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Governo federal erra e Brasil deve se reposicionar no debate ambiental, diz Roberto Waack

Biólogo e presidente do conselho do Instituto Arapyaú defende diálogo entre sociedade, governos e empresas para buscar soluções conjuntas a fim de conter desastres ambientais

17 set 2021 15h11
| atualizado às 15h20
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A falta de enfrentamento do governo federal frente às situações de desmatamento, queimadas, grilagem, garimpo ilegal e do crescimento exarcebado do narcotráfico na Amazônia tem colocado o Brasil na berlinda no cenário internacional. Por isso, na avaliação de Roberto Waack, biólogo e presidente do conselho do Instituto Arapyaú, o País perde a oportunidade de se colocar à frente das principais discussões ambientais e de guiar o planeta para soluções sustentáveis.

Waack também é um dos idealizadores do grupo Uma Concertação pela Amazônia, coalizão que reúne mais de 400 empresários, economistas, pesquisadores, políticos e sociedade. Ele defende ainda uma mudança de rumo e reposicionamento brasileiro no debate sobre a pauta ambiental. "Essa discussão, que deveria ser muito mais densa e traz muito mais oportunidades do que problemas para o Brasil. A gente não está conseguindo fazer", lamenta o biólogo, ex-presidente da Fundação Renova, instituída em 2016 para reparar os danos causados pelo rompimento da barragem em Mariana (MG).

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Por outro lado, Waack salienta que a sociedade civil, a academia e as empresas nacionais têm conteúdo para oferecer ao mundo um diálogo mais qualificado. Para ele, outras nações estão valorizando um patrimônio cultural e ambiental cravados em solo brasileiro. "Chegou o momento de o Brasil se colocar no mundo. A gente tem que reocupar esse espaço, e não está nessa posição de pária, de vilão, por conta da forma como temos tratado esse patrimônio ultimamente", acrescenta ele, um dos convidados da Virada Sustentável 2021, evento que tem o Estadão como parceiro e ocorre até 22 de setembro.

O biólogo Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú
Foto: Leo Lara /Divulgacão / Estadão

Qual deve ser a prioridade de uma articulação entre o setor público e o privado para superar os desafios a partir de soluções sustentáveis?

O tema ESG ou sustentabilidade, por princípio, pressupõe uma relação das diversas pessoas, comunidades e atores que acabam, de alguma forma, sendo impactados pelas ações tanto de governos quanto das empresas. Essas empresas e atividades produtivas produzem coisas que são chamadas de externalidades. Por exemplo: as empresas também produzem lixo, poluição, bens sociais, educação.

Quem paga o pato ou quem ganha o pato? A sociedade. Esses bens e serviços, que de alguma maneira extrapolam a função primordial, tanto de governos quanto de empresas privadas, precisam se envolver profundamente em como essas externalidades e impactos são. Se negativos, eliminados, reduzidos, mitigados ou compensados. Se positivos, potencializados.

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Não há como imaginar lidar com esses desafios sem uma relação muito forte das atividades, tanto corporativas quanto de governo, com a sociedade. Hoje, temos instrumentos muito fortes para proporcionar que essa relação gere resultados e indicações de como esses impactos devem ser encaminhados. Vejo cada vez mais a interação de todos esses atores como uma forma de governar todas as atividades humanas.

Não consigo ver a compartimentalização da discussão desses impactos e externalidades. Elas precisam fazer parte de ações conjuntas. É o que chamamos de sistemas multistakeholders, ou sistema em redes com ampla participação da sociedade. Toda a discussão de ESG e sustentabilidade passa pela nossa capacidade de potencializar sistemas de decisão em rede.

Você falou da importância da sociedade. Quem são esses atores? Associação de bairro, ONGs, cooperativas? Como eles podem participar do debate?

Quem tem legitimidade para participar desse processo e como você organiza a governança com tantos atores envolvidos. Este é um dos desafios que essa discussão traz. O primeiro ponto, e me parece central, é: aqueles que são mais diretamente afetados precisam participar da maneir mais direta possível.

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A voz dos representantes políticos tem papel central, mas não é suficiente. As organizações daqueles diretamente impactados precisam participar dessas discussões. Entra outra discussão: como se organizam e como criam esse movimento de engajamento na sociedade? Isso é uma cultura, de ativismo e participação, e passa muito pelo processo educacional. A gente vê em alguns países em que o engajamento da sociedade nas decisões no que acontecem com ela não se restringe ao processo de eleição, ao processo político, que também é fundamental.

