Do protagonismo ao espaço vazio: o Brasil na era da 'Doutrina Donroe'

Apesar de ambições declaradas de liderança regional e global, o Brasil demonstrou carecer de mecanismos eficazes de antecipação de crises, inteligência integrada e protocolos claros de resposta a eventos de alta complexidade estratégica

9 jan 2026 - 11h36
(atualizado às 15h18)

A madrugada de 3 de janeiro foi mais do que o momento da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos. O episódio funcionou como um ponto de inflexão geopolítica que expôs, de forma abrupta, vulnerabilidades estruturais da política externa brasileira e evidenciou o enfraquecimento prático do multilateralismo na América Latina.

Enquanto forças especiais norte-americanas atuavam em solo venezuelano, a resposta inicial do Brasil — marcada por silêncio e, posteriormente, por declarações improvisadas — revelou uma lacuna preocupante. Apesar de ambições declaradas de liderança regional e global, o país demonstrou carecer de mecanismos eficazes de antecipação de crises, inteligência integrada e protocolos claros de resposta a eventos de alta complexidade estratégica.

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Esse déficit não se limita à diplomacia. Ele aponta para um problema mais amplo de posicionamento internacional do Brasil em um contexto global cada vez mais marcado por rivalidades de poder e pela redução dos espaços de coordenação multilateral.

A Doutrina Trump e o retorno da lógica do "espaço vazio"

A intervenção dos EUA na Venezuela sinaliza uma tendência mais profunda da política internacional contemporânea. Batizada de "Operação Determinação Absoluta" e justificada pela retórica do America First, a ação representa o retorno explícito da lógica de esferas de influência no hemisfério ocidental.

Trata-se de uma atualização da Doutrina Monroe para a era do transacionalismo direto — o que alguns analistas têm chamado de "Corolário Trump", também denominada "Doutrina Donroe", ou simplesmente "Doutrina Trump". Diferentemente de formulações anteriores, essa abordagem reconhece abertamente motivações extrativistas, como evidenciado pela declaração de que os Estados Unidos venderiam petróleo venezuelano como forma de "reembolso" pela intervenção.

Experiências recentes, do Afeganistão ao Iraque, indicam que a estabilidade imposta pela força tende a ser frágil e de curta duração. Sem legitimidade interna e participação social, intervenções desse tipo raramente produzem democracias funcionais. No caso venezuelano, o risco imediato é o aprofundamento da fragmentação estatal, com efeitos diretos sobre a estabilidade regional.

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Nesse contexto, países que não conseguem projetar capacidade estratégica correm o risco de se tornar o que a literatura de relações internacionais descreve como "espaços vazios": áreas onde decisões centrais são tomadas por atores externos, sem participação efetiva dos Estados diretamente afetados.

Países que não conseguem projetar capacidade estratégica correm o risco de se tornar 'espaços vazios': áreas onde decisões centrais são tomadas por atores externos.

A erosão do espaço diplomático brasileiro na crise venezuelana:

Como mostra o gráfico acima, o Brasil passou de uma posição de liderança multilateral (2023-2024) baseada em diplomacia e coordenação regional para um "espaço vazio" (2026), onde sua capacidade de influenciar decisões foi reduzida pela ação unilateral dos Estados Unidos. A intervenção militar de janeiro de 2026 representou o ponto de inflexão que consolidou essa perda de agência estratégica.

Uma resposta reativa e previsível

A dificuldade brasileira em reagir não foi um acidente isolado. Ela já havia sido sinalizada anteriormente. Em maio de 2025, uma operação secreta dos EUA retirou, em poucas horas, cinco opositores do governo Maduro que estavam refugiados na Embaixada da Argentina em Caracas, então sob tutela brasileira.

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O episódio demonstrou tanto a capacidade operacional de Washington quanto sua disposição de agir unilateralmente no território de países aliados. Apesar disso, o incidente foi tratado como um evento isolado, sem desencadear reavaliações estratégicas significativas.

