Na Argentina, gerando grandes expectativas sobre uma possível unificação do peronismo, Máximo Kirchner declarou esta semana: "Estou convencido de que não existem diferenças ideológicas ou programáticas fundamentais" com Axel Kicillof. De fato, existe um problema, pois, no início de 2022, Máximo Kirchner renunciou à presidência do bloco peronista de deputados devido à sua discordância em conformidade com o FMI. Ele foi um dos parlamentares que votaram contra quando dois terços dos deputados da coligação Frente de Todos votaram a favor do projeto de lei que autorizava o acordo com o Fundo Monetário Internacional, o qual consistia no refinanciamento e na prorrogação dos prazos de pagamento.
Na época, o governador Axel Kicillof já havia declarado que se tratava de uma dívida contraída "de forma irresponsável" por Mauricio Macri, afirmando que o acordo de renegociação com o FMI estava "evitando uma verdadeira catástrofe em um futuro próximo" e era um "mal menor".
Diversas pessoas familiarizadas com a verdadeira relação entre Cristina Kirchner e Máximo Kirchner, mãe e filho, afirmam que "Cristina não é Máximo". É possível que Máximo sinta a necessidade de exagerar seu posicionamento para obter legitimidade como herdeiro político e símbolo romantizado de uma era. No entanto, enquanto Cristina Kirchner sempre enfatizou a posição de seu governo em relação ao desendividamento e às suas políticas de redistribuição de renda, o mesmo não se aplica à nova dívida contratada por Macri em conjunto com o FMI. Em março de 2022, quando o Senado — que ela presidia como vice-presidente — votou e aprovou o refinanciamento, ela esteve presente por apenas vinte minutos e passou a condução da sessão às autoridades substitutas, em um claro gesto de desaprovação.
Em 2022, Máximo Kirchner rejeitou a renegociação com o FMI, argumentando na época que a Argentina, para não comprometer seu desenvolvimento, só poderia pagar um total de aproximadamente US$ 6 bilhões anualmente em dívida externa, somando principal e juros — um valor hoje insuficiente para cobrir apenas os juros. Por exemplo, em 2027, os vencimentos da dívida externa (FMI, títulos e outros) totalizarão US$ 9 bilhões em juros e US$ 23 bilhões em principal. A dívida externa pública total do governo nacional gira em torno de US$ 200 bilhões, dos quais o FMI representa pouco mais de um quarto; somado a outras organizações internacionais, esse montante chega à metade, sendo a outra metade composta por títulos em mãos do setor privado.
Cristina Kirchner sofreu restrições ao seu regime de visitas e foi colocada em prisão domiciliar após receber nove economistas peronistas que vieram discutir um documento com propostas econômicas em novembro de 2025. Alguns deles propuseram o repúdio da parcela da dívida com o FMI que excedia a cota que caberia ao país como membro da organização, o que equivaleria a anular mais da metade da dívida com o Fundo.
A cota da Argentina no FMI é de cerca de 4 bilhões de dólares, o que, pelas regras ordinárias da organização, daria acesso a um teto máximo de aproximadamente 20 bilhões de dólares em empréstimos — enquanto a dívida total atual com o órgão gira em torno de 58 bilhões de dólares (44 bilhões sob Macri e 15 bilhões sob Javier Milei).
É fato que a dívida da Argentina com o FMI é absolutamente desproporcional (35% do total concedido aos 191 países membros) e foi aprovada pelo conselho sob a modalidade de acesso excepcional, com componentes claramente políticos que coincidiram, em ambas as ocasiões — primeiro sob Macri e depois sob Milei —, com a presidência de Donald Trump, sendo os Estados Unidos o país com maior poder de voto no FMI.
Contudo, não há precedentes na história do FMI de um empréstimo ter sido reconhecido como ilegítimo ou nulo, tampouco de perdão de parte do montante por concessão indevida — mesmo no caso da Grécia, em que o FMI reconheceu erros no diagnóstico e na concepção do programa, mas não perdoou a dívida.
O único exemplo — embora inaplicável à Argentina por se tratar de um país de renda média — ocorreu em 1996, quando o FMI, em conjunto com o Banco Mundial, implementou a Iniciativa para Países Pobres Altamente Endividados (HIPC). Isso não ocorreu por ilegitimidade dos empréstimos, mas porque os países envolvidos eram extremamente pobres (todos africanos, além de Bolívia, Nicarágua e Honduras na América Latina). Para fins de comparação: a dívida da Argentina com o FMI representa cerca de 8% do seu Produto Interno Bruto, enquanto a dívida dos países do programa HIPC chegava a aproximadamente 90% de um PIB já bastante reduzido.
O ponto essencial em relação ao pagamento da dívida argentina com o FMI não é o montante total, como sustentam os economistas peronistas mais radicais, mas sim o cronograma de pagamentos e as sobretaxas de juros. O único caminho viável em futuras negociações — utilizando os próprios argumentos de que o valor do empréstimo foi desproporcional e politicamente motivado — é pactuar prazos mais longos, buscar a redução das sobretaxas e obter maior margem de manobra para implementar um plano econômico autônomo voltado ao desenvolvimento.
Simultaneamente, esses três objetivos devem ser conduzidos da forma mais sóbria possível, evitando gerar desconfiança nos mercados voluntários de crédito — os mercados de títulos —, aos quais a Argentina precisará recorrer para rolar ou substituir o empréstimo do FMI, refinanciando o capital em vez de quitá-lo integralmente de imediato.
A posição de Kicillof sobre a dívida, como economista, ex-ministro e governador, é técnico-econômica e pautada pela pragmática do poder. Para ele, o endividamento não é inerentemente bom nem mau; dependendo das condições e do uso que se faz dele, pode atuar como ferramenta de desenvolvimento ou como mecanismo de subordinação. Em sua gestão, o próprio estado provincial emitiu títulos, tomou empréstimos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e buscou o retorno gradual aos mercados internacionais.
A posição política de Cristina Kirchner centra-se na soberania, enquanto a de Máximo Kirchner assemelha-se à de sua mãe, porém de forma menos pragmática e mais estridente.
Quando Máximo Kirchner calculou a capacidade teto de pagamento em US$ 6 bilhões anuais, a Argentina não contava com o estágio atual de desenvolvimento de Vaca Muerta, com o avanço do setor de mineração, nem com os preços mais favoráveis para suas pautas de exportação. Agora, em 2026, propõe-se um projeto de lei para limitar o endividamento público externo ao valor médio das exportações dos últimos três anos.
Somando-se os US$ 200 bilhões da dívida pública externa do governo federal aos passivos das províncias e municípios, o total consolidado atinge cerca de US$ 240 bilhões. As exportações entre 2023 e 2025 registraram média próxima a US$ 80 bilhões, o que significa que a dívida pública externa atual equivale a três vezes o valor das exportações anuais. No entanto, com as exportações alcançando US$ 100 bilhões e a previsão de atingirem US$ 125 bilhões em 2028 — primeiro ano do próximo governo —, Máximo Kirchner precisará reconhecer que o obstáculo central não é o tamanho absoluto da dívida, mas sim a recuperação do crédito do país para reduzir os juros pagos.
* Texto originalmente publicado em Perfil.com