Como não interessa saber por que os outros países corruptos o são, vejamos o que as sete nações menos corruptas e menos corruptas sistematicamente (Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça e Países Baixos) têm em comum e que não tem o Brasil?
1) Nenhuma das sete é pobre nem é das mais ricas; o Brasil figura entre os 10 países mais ricos, hoje é o nono - já foi o 7º, entre 2010 e 2012.
2) Elas não são continentais como é o Brasil - a menor dimensão geográfica ajuda a aperfeiçoar os controles; o 'radar tem foco'.
3) São democracias, porém, 5 delas são monarquias constitucionais com governo parlamentarista e duas são repúblicas parlamentaristas - nenhuma delas é presidencialista como o Brasil;
4) Dos 7, seis desses países 'exemplares' estão entre os 20 mais igualitários e o outro, Nova Zelândia, é moderadamente igualitário - porém, todos eles possuem políticas sociais intensas, de acordo a dados do Gini Index, usado pelo Banco Mundial. Brasil aparece entre os 10 países mais desiguais do planeta e sua política social é simplesmente populista, oportunista e sem projeto de longo alcance (só África do Sul e Namíbia são comprovadamente mais desiguais).
5) Nenhum deles sete tem 'economia concentrada' que torna a distribuição de renda injusta. A economia do Brasil é 'amplamente considerada concentrada', principalmente em três sentidos: concentração de renda, de riqueza e de estrutura econômica. A renda não é distribuída equilibradamente. Brasil tem sua economia concentrada em muitos setores (bancos; telecomunicações; mineração; agronegócio e varejo alimentar) dominados por grandes grupos econômicos, com forte presença de conglomerados; assim, há muitos mercados com poucos concorrentes. Isso é péssimo.
6) Aqueles sete líderes da 'não-corrupção' não têm concentração de renda; ou seja, tudo o oposto ao Brasil. Segundo estudos do World Inequality Lab, do Credit Suisse Global Wealth Report e de dados do Banco Mundial, 47% da riqueza patrimonial do Brasil está em mãos do 1% da população e ¾ parte dessa riqueza a possui o 10% dos brasileiros; sendo que o 50% mais pobre soma apenas o 2,5% do patrimônio privado (ou seja, é um país deforme, economicamente grande, mas pobre em média por habitante). 80% da população laboral ativa recebe mensalmente um salário menor a R$ 2.801; isso ocorre num país que possui uma das 15 maiores reservas de riqueza privada do planeta. Deveria envergonhar a classe dirigente. Nos sete países menos corruptos, o 1% mais rico concentra uma média de 22% da riqueza privada nacional, menos da metade do que concentra o Brasil. Só que naquelas nações existem impostos progressivos mais fortes do que aqui, com devolução para a sociedade infinitamente maior do que existe no Brasil, que é mínima: a corrupção leva tudo. Na América do Sul, o Uruguai tem a menor concentração de riqueza no 1% mais rico da população: 30%; porém, seu PIB per capita é o mais alto da região.
7) Nos países menos corruptos, a distribuição do PIB é menos concentrada regionalmente do que no Brasil; pois, devido ao tamanho, a economia brasileira também é geograficamente concentrada, mais da metade da riqueza econômica é produzida em poucos estados (grande parte do PIB está no Sudeste, 53%; Sul, 18%; Nordeste, 14%; Centro-Oeste, 10%; e Norte, 5%).
8) Em todos os sete, a elite econômica é pequena - diferentemente do Brasil; e, também, da China e dos Estados Unidos, ou seja, PIB alto não significa igualdade social. O PIB per capita dos sete países menos corruptos é 5,5 vezes maior do que o do Brasil, sendo que o de algumas dessas nações, como a Noruega e a Suíça, é 9 vezes maior; nem falar do Luxemburgo, o qual é 13 vezes superior.
9) Nesses sete países, ao contrário do Brasil, a população é pequena e, salvo o caso da Noruega, que tem uma dependência importante do petróleo, eles não têm recursos naturais enormes, como, por exemplo, os países do Oriente Médio.
10) Todos os 7 países menos corruptos são europeus, pertencem a CEE; ou seja, respondem a regra de que a Europa é o continente menos corrupto entre os cinco existentes. Brasil está na América Latina, que só é menos corrupta que a África.
Esses países tão bem ponderados não estão isentos de corrupção, porém, quando existe, trata-se de 'atos isolados' ou de 'pequena corrupção', valores que, no Brasil, salvo um ou dois casos em toda a sua história, soam ridículos. Aqui, como nos países mais ricos, onde há mais para roubar, a corrupção pequena nem aparece nos jornais; aqui também existe a 'pequena corrupção', mas a que eclode na imprensa é a 'grande corrupção', como nos casos Máster e INSS, com cifras que equivalem ao PIB de pequenas nações (sem considerar microestados, a fraude do Banco Master é igual ao PIB de Montenegro, Guiné, Malawi, Tajiquistão ou Quirguistão, maior ao das Maldivas, três vezes o PIB de Butão e 8 vezes o de Quiribati).
