Douglas Rocha Almeida, ex-garçom e filho de diarista, superou dificuldades financeiras com apoio de políticas públicas e determinação, tornando-se diplomata após anos de estudo e esforço, mudando a realidade de sua família.
A falta de dinheiro e as condições precárias da família de Douglas Rocha Almeida, de 31 anos, nunca o impediram de estudar, mas, com certeza, dificultaram o seu caminho. Ex-garçom e filho de uma diarista, ele venceu barreiras sociais e econômicas com apoio de políticas públicas como o Bolsa Família e o ProUni, além de, claro, muita determinação, até conquistar um dos cargos mais disputados do país: o de diplomata.
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Filho da faxineira Francisca Aparecida Ferreira Rocha e do pedreiro Neilson Cardoso Almeida, ele enfrentou muitas batalhas até chegar onde está: quase 119 km de transporte público diariamente para conseguir estudar, trabalhar e 'descansar' em poucas horas de sono. Um esforço movido pela determinação de dar uma vida melhor para a sua família.
Recém-empossado, o goiano de Luziânia, cidade localizada a 196 km da capital do estado, destaca que o zelo da mãe foi o alicerce para a conquista desse sonho. “Minha mãe chegava do trabalho e essa memória é bem marcante. Ela olhava meu caderno, conferia se eu tinha feito tudo, se tinha feito tudo certo e do contrário, ela já corrigia”, conta ao Terra.
Começou a trabalhar cedo
Douglas, o mais velho de quatro irmãos, cresceu em um cenário de privações, no qual roupas e brinquedos eram fruto de doações. Tudo graças à estratégia de sua mãe Francisca, que buscava trabalhar em lugares onde os filhos dos patrões tinham praticamente a mesma idade que os filhos dela. Assim, o que seria descartado ganhava vida nova e utilidade em sua própria família.
O vício do pai em jogos de azar e máquinas caça-níqueis mergulhou a família em uma crise financeira.“Foi a época que minha mãe, por exemplo, se cadastrou no Bolsa Família e, graças a isso, a gente nunca passou fome”, frisa. O relacionamento não resistiu ao vício em jogos de azar, e o casamento chegou ao fim pouco tempo depois. Determinada a mudar o destino do filho, Francisca insistiu que ele estudasse em Brasília, encarando a distância de 45 km de Luziânia diariamente.
“Era difícil para ela sustentar a nós quatro e pagar uma passagem para Brasília para eu estudar. Tinha a questão da alimentação também”, pontua. Durante o ensino médio, Douglas dividia sua rotina entre as aulas regulares pela manhã, estágio de 6h diárias durante a tarde e, à noite, aulas de inglês em um colégio público.
Muitas vezes, no entanto, ele precisava andar sete quilômetros para almoçar na casa dos patrões da mãe. “Como ficava o dia inteiro fora de casa, eu precisava comer. A bolsa do estágio nem sempre pagava todos os meus gastos. Foi quando comecei a trabalhar numa casa de festa infantil, já aos 15 anos”, relembra.
A partir daí, o descanso desapareceu: os fins de semana passaram a ser dedicados ao trabalho de garçom e de monitor de festa infantil.
Fez duas faculdades de uma vez
Ao se formar no ensino médio, ele foi trabalhar como auxiliar de contabilidade durante a semana e seguia como garçom aos finais de semana. Em 2013, largou o emprego de auxiliar para se dedicar integralmente ao vestibular. Estudando por conta própria, Douglas conquistou uma bolsa pelo Universidade para Todos (ProUni) em Relações Internacionais, na Universidade Católica de Brasília (UCB).
Assim, ele ingressou na faculdade em 2014, onde frequentava as aulas no período diurno. Pouco depois, também conseguiu uma vaga na Universidade de Brasília (UnB) para cursar Letras - Espanhol, durante à noite.
“Foi um período bastante puxado e, no final de semestre, com apresentação de seminários e provas, tinha que estudar muito. Chegava no final de semestre, eu dormia cerca de 12 horas por semana, não por dia, por semana. Foi um período bem cansativo e, de certa forma, até mais difícil do que na época do concurso”, relembra.
Nesse período, também conseguiu uma bolsa para estudar por quatro semanas nos Estados Unidos. “Aos 19 anos, voei de avião pela primeira vez. Já fazia Relações Internacionais e nunca tinha entrado sequer em um avião. Até hoje foi a única vez que eu saí do Brasil”, destaca.
A virada de chave
Engana-se quem pensa que ele sempre sonhou em ser diplomata. Ao entrar na faculdade, Douglas mal sabia o que um diplomata fazia ou como ingressar nesta carreira. O seu objetivo era trabalhar na iniciativa privada, com a internacionalização de empresas de recreação infantil no exterior, em culturas parecidas com a brasileira.
A 'virada de chave' veio em 2017, com a perda precoce de sua irmã, Tainá, aos 21 anos. Douglas passou a questionar a sua rotina. Os dois eram muito grudados, mas quando o rapaz começou a fazer as duas faculdades simultaneamente, ele mal a via.
“Fui me perguntar o porquê dessa rotina. Entrei em parafuso. Esse esforço ele existe, está ligado ao sofrimento, ao cansaço, mas eles precisam fazer sentido. Foi quando eu pensei em ser diplomata pela primeira vez”, explicou.
Pesquisando, ele descobriu que tinha chances devido ao seu currículo e percebeu que "poderia proporcionar às minhas irmãs e principalmente a minha mãe, uma vida bem melhor. Foi quando decidi que era esse o caminho, que ele legitimava aquela rotina exaustiva que eu vivia”, complementa.
Em 2018, ele terminou as duas graduações e, na sequência, ingressou no mestrado na Escola Superior de Guerra, vinculada ao Ministério da Defesa, no Rio de Janeiro. Sempre muito aplicado aos estudos, ele se formou em março de 2021, e já começou a estudar para ser diplomata. “Estava com duas graduações e o mestrado, e mesmo assim voltei a trabalhar como garçom por mais de um ano”.
Finalmente, diplomata
Até que em 2022, Douglas deixou o trabalho como garçom para atuar como analista político, dividindo-se entre projetos freelancer e um emprego CLT. Mesmo com a nova rotina, ele seguiu dedicado aos estudos para o concurso, no qual enfrentou uma concorrência de 8.861 inscritos para apenas 50 vagas.
O filho da empregada e do pedreiro conquistou aquilo que desejava: passou em 47º lugar no ranking geral e em terceiro entre os candidatos negros, dentro das vagas reservadas. “Sempre acreditei no poder da educação de transformar a minha realidade”, afirma orgulhoso.
No último dia 13, ele e a mãe foram recebidos pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Palácio do Planalto. Sete dias depois, Douglas tomou posse. Para ele, a posse traz um sentimento de alívio. Além da segurança profissional, o novo cargo permite que ele realize um desejo pessoal: garantir a aposentadoria de Francisca e transformar a realidade da família.
“O que ela ganha hoje como diarista, eu vou dar para ela. Ela não vai precisar mais trabalhar”, explica. “Traz muito alívio saber que eu finalmente cheguei nessa posição e que a vida vai mudar. É questão de tempo”, finaliza.