Existe um engajamento e ativismo mais forte. Esse ativismo tem muito a ver com educação, capacidade de se organizar, ter repertório para ter discussão densa de como as situações que afetam a sociedade acabam sendo por um lado digeridos por ela e elas participam de processos decisórios que afetam suas vidas.

Como funciona o projeto do Instituto Arapyaú no sul da Bahia e o que, de fato, já retorna para o pequeno produtor de cacau? E como as empresas privadas serão beneficiadas?

Esse é um bom exemplo da tentativa de fortalecer redes: movimentos que envolvem os pequenos e os grande produtores; as empresas, que são as compradoras desses produtos; o sistema financeiro, que de alguma forma irriga e alimenta o crescimento dessas atividades; a sociedade civil, que resguarda a atenção e o conteúdo de como esses impactos são geridos por essas sociedades; a academia; a ciência e a tecnologia.

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O papel, de alguma maneira, do Arapyaú é de facilitar o encontro de todos esses agentes para que os encaminhamentos não só das atividades produtivas, mas também os da política, da ciência, etc, sejam compartilhados de forma mais eficiente. Uma das discussões que existe é como aumentar a produtividade do cacau na região.

O aumento da produtividade não é apenas técnico. O sistema de crédito ao produtor e logística são fundamentais. Toda a avaliação da qualidade desses produtos é fundamental. Agora temos coisas interessantes: qual o impacto positivo no campo ambiental, por exemplo, do pequeno produtor da Cabruca (Cooperativa de Produtores Orgânicos do Sul da Bahia), de quem mantém suas áreas conservadas e como é o reconhecimento por esse tipo de atividade? E esse reconhecimento tem que ser traduzido em valor econômico para ele.

Além de todos os processos produtivos que envolvem o cacau, quais são os processos que estão adjacentes, por exemplo o da conservação, que precisam ser valorizados? Aí entra uma questão importante: os mecanismos de valorização ainda não estão totalmente definidos. É preciso que essa ação conjunta ajude a desenvolvê-los para que sejam adequadamente distribuídos.

Já é possível adiantar algum resultado ou tendência desse trabalho?

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Se discute a existência de uma agência regional de desenvolvimento com a participação de todos esses atores que, de alguma maneira, vão retornando para toda a região o seu potencial de uma produção mais equilibrada.

De que forma a Concertação pela Amazônia levará a região às pautas das eleições em 2022?

Um dos desafios da Concertação é proporcionar um ambiente em que a Amazônia seja amplamente discutida pela sociedade brasileira, que as iniciativas da ciência, tecnologia, da universidade, da filantropia, das empresas e dos governos, federal, estadual e municipais, se encontrem. Talvez assim a gente consiga, através de diálogos e olhando para o futuro, estabelecer uma visão de longo prazo para a região.

E aí entram as eleições. Essa visão de longo prazo precisa ser discutida em todos os processos eleitorais, em âmbito federal e estadual. Se discute muito pouco algo que é tão importante para o Brasil, para a identidade brasileira. A Amazônia não tem sido pauta das grandes discussões dos movimentos políticos que ocorrem no Brasil. Uma das contribuições que a gente acredita ser importante é ajudar a melhorar esse repertório político sobre as propostas políticas dos diversos candidatos que, de alguma maneira, incluem a Amazônia.

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Você fala muito de governos. As turbulências ambientais da gestão federal prejudicam a articulação entre os setores nacionais e internacionais?

Sim. Infelizmente, a imagem do Brasil, por conta do que tem acontecido na Amazônia, tem sido muito negativamente impactada. É uma discussão que precisa ter maior profundidade, tanto no âmbito nacional quanto no internacional. Uma das questões que a gente traz na Concertação é que não existe uma Amazônia, existem múltiplas amazônias. E se não tratarmos desse território com a heterogeneidade que ele tem, a gente acaba sendo superficial demais.

É assim que os governos deveriam tratar. Áreas, por exemplo, que têm como vocação e prioridade a conservação absoluta demandam políticas diferentes daquelas que já foram consolidadas e hoje ocupam parte importante da produção de commodities agrominerais no Brasil. As cidades têm especificidade muito grande. A gente tem um quarto da Amazônia sob a responsabilidade ou o mandato das comunidades indígenas, o que é muito bom e único no planeta. Mas que precisa ser mais valorizado e de um tratamento muito mais denso e prioritário.