Entre esses 7 invidiáveis países, o maior escândalo de corrupção ocorreu na Dinamarca - curiosamente, o menos corrupto de todos, segundo os índices mais confiáveis -, mas foi por culpa de Moscou. O Danske Bank usou sua filial na Estônia para lavar R$ 1,08 trilhão de capitais russos. Por ser uma situação internacional, multas bilionárias resolveram a questão. Não houve outro caso trilhonário. O segundo maior aconteceu na Suécia, envolvendo R$ 4,8 bilhões - caso Têlia-Uzbequistão: Executivos pagaram propinas a autoridades do Uzbequistão para obter acesso ao mercado de telecomunicações: por ser suborno internacional, houve acordo e ninguém foi preso -; foi o único caso que passou o bilhão. Na Noruega, o escândalo Yara, fraude corporativa, atingiu R$ 400 milhões.
Fora do raio dos sete países menos corruptos do mundo, atualmente se investiga um 'escândalo' no Parlamento Europeu, chamado 'Qatargate', por suborno para influenciar políticas estrangeiras de R$ 8 milhões. Contudo, parecem mínimos os 5 maiores casos de corrupção acontecidos na história da Europa, quando os comparamos com os brasileiros, considerando além disso que a economia da Comunidade Europeia é 8 vezes maior do que a brasileira; vejamos:
O maior estardalhaço por corrupção ocorrido na Alemanha foi por financiamento ilegal de campanha, movimentando em 'contas secretas' R$ 21 milhões: o partido CDU pagou uma multa de R$ 113 milhões. Na Grécia, a Siemens subornou autoridades para fraudar contratos públicos de telecomunicações, no valor de R$ 540 milhões (houve condenações e pagamento de multas). Na Espanha, o empresário Francisco Correa foi condenado a 51 anos de prisão por pagar comissões indevidas e subornos, além de financiar campanhas e políticos do Partido Popular, num total de R$ 648 milhões. Na França, o maior escândalo que existiu envolveu 1,2 bilhão, no 'Caso Elf-Aquitaine', por desvio de dinheiro público e subornos internacionais. Vários dirigentes foram condenados a 5 anos de prisão. E o maior escândalo da história europeia alcançou R$ 20 bilhões, aconteceu na Itália, quando o processo Mani Pulite: empresas pagavam percentuais de propina (tangenti) para obter contratos públicos e obras do Estado.
Há dois países que, em particular, seduzem este autor, aparentemente confiáveis, tranquilos, prudentes, convidantes, de mínima corrupção: Uruguai e Portugal. O escândalo que mais alterou a letargia portuguesa é recente. O ex-primeiro-ministro, José Sócrates, é suspeito de que empresários teriam lhe pago vantagens financeiras em troca de facilitação de negócios, decisões políticas favoráveis e influência em contratos e empresas (o caso ainda teve desdobramentos e novos julgamentos). Já no Uruguai, há um caso surpreendente, de R$ 1,5 bilhão, por gestão fraudulenta, irregularidades administrativas e possível favorecimento empresarial: o 'Escândalo Pluna', a companhia nacional de aviação uruguaia. O caso gerou grande crise política no país, levou à falência da empresa estatal e sentenciou o ex-ministro da economia Fernando Lorenzo por abuso de funções a uma pena posteriormente revista. Agora, esses casos recém vistos, em todos esses países, encaixam-se em 'corrupção isolada'. Essa é a grande diferença em relação aos casos brasileiros.
Outra diferença é que, em países com histórico de corrupção, para desterrá-la, agora se pune com rigor: na China, Zhou Yongkang, ex-membro do alto comando do Partido Comunista e ex-chefe de segurança nacional, por abuso de poder e favorecimento a empresas ligadas ao setor de petróleo, num valor de R$ 100 milhões, em 2015 foi condenado a prisão perpétua. A mesma condenação dada, em 2013, a Bo Xilai, ex-membro do Politburo e líder regional, por suborno, desvio de dinheiro público e abuso de poder. Só que o valor envolvido foi de R$ 15 milhões. Então, serve o exemplo: R$ 15 milhões ou R$ 100 milhões se penam igual: não importa o montante, importa o ato, a corrupção. Os dois primeiros ministros que condenaram a Coreia do Sul receberam sentenças de 24 e 17 anos de prisão.
Alberto Fujimori, no Peru, é o recordista presidencial: 25 anos; seu colega e conterrâneo, Alejandro Toledo, 20 anos.
No Vietnã, se inclui pena de morte para grandes desvios. Na Singapura, além de penas de até 15 anos de prisão, se aplicam multas muito altas e se confisca o patrimônio. Em Israel, o sistema judicial é rigoroso: já levou líderes políticos à prisão. Lembro como melhorou meu dia aquele jornal que li no aeroporto de Sydney, na Austrália, a caminho de Brisbane. Aquele dia deixava a prisão o ex-gerente financeiro da Queensland Health (Departamento de Saúde de Queensland) Joel Morehu-Barlow; ele havia sido condenado por desviar fundos destinados a instituições de caridade para suas próprias contas. Após cumprir 5 anos de cárcere - mais 9 em condicional - e perder todo seu patrimônio, ele foi deportado, teve que migrar, deixar o país obrigatoriamente: a família já havia se mudado para Nova Zelândia, esperando sua liberdade, junto a sua mãe, em Auckland. Ele não podia continuar vivendo na Austrália. Achei fantástico e talvez por isso gostei tanto da Austrália, não sei; eu só sei que poucas vezes um jornal me fez tão bem, aquilo foi um elixir para a minha alma sul-americana. Assim deve ser. No início, a educação, no final, a punição.