O Dia do Professor evidencia um real apagão docente no Brasil, gerado por desvalorização salarial, agressões e precariedade no trabalho. A crise vai além da remuneração e envolve o desinteresse dos alunos, a dispersão digital e a falta de apoio das famílias, que transferem suas responsabilidades à escola. Especialistas alertam que reverter esse cenário e garantir educadores no futuro exige políticas públicas urgentes, condições dignas de ensino e um efetivo resgate do respeito à profissão.
O Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, costuma ser marcado por homenagens, presentes e mensagens de agradecimento. Mas, diante da crescente dificuldade para atrair e manter profissionais nas salas de aula, a data também deveria servir para uma reflexão menos festiva e mais incômoda: quem vai querer ser professor nos próximos anos?
Dados da OCDE ajudam a dimensionar o problema: apenas 22% dos docentes dos anos finais do Ensino Fundamental estão satisfeitos com seus salários e mais de 10% dos professores qualificados deixaram a profissão em 2022. Para Tatiana Pita, pedagoga, mestre em Educação e formadora de professores, o chamado apagão docente já deixou de ser apenas uma ameaça.
"Infelizmente não estamos mais falando sobre um risco, mas sim, sobre uma realidade. A desvalorização da profissão com os baixos salários, falta de material, condições mínimas de trabalho, sucateamento das licenciaturas e, principalmente, com o tratamento que estão recebendo, sendo agredidos verbalmente e fisicamente afastaram os interessados. "
O problema vai além do salário
A remuneração é uma parte importante da crise, mas não explica sozinha o afastamento da carreira. Pesquisa do Instituto Semesp aponta outros fatores: 63% citam a falta de interesse dos alunos, 61% a falta de reconhecimento da sociedade e 59% o baixo envolvimento das famílias.
Para Tatiana, parte do problema está na perda de compreensão sobre o próprio papel da escola e na transferência para os professores de responsabilidades que não deveriam ser exclusivamente deles.
"A falta de compreensão do real papel da escola pela sociedade faz com que os professores sejam cobrados para executarem tarefas que são da família ou sejam marginalizados por apresentarem a ciência e o pensamento coletivo. "
Essa mudança acontece em um momento em que a escola também precisa disputar a atenção dos estudantes com um universo digital capaz de oferecer informação, entretenimento e respostas imediatas. Nesse contexto, o papel do professor deixa de ser simplesmente transmitir conteúdo e ganha outra dimensão: ensinar a conviver, argumentar, ouvir o diferente e construir conhecimento coletivamente.
"A escola é um espaço coletivo, feito de pessoas, por pessoas, para pessoas. É lugar de construção, de regras, de combinados, de ouvir e ser ouvido, que deve acolher e compreender a pluralidade de nossa sociedade. "
Tatiana resume esse desafio em uma frase: "Li outro dia em uma pesquisa que dizia que as pessoas estão perdendo a capacidade de dialogar. E o professor é a pessoa que insiste em dialogar. "
Como fazer os alunos voltarem a se interessar pela escola?
Se o professor disputa a atenção com telas, redes sociais e um fluxo permanente de estímulos, como tornar a escola novamente relevante para crianças e adolescentes? Para Tatiana, não existe uma resposta simples.
"Essa é a pergunta do milhão: não sei. Acho, sinceramente, que a mudança precisa passar obviamente por políticas públicas que valorizem verdadeiramente a escola e uma campanha sobre o papel essencial da escola e do professor na vida de nossas crianças e jovens, pensando em um mundo melhor e mais eficaz. Precisamos resgatar este professor com ações concretas: salário, material para lecionar e respeito. "
A discussão sobre o apagão docente, portanto, não deveria se limitar à abertura de vagas ou à formação de novos profissionais. Manter professores na carreira exige recuperar condições concretas para o exercício da profissão e, ao mesmo tempo, reconstruir seu reconhecimento social.
Família e professor não deveriam estar em lados opostos
Outro ponto central dessa crise está na relação entre famílias e professores. A parceria que deveria sustentar a educação de crianças e adolescentes muitas vezes dá lugar a cobranças, conflitos e à expectativa de que a escola assuma responsabilidades que pertencem também ao ambiente familiar.
"As famílias precisam entender que o professor é um parceiro que está ali para ajudar seu filho e sua filha a se desenvolverem de modo pleno, mas que na escola, não há apenas o seu filho e filha. Ao professor cabe ajudá-lo a aprender os conhecimentos, a analisar cenários, a se posicionar, a resolver problemas, a viver em sociedade compreendendo seu papel e a ter um olhar coletivo. A família cabe ensinar valores como: respeito, partilha, escuta, atenção, responsabilidade. "
Para Tatiana, delimitar responsabilidades não significa separar escola e família. É justamente o contrário.
"Cada um faz sua parte, mas caminham juntos, conversando, trocando experiências, alinhando expectativas e não guerreando, ofendendo ou agredindo. "
E acrescenta: "A família precisa parar de culpar o professor pelos erros do filho. Quando há parceria, entre a família e a escola, os desafios são superados com mais facilidade. "
"O professor não quer presente, quer respeito"
Para a educadora, talvez seja essa a reflexão mais importante para o 15 de outubro. Em um cenário de desvalorização profissional, evasão da carreira e dificuldade para atrair novos docentes, flores, chocolates e homenagens têm pouco efeito se não vierem acompanhados de mudanças concretas.
Mais do que celebrar aqueles que ainda permanecem em sala de aula, o Dia dos Professores pode ser uma oportunidade para perguntar por que tantos estão desistindo e o que governos, escolas, famílias e a sociedade precisam fazer para que as próximas gerações ainda encontrem profissionais dispostos a ensinar.