Bairro na capital paulista vê casas e pequenos comércios sumirem para dar lugar a grandes torres. Pressionados, vizinhos se defendem: "Esta casa não está à venda."São Paulo já é conhecida por ter muitos prédios, mas agora quem circula pelo centro expandido da cidade tem a sensação de estar dentro de um canteiro de obras. Faz dois anos que os bairros ali estão passando por um novo processo de verticalização. Somente em 2024, foram autorizados quase 3,5 mil alvarás de demolição na cidade, segundo dados da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL).
Símbolo desse boom imobiliário, a Vila Mariana tem visto casas serem demolidas e pequenos comércios sumirem para dar lugar a grandes torres. Contra essa transformação acelerada do bairro, um grupo de moradores se uniu para preservar as características da vizinhança - que é bem tranquila, com ruas de paralelepípedo e bastante arborizada. Cerca de 30 plaquinhas avisam a incorporadoras e construtoras: "Esta casa não está à venda".
"Por si só já é um absurdo. O normal seria colocar uma placa de 'vende-se' se eu quisesse vender", diz Patrícia Machado, que mora na Vila Mariana há 25 anos. Desde 2014, Patrícia administra a página "Chega de Prédios" nas redes sociais, onde fala sobre os impactos negativos da intensa verticalização e denuncia práticas de assédio imobiliário.
Segundo ela, muitos moradores assinam contratos pressionados, acreditando que não têm escolha. E os valores oferecidos costumam ser abaixo do que valem as casas. "Seu vizinho já vendeu, olha a placa na porta da casa dele, futuro empreendimento."
Um dos moradores que aderiram ao movimento "Chega de Prédios" é a artista plástica Sakuko Miyashita, que vive na região desde 1985. Para expressar sua resistência às ofertas de compra — e preservar a memória afetiva da rua —, ela passou a pintar os muros da própria casa com homenagens aos animais da vizinhança.
Sakuko é imigrante japonesa e não pretende deixar o local onde estão enterrados seus cachorros e gatos. "Aqui é um lugar sagrado. Eles me deram força para continuar vivendo no Brasil. Quero reagir do meu jeito."
Patrícia, Sakuko e os outros moradores estão lutando para que não aconteça com eles o que aconteceu com a família de Adriana Casale, também na Vila Mariana. Depois que 10 casas foram demolidas, Adriana e o vizinho adjacente ficaram completamente cercados por três novos prédios.
"Nossa, olha o prédio, olha, tem outro prédio, olha, sobrou essa casinha", costuma ouvir Adriana. A casa em questão tem mais de 100 anos e pertence à família dela desde os avós. Mas o entorno da rua já não se parece em nada com o bairro de antigamente.
"Antes parecia uma rua do interior. Os portões eram baixos, até a porta ficava aberta, porque todo mundo se conhecia, todo mundo se ajudava. Tinha um vínculo de afetividade, de respeito. E hoje não tem mais isso. Não tenho contato com os vizinhos, porque os apartamentos são feitos para estudantes ou para aluguel temporário. O fluxo é muito grande de entra e sai."
Além de não conhecer os novos vizinhos, Adriana conta que perdeu privacidade com as torres ao redor. E diz que costuma encontrar lixo no quintal, principalmente bitucas de cigarro e embalagens. A casa dela também recebe menos sol do que antigamente, e ela considera que o trânsito na rua piorou.
Boom de novos prédios
Essa verticalização acelerada que os moradores da Vila Mariana estão vivenciando está ligada ao Plano Diretor Estratégico de São Paulo - uma lei aprovada em 2014 para orientar o crescimento da cidade. A ideia era promover uma maior concentração de pessoas perto de estações de metrô e trem e corredores de ônibus.
Para isso, foi permitida uma maior verticalização dessas áreas, com mudanças no zoneamento da cidade. Basicamente, prédios mais altos passaram a ser permitidos em um raio de até 600 metros das estações de trem e metrô, e 300 metros de corredores de ônibus.
Mais recentemente, em 2023, o Plano Diretor de São Paulo passou por uma revisão. E uma das principais alterações foi aumentar a distância em relação ao transporte público: 700 metros de estações de trem e metrô, e 400 metros de corredores de ônibus.
Essa diferença de 100 metros pode até parecer pouca coisa, mas fez com que novos quarteirões passassem a ser interessantes para o mercado imobiliário, como a região das placas "Esta casa não está à venda".
O Plano Diretor também passou a dar incentivos econômicos e construtivos para prédios que contassem com apartamentos mais acessíveis para populações de baixa renda. Só que parte dessas unidades acabaram sendo compradas por investidores — o que está sendo investigado como fraude por vereadores de São Paulo na CPI da Habitação de Interesse Social.
Além disso, nos últimos 10 anos o transporte público pouco se expandiu em direção às periferias da cidade. O metrô não avançou como previsto, e corredores de ônibus não foram construídos na escala planejada. Com isso, as regiões mais propensas a uma transformação acelerada ficaram concentradas sobretudo no centro expandido de São Paulo.
"Há uma pressão para poder ter uma verticalização indiscriminada em busca das melhores e mais lucrativas localidades, e não necessariamente é o que é melhor para a cidade", afirma o urbanista Fernando Túlio Franco. "O mercado imobiliário tem o desejo de produzir edifícios maiores, mais altos, com microapartamentos — esse produto imobiliário que eles conseguiram criar com uma alta rentabilidade e capacidade especulativa."
Relator do Plano Diretor de 2014, o vereador e urbanista Nabil Bonduki reconhece que houve distorções na implantação da lei. Também faltaram estudos complementares para identificar vilas, áreas históricas, patrimônios culturais e zonas ambientais que deveriam ser preservados.
Para o advogado Heitor Marzagão, especializado em direito urbanístico, a situação exige uma resposta urgente: "Esse processo de transformação é irreversível. Depois que demoliu, não volta mais. Nós já estamos em um prejuízo enorme desse processo de verticalização desenfreada."