Como atuam os manguezais e seus guardiões na linha de frente do enfrentamento das mudanças climáticas

Os manguezais têm um papel de destaque tanto na proteção costeira, mitigando os efeitos da subida do mar, como também são muito eficientes em estocar carbono

21 set 2026 - 14h06
Resumo
Os manguezais são vitais contra as mudanças climáticas por estocarem carbono até cinco vezes mais que florestas continentais e mitigarem a erosão costeira com eficiência superior a obras de engenharia. O Brasil abriga a segunda maior área do ecossistema, concentrada na foz do Amazonas e protegida por reservas extrativistas. Contudo, essas áreas sofrem com a alta do nível do mar, exigindo recuperação e apoio direto às populações tradicionais, hoje prejudicadas por entraves no mercado de carbono.

Nos 'primórdios' da minha vida acadêmica, no início da década de 1990, as mudanças climáticas globais eram ainda uma possibilidade, que discutíamos nas diferentes disciplinas da faculdade de Oceanologia da FURG, pioneira no Brasil. Hoje as mudanças climáticas são uma dura realidade, parte do cotidiano do meio acadêmico, e gradualmente avaliada com seriedade por governos no mundo inteiro, com graus variados de sucesso na realização de medidas efetivas.

Quando se fala de mudanças climáticas, os manguezais sempre entram em evidência, e não sem razão: Os manguezais ajudam o enfrentamento e mitigação das mudanças climáticas e várias frentes, com destaque para a proteção costeira e a estocagem de carbono. Na base das mudanças climáticas está o aumento dos gases de efeito estufa, especialmente gás carbônico, por sua vez especialmente oriundo da queima de combustíveis fósseis.

Publicidade

O aquecimento global desencadeia outras mudanças globais significativas e de grande impacto para a sociedade, como a elevação do nível do mar. Os manguezais têm um papel de destaque tanto na proteção costeira, mitigando os efeitos da subida do mar, como também são muito eficientes em estocar carbono.

A grande eficiência do manguezal nessas duas frentes de enfrentamento e mitigação vem de suas características de adaptação ao solo lamoso e salobro das zonas costeiras, especialmente afetadas pelas marés. Adaptações como raízes-escora e pneumatóforos permitem que as árvores de mangue cresçam nessas áreas, estabilizando grandes volumes desse solo que cresce junto com a variação da maré e o desenvolvimento das próprias árvores, permitindo que grandes quantidades de matéria orgânica, noutras palavras, carbono, seja estocado no solo do manguezal, além da própria biomassa das árvores de mangue.

Papel natural de proteção

Como o manguezal se desenvolve na zona costeira, ele tem um papel natural de proteção costeira, onde o mangue tem a possibilidade de crescer em elevação acompanhando a elevação do nível do mar, mantendo seu papel de proteção costeira e ampliando a estocagem de carbono desses ambientes, [de forma quase cinco vezes mais eficiente que florestas plenamente continentais].

Assim, é obviamente fundamental que se preserve os manguezais. Além da proteçãoe estocagem de carbono, os manguezais fornecem vários outros serviços ambientais importantes, como a produção de recursos pesqueiros, dos quais dependem primariamente muitas comunidades ribeirinhas e atendem mercados consumidores diversos. O Brasil possui a segunda maior área de manguezal do mundo, e cerca de 80% desses manguezais estão no 'cinturão' da foz do Amazonas, incluindo os estados do Amapá, Pará e Maranhão.

Publicidade

Nessa grande área, a maior parte dos manguezais está protegida pelas chamadas RESEXmar, ou seja, [as Reservas Extrativistas Marinhas]. São 14 RESEXmar no estado do Pará, cinco no estado do Maranhão e, embora não tenhamos RESEX marinhas oficializadas no Amapá, tramitam propostas de criação de 4 novas RESEXmar por lá (ICMBio, 2026). Dessa forma a maior parte dos manguezais na região possui um status de proteção, que se soma a nível de Brasil o próprio status legal de área de preservação permanente (APP).

A exemplo das terras indígenas, a preservação é assegurada pelas populações tradicionais que habitam as RESEXmar e fazem seu uso sustentável. A pesar do grande papel desempenhado pelas comunidades ribeirinhas na preservação dos manguezais, pouco do financiamento, especialmente ligado ao mercado de carbono, chega nessas comunidades.

Mercado de carbono complexo e cheio de intermediários

Esse mercado implica em regras e procedimentos complexos e burocráticos, que restringem uma participação maior das comunidades ribeirinhas e restringem seu uso, ainda que sustentável. A complexidade do assim chamado mercado de carbono gera diferentes níveis de intermediários, especialmente as empresas especializadas nos créditos de carbono, que embora auxiliem as comunidades a ter acesso a esse mercado, também reduzem seu ganho efetivo.

Adicionalmente, o contexto do mercado de carbono precisa ser expandido para a recuperação e ampliação das áreas de manguezal. A manutenção/preservação das áreas de manguezal é apenas uma parte da equação, que colabora para que o problema de liberação de carbono e consequentemente o aquecimento global piore ainda mais, mas não mitiga necessariamente seus impactos.

Publicidade

Para tanto, é preciso que se recupere áreas de manguezal degradadas, que se favoreça sua expansão, e que esse processo seja contemplado de alguma forma no mercado de carbono.

Não obstante, os manguezais também são vítimas das mudanças climáticas e sua resiliência tem limites. Uma vez que as plantas de mangue já são sujeitas a um forte estresse hídrico em função da salinidade, aumentos de temperatura (potencial de evapotranspiração) e quebra do regime de chuvas pode levar ao colapso de áreas de manguezal, e quanto a isso mesmo as comunidades ribeirinhas podem pouco e seriam vítimas junto com os manguezais.

Além disso, a subida do nível do mar associada ao aquecimento global é uma forte ameaça. Em seu artigo "O mundo sem manguezais", publicado na revista Science em 2007, o ecologista Norman C. Duke já destacava a questão de que com a subida do nível do mar, a área que pode ser ocupada por manguezais vai sendo restringida, por conta da própria topografia, mas também por conta da ocupação do espaço costeiro que já existe.

Então, embora o manguezal possa crescer verticalmente acompanhando a elevação do mar, as áreas em que isso pode de fato ocorrer vão sendo reduzidas e a demanda de sedimentos que esse processo implica pode não ser suprida e a erosão costeira, com gradual perda de manguezais é uma ameaça bastante concreta. Justamente na questão da mitigação da erosão costeira que os manguezais têm um de seus maiores serviços ambientais.

Publicidade

Soluções Baseadas na Natureza

Na atualidade, várias iniciativas têm estudado os manguezais, assim como os recifes, como redutores de energia e impacto de ondas, especialmente durante eventos extremos, reduzindo a erosão costeira. As chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SbG) representam uma frente de pesquisa emergente, onde os manguezais têm se destacado, inclusive na região costeira amazônica.

Por exemplo, na redução de erosão os manguezais tem se mostrado mais eficientes e muito mais baratos do que obras de engenharia (Gomes et al., 2025). Além disso, os manguezais prestam paralelamente outros serviços ambientais, como a estocagem de carbono focada aqui, mas também sua função paisagística e ecológica.

Em síntese, os manguezais estão literalmente na linha de frente do enfrentamento das mudanças climáticas globais, especialmente pelo seu papel de estocagem de carbono, proteção costeira e produtividade. Proteger os manguezais é essencial, e para o sucesso dessa proteção, precisamos proteger socioeconomicamente as comunidades ribeirinhas que usam e preservam essas áreas.

O mercado de carbono em sua forma atual tem se mostrado ineficiente e outros mecanismos como o programa Bolsa Verde têm se mostrado mais eficientes. Para além de um programa do poder público de compensação financeira e transferência de renda, o Bolsa Verde tem potencial grande de expansão e eventual captação, e então transferência de fato de recursos para as comunidades, de recursos do mercado de carbono.

Publicidade
The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Nils E. Asp não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações