeo, reconheceu o resultado da eleição e pediu pacificação no País. "Às instituições brasileiras, cabe promover a pacificação que o momento exige. Não é hora de aprofundar feridas, mas sim curá-las", afirmou.
Já o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, declarou nesta quinta-feira, 29, que não gostou do documento. A manifestação ocorreu antes de sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Na saída do encontro, Valdemar acrescentou que a carta não havia sido aprovada por ninguém do partido.
A reação da cúpula do PL ocorre em um momento em que a sigla busca consolidar sua força no Congresso Nacional. O partido elegeu 121 deputados federais e terá uma bancada de 29 senadores em 2027, ampliando sua capacidade de influência política.
Na avaliação de Tathiana, o movimento pode representar uma tentativa de afastamento dos setores mais radicais do bolsonarismo. A especialista pondera, porém, que ainda é necessário observar se as manifestações recentes resultarão em um isolamento mais amplo desse campo político.
"A princípio, pode significar o isolamento do senador, mas a gente precisa ainda observar se isso representa um isolamento do bolsonarismo. Vai depender muito de como esse realinhamento na direita vai se dar, se haverá um afastamento da extrema direita e seu isolamento, como ocorreu no pós-Segunda Guerra Mundial em alguns países, especialmente na Alemanha. Caso essas lideranças não consigam fazer essa “barreira” para afastar, não legitimar e não normalizar a extrema direita, como fizemos nos últimos anos, talvez a gente possa estar observando esse contraponto com o bolsonarismo".
Para ela, o desfecho dependerá da disposição das lideranças da direita de evitar legitimar ou normalizar discursos golpistas."Afinal, houve um processo de normalização e legitimação da extrema direita", acrescenta.
Tarcísio também defende respeito ao resultado eleitoral
O distanciamento não se restringiu à cúpula do PL. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), considerado um potencial nome da centro-direita para a eleição presidencial de 2030, também defendeu o respeito ao resultado das urnas.
Tarcísio esteve na linha de frente da campanha de Flávio na reta final da disputa. Apesar disso, afirmou ao Estadão/Broadcast que compreende a indignação do senador, mas que o processo eleitoral terminou e é preciso seguir em frente.
"A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente", declarou.
A professora e cientista política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que as reações podem favorecer os setores menos radicais da direita, inclusive dentro do próprio PL. Segundo ela, embora o partido tenha conquistado uma posição de destaque no campo conservador, isso não significa que todos os seus integrantes compartilhem as mesmas posições políticas.
"O resultado das eleições do primeiro turno indicaram, dentro do campo da direita, uma hegemonia muito grande do PL. Esperava-se que essa hegemonia do PL se traduzisse numa liderança da ala mais radical, mais extremista da direita, que é essa capitaneada pelos filhos de Jair Bolsonaro", explica.
Mayra ressalta que existem diferenças dentro da própria família Bolsonaro e do partido. Ela lembra, por exemplo, que Valdemar já havia defendido Michelle Bolsonaro como possível candidata à Presidência em vez de Flávio.
"Acredito que, daqui para frente, pelo posicionamento dos senadores e deputados dentro do próprio PL e da direita, vão ser as alas mais moderadas que vão ter essa força hegemônica dentro da direita", afirma.
Disputa interna pode favorecer o Centrão
A eventual reorganização da direita também pode ter consequências para a relação entre o Congresso e o governo Lula. Para Mayra, os setores tradicionais do campo conservador, que compõem o chamado Centrão, devem continuar exercendo influência sobre as articulações políticas em Brasília.
Na avaliação da cientista política, esses grupos podem encontrar mais espaço para negociar com o governo federal caso as alas moderadas ampliem sua influência sobre a direita. "Aquele que é o chamado Centrão, que são as direitas tradicionais, mais fisiológicas, podem continuar sendo o polo gravitacional do Congresso", afirma.
Ela acrescenta que esse cenário pode facilitar uma relação de convergência entre esses setores e o governo Lula, embora o resultado dependa das articulações políticas que serão construídas a partir de agora.
Tathiana, por sua vez, destaca que a derrota de Flávio não representa necessariamente o fim da influência do bolsonarismo. Desde 2018, o movimento ampliou sua presença nas instituições, ocupando espaços em partidos políticos e conquistando mandatos nos legislativos. A eleição de Flávio poderia consolidar ainda mais essa presença, mas a derrota e a reação de lideranças do próprio campo conservador abriram espaço para mudanças na correlação de forças.
"Vimos muitos candidatos da extrema direita com discursos bastante violentos serem eleitos, tanto para a Câmara dos Deputados, quanto para o Senado. A vitória de Flávio Bolsonaro poderia significar uma consolidação, uma estabilização do poder da extrema direita nas instituições. A derrota dele, no entanto, especialmente por uma margem expressiva de votos -- Lula conseguiu uma diferença de mais de 4 milhões de votos --, somada à sua fuga, pode indicar um realinhamento nesse campo político, inclusive entre os partidos, especialmente o PL. Estamos falando, portanto, da possibilidade de um realinhamento dentro da direita", aponta.