Quando a captura de Maduro ocorreu, a resposta brasileira — o reconhecimento quase imediato da vice-presidente Delcy Rodríguez como autoridade interina — revelou menos liderança estratégica e mais uma tentativa de adaptação a fatos consumados.

Ao adotar essa posição, o Brasil afastou-se da tradição associada à Doutrina Estrada, que recomenda evitar o uso do reconhecimento diplomático como instrumento de pressão política. A decisão também expôs uma contradição: ao reconhecer a vice-presidente de um governo cuja legitimidade vinha sendo contestada desde 2024, Brasília acabou validando uma sucessão institucional que anteriormente rejeitava.

Impactos regionais e riscos domésticos

As consequências dessa dinâmica são diretas para o Brasil. A instabilidade na Venezuela tende a agravar fluxos migratórios na fronteira norte — com mais de 7,7 milhões de venezuelanos já tendo deixado o país na última década —, aumentar riscos de transbordamento de violência e gerar efeitos indiretos sobre a estabilidade política regional — inclusive em um contexto de eleições presidenciais no Brasil em 2026, quando questões de soberania nacional e posicionamento frente aos Estados Unidos tendem a ganhar proeminência no debate público.

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Para a América Latina como um todo, a mensagem transmitida pela Doutrina Trump é clara. Ao marginalizar a oposição democrática venezuelana e sinalizar a cooptação de setores do antigo regime, Washington sugere que a estabilidade desejada pode ser alcançada mesmo à custa da legitimidade democrática. Para países como Cuba e Nicarágua, o temor de uma intervenção externa passa a operar como princípio organizador da política regional. A Colômbia que foi ameaçada a sofrer o mesmo destino da Venezuela, se apressurou em agendar uma visita diplomática do seu presidente Gustavo Petro aos EUA para diminuir as tensões.

Cinco caminhos para reconstruir autonomia estratégica

Reverter essa trajetória exige ações concretas, e não apenas declarações normativas. Algumas prioridades se destacam para criar uma estratégia assertiva e resiliente para o Brasil:

1. Fortalecer alternativas regionais não militares

A reconstrução de fóruns como a UNASUL (fragilizada com a saída do Brasil em 2019 sob Bolsonaro) — ou de mecanismos funcionais equivalentes — com capacidade real de alerta precoce, mediação e sanções direcionadas pode reduzir o incentivo ao unilateralismo externo.

2. Aprofundar parcerias estratégicas além do comércio

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A relação com a China, por exemplo, tende a ganhar relevância se incluir diálogos sobre segurança cibernética e cooperação estratégica, dentro de limites claros de soberania.

3. Acelerar a reforma da governança global

Mecanismos como a resolução "Unidos pela Paz" da ONU podem funcionar como alternativas quando o Conselho de Segurança se encontra paralisado por vetos.

4. Assumir maior protagonismo na Responsabilidade de Proteger (R2P)

Desenvolver capacidade brasileira para liderar respostas humanitárias regionais, através da aplicação da doutrina R2P, pode evitar que crises legítimas sejam reconfiguradas como pretextos para intervenções extrativistas.

5. Combater o intervencionismo motivado por recursos

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O fortalecimento de normas internacionais que diferenciem claramente proteção humanitária de controle de ativos estratégicos é fundamental para preservar a credibilidade do direito internacional.

Momento de repensar a estratégia diplomática do Brasil

A margem para respostas improvisadas está se estreitando. Em um sistema internacional mais instável, construir resiliência — capacidade de antecipar choques, absorvê-los e adaptar-se — deixou de ser um projeto de longo prazo e tornou-se uma exigência imediata de segurança nacional.

O Brasil enfrenta, assim, uma escolha estratégica. Pode permanecer como espectador vulnerável em um processo de redefinição da ordem regional conduzido por grandes potências ou pode investir na construção de capacidades próprias e coletivas na América do Sul. A primeira opção implica perda progressiva de relevância. A segunda, embora mais exigente, é a única compatível com a preservação da soberania e da influência brasileira. A Venezuela não será a última crise na fronteira do Brasil. A pergunta é se o país estará preparado da próxima vez.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Helder do Vale não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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