Com recordes de calor e o colapso iminente de biomas como a Amazônia, o planeta atinge limites críticos enquanto o extremismo político global sabota a cooperação multilateral, a ciência e a regulação ambiental. O desmonte promovido por governos ultraconservadores e setores antiambientais agrava o aquecimento e emperra negociações climáticas. Embora soluções existam e a queda do desmatamento no Brasil prove a eficácia de políticas públicas, a proteção ecológica exige democracia e urgência.
Ano após ano, os indicadores climáticos globais apontam na mesma direção: os anos entre 2015 e 2025 foram os mais quentes já registrados. O ano de 2025 ficou cerca de 1,43°C acima do período pré-industrial. Os oceanos acumulam calor em níveis inéditos, as geleiras recuam e o mar sobe e se acidifica, sinais de que as mudanças climáticas deixaram de ser projeção e já fazem parte do presente.
O Relatório Global de Pontos de Inflexão de 2025 foi além e concluiu que os recifes de coral de águas quentes provavelmente já cruzaram seu limiar de colapso, o primeiro ponto de não retorno do sistema terrestre a ser ultrapassado.
Estudo recente mostra que, sem considerar o desmatamento, a Amazônia só começaria a perder estabilidade com um aquecimento de 3,7 a 4,0 °C, e mesmo assim em até um terço da floresta. O desmatamento muda esse quadro.
Como a floresta gera parte da própria chuva, cada área desmatada deixa de enviar umidade para as regiões vizinhas, que secam e podem colapsar em cadeia. Esse efeito rebaixa o limiar de ruptura: com 22% a 28% da Amazônia desmatada (hoje o desmatamento é da ordem de 18%), um aquecimento de 1,5 °C a 1,9 °C bastaria para degradar de 62% a 77% do bioma, ou seja, cerca de dois terços.
Resiliência em crise
A Amazônia, que por milênios regulou as chuvas e estocou carbono, corre o risco de ter milhões de hectares de floresta convertidos em formações abertas e degradadas. Quem viveu as secas extremas de 2023 e 2024 (e está vivendo agora a seca de 2026), com rios em mínimas históricas, comunidades ribeirinhas isoladas e fumaça cobrindo cidades inteiras, sabe que esse futuro já ensaia sua chegada.
Os ecólogos conhecem bem o conceito de resiliência, a capacidade de um sistema absorver perturbações sem mudar de estado. O que a Ciência descreve hoje é um planeta cuja resiliência se esgota. E é justamente neste momento que parte expressiva da política mundial decide tratar o termômetro como inimigo.
Os Estados Unidos, maior emissor histórico, se retiraram da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e o IPCC e deixaram o Acordo de Paris. Ao abandonar o IPCC, o país se afasta do próprio processo coletivo de produção de conhecimento que orienta governos do mundo inteiro.
Internamente, incentivos à energia limpa foram desmontados e a agência ambiental, esvaziada. O recado disso é que a Ciência passa a ser tratada como ideologia, e a cooperação internacional, como ameaça à soberania.
Na América Latina, o eco foi imediato. Na Argentina, Javier Milei retirou seus negociadores da COP29, qualifica a agenda ambiental como fraude e afirma considerar a saída do Acordo de Paris. No Chile, José Antonio Kast congelou, logo nas primeiras semanas de governo, dezenas de decretos ambientais, entre eles a criação de áreas protegidas.
No Brasil, mesmo sob um governo comprometido com a agenda climática, a aliança entre extrema direita e a bancada ruralista no Congresso, derrubou, em novembro de 2025, 52 vetos presidenciais à Lei Geral do Licenciamento Ambiental, apelidada de PL da Devastação. Voltaram ao texto o autolicenciamento por adesão e compromisso, o afrouxamento da proteção da Mata Atlântica e restrições à consulta a povos indígenas e quilombolas, numa escalada que já incluía a lei do marco temporal.
O padrão se repete com sotaques locais. Desregulação vendida como eficiência, órgãos de controle enfraquecidos, ciência desqualificada, territórios indígenas e tradicionais vistos como entrave ao progresso. O extremismo de direita não nega apenas o clima. Nega a interdependência, que é o princípio mais elementar da ecologia. Nenhum ecossistema funciona isolado, e nenhum país se protege sozinho de uma seca, de um incêndio ou de uma enchente.
Vale destacar que essa ofensiva de governos extremistas contra a ciência e a regulação ambiental tem efeito corrosivo sobre os compromissos climáticos multilaterais. O Relatório de Lacuna de Emissões do PNUMA de 2025 estimou que, mesmo com o cumprimento integral das NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada), o mundo caminha para 2,3 a 2,5 °C de aquecimento neste século, e para 2,8 °C com as políticas atuais.
A saída norte-americana, sozinha, anula parte do pequeno avanço das novas metas. E cada retrocesso nacional se converte em obstáculo nas COPs. Em Belém, a resistência de grandes produtores de petróleo deixou de fora da Decisão Mutirão o roteiro para o abandono dos combustíveis fósseis. Em Antalya, na COP 31, implementar o que foi decidido em Belém será ainda mais difícil, pois o consenso, regra das negociações, fica refém de quem decidiu não negociar.
O mais desconcertante é que as soluções nunca estiveram tão ao alcance. A energia solar, a eletrificação dos transportes e a restauração de ecossistemas já configuram pontos de inflexão positivos. Mas falta vontade política e confiança mútua entre as nações e é justamente essa confiança que o extremismo corrói, ao rebaixar dados a opinião e tratar a cooperação como fraqueza.
Há também um descompasso de tempos. A política do ressentimento opera no ciclo curto das redes e das eleições, enquanto a floresta, o oceano e a atmosfera respondem em décadas e séculos. O que se destrói em um mandato pode levar gerações para se recompor.
O Brasil chega a este momento com credenciais que poucos países têm. O desmatamento na Amazônia, que superou 13 mil km² em 2021, caiu para 3.335 km² em 2026, o menor patamar em onze anos. Isso é resultado de fiscalização, inteligência territorial, ciência pública e protagonismo dos povos da floresta. É também a prova de que a política importa.
A mensagem que queremos deixar é que não temos tempo para hesitações nem para retrocessos. A floresta que estudamos há décadas ensina que a regeneração é possível quando se protegem as fontes da vida, o solo, as sementes e as pessoas que manejam o território. Democracia e clima, como floresta e chuva, dependem um do outro. Que o Brasil escolha a Ciência, o diálogo e o futuro.
Ima Vieira é da coordenação do INCT NEXUS - Perturbações antrópicas, novas trajetórias florestais e sustentabilidade na Amazônia, e da Coalizão Ciência e Sociedade
Marcelo Tabarelli é da coordenação do INCT NEXUS - Perturbações antrópicas, novas trajetórias florestais e sustentabilidade na Amazônia, e da Coalizão Ciência e Sociedade.