Infelizmente, a gente não tem esse diálogo nem no âmbito nacional e, muito menos, no internacional. A situação do desmatamento, das queimadas, das grilagens, do garimpo ilegal, do narcotráfico, que cresce tremendamente, faz com que a nossa exposição diante do mundo seja de vilão, de um país que está destruindo um patrimônio importantíssimo para a humanidade. E essa discussão, que deveria ser muito mais densa e traz muito mais oportunidades do que problemas para o Brasil, a gente não está conseguindo fazer.

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O patrimônio cultural e ambiental que a Amazônia representa para o Brasil, do ponto de vista das mudanças climáticas, da emergência climática, da produção de água e tudo isso, traz uma oportunidade do Brasil se colocar como um país de fronteira. O mundo está buscando o que o Brasil já tem. O mundo está valorizando cada vez mais o que o Brasil já tem. E a gente de alguma forma precisa aproveitar muito melhor os sinais que o mundo está dando para as coisas que temos a oferecer. Mas a gente está no caminho oposto. Estamos afastados dos grandes debates, do valor do patrimônio natural cada vez mais respeitado internacionalmente.

É fundamental que haja mudança de rumo nessa discussão. Que o Brasil se recoloque como um país que tem não só esse patrimônio, mas tem conhecimento. A sociedade civil, a academia e as empresas brasileiras têm muito conteúdo para oferecer ao mundo uma discussão de qualidade muito maior e fazer do país protagonista nessa discussão. Chegou o momento de o Brasil se colocar no mundo. A gente tem de reocupar esse espaço, e não está nessa posição de pária, de vilão, por conta da forma como temos tratado esse patrimônio ultimamente.

O modelo da Fundação Renova foi considerado promissor para reparação de danos causados com o rompimento da barragem em Mariana. Mas, seis anos após a tragédia, a iniciativa é contestada, inclusive na Justiça, por uma série de irregularidades. (Uma reestruturação chegou a ser ordenada.) O que de positivo e negativo podemos tirar deste enfrentamento?

O modelo da Fundação Renova é o correto. Defendo ele profundamente. É o modelo em que as decisões sobre o que fazer com a reparação são compartilhadas com todos os atores que participam do processo: os que foram atingidos, as empresas responsáveis pelo evento, órgãos de regulação, governos, prefeituras, academia. Não vejo nenhuma alternativa a não ser que todos os envolvidos, em conjunto, definam os rumos da reparação.

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Agora, a convivência numa governança mais complexa como essa é algo que precisa ser aprendido. É aí que me parece ser o maior desafio que a Renova enfrentou. O modelo de governança é complicado demais. Causa dificuldade imensa de implementação das ações. Apesar disso, não existe nenhum caso de um desastre dessa dimensão do planeta que teve tanta coisa implementada. É um modelo que nunca vai satisfazer a todos. A convivência com a crítica faz parte desse sistema em que toda a sociedade se reúne para encontrar soluções.

Complicamos demais o modelo porque não sabíamos. Essa complicação gera dificuldades na implementação de várias ações. Para mim, essa é uma postura diante de uma situação dessa dimensão: encarar que ela é uma situação hipercomplexa, cuja solução depende dessa concertação constante dos atores envolvidos, de aceitar que há um conflito evidente na raiz dessa situação que é a tragédia, o desastre.

A sociedade, a Renova e as empresas terão de lidar com isso para o resto da vida. Essa tensão não tem como desaparecer. Ela vai sendo reduzida, as entregas vão acontecendo, mas é um processo de aprendizado tanto de convivência de modelos de solução e convivência como das soluções técnicas que vão se mostrar inadequadas e terão de ser corrigidas.

Você percebe alguma mudança na implementação desse modelo para reparação de danos, lá de 2016, com o que vemos surgir hoje?

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Vamos chegar num aprendizado de como lidar com problemas com esse grau de complexidade em que aprendemos que aquela situação ideal de total participação, quase que assembleia permanente de tomada de decisão, é muito difícil de ser implementada. Assim como o extremo em que não haja essa participação também não é o ideal.

As pessoas participam de qualquer jeito. São impactadas porque continuam vivendo nessa região. Estamos aprendendo a criar modelos que sejam mais eficientes de gestão multistakeholders. Infelizmente, vamos viver e conviver muito mais com desastres. Não só os causados pelo mundo corporativo, mas todos os imports do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) indicam que a gente vai ter de conviver infelizmente com desastres relacionados às mudanças climáticas.

Teremos de lidar com eles em conjunto. Vamos ter de lidar cada vez mais com situações em que a fronteira da ciência é o limite. Ainda não se sabe como. Vamos lidar com limites de conhecimento, com as questões da Justiça. Porque a Justiça também não tem as respostas prontas.

Quais articulações estão inovando e são promessas de bons resultados sustentáveis já para os próximos anos?

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De maneira geral, um ponto central é o que a gente tem chamado de aporte da ciência a essas questões que eram marginais. Mais especificamente: toda a discussão de emissão de carbono era marginal. Ninguém ligava muito para isso. Nos últimos cinco anos, a gente está aprendendo medir, por exemplo, qual o impacto de emissão de carbono de uma cadeia de suprimentos tão sofisticada quanto a da pecuária.

Mas a grande inovação que está vindo é a capacidade de medir o impacto de uma forma muito mais ampla do que aquele diretamente associado ao que a empresa faz. É o que a gente chama de science based target. Dei o exemplo do carbono, mas a mesma coisa deve acontecer com a pegada hídrica, tem de acontecer com as questões associadas à biodiversidade, está acontecendo na área de bem-estar dos animais.

Todas as questões que costumávamos chamar de externalidades, mas que na realidade não deveriam ser simplesmente isso. O que a gente está dizendo: internalize essas questões, meça todas essas pegadas, tanto as positivas quanto as negativas.

Uma empresa florestal gera sequestro de carbono,isso tem de ser valorizado, reconhecido. O reconhecimento desses elementos no entorno dos eixos produtivos, tanto de empresas quanto de governos, parece ser a grande fronteira da discussão de ESG. Porque isso vai afetar o valor das organizações. Se vai afetar os valores das organizações, impacta a governança. Aí, as três letrinhas se unem. O ambiental, o social e, se impacta valor, modelo de negócio, os acionistas, os investidores têm de entrar nesse jogo e são responsáveis pelos novos caminhos dessas organizações e pegadas que fazem.

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Estamos vivendo a concretude dessas discussões. Sai de uma visão moral e passa a ser uma questão objetiva, muitas vezes legal, e que vai se traduzir em novos modelos e oportunidades de negócios também.

A gente falou muito de um modelo de gestão para reparar danos. Mas e aqueles que possibilitam se antever, que são consultivos? Há um predominante ou que precisamos valorizar mais?

Cito o professor Pavan Sukhdev, atual presidente do conselho mundial do WWF (World Wide Fund for Nature). Ele cita os três Ds. O primeiro é o da desgraça, do desastre. Esse é o D que faz as organizações se moverem com mais velocidade hoje. As organizações, os governos e o mundo se movem na hora que tem um desastre. A outra forma como o mundo se move é o D do decreto. Ele se move porque tem uma lei, porque alguém mandou. Mas, normalmente, o decreto só vem apenas depois de um desastre.

O que a gente precisa olhar é o que chamamos de D dos desenhos de novas estratégias. Vou evitar os desastres, antever, criar modelos que tomem cuidado com esses efeitos chamados marginais, chamados intangíveis, mas não são porque afetam a vida das pessoas.

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O desafio hoje com a discussão do ESG, etc, é que as empresa olhem para os modelos, prestem atenção em todos esses impactos e desenhem o seu negócio para evitá-los. Mais que isso: aumentem os impactos positivos em geral, que proporcionem muito mais do que aquele produto que a empresa está vendendo ou produzindo.

Tem uma coisa muito importante nisso que é o que a gente chama de desastres crônicos. Normalmente, a gente se move com a ponta do iceberg. Quando aconteceu, já não tem mais jeito. O incêndio no Pantanal, o desmatamento na Amazônia, o desastre de Mariana, tem de correr atrás, mas o ideal era que não tivesse acontecido. Esses desastres agudos vão sendo produzidos durante muito tempo e a gente não presta atenção nisso.

Cada vez mais esses efeitos positivos são valorizados pela comunidade de provedores de capital. O mundo hoje presta mais atenção para isso, o que é muito bom. Mas vai demandar mudanças de negócio. Agora as três letrinhas (ESG) vão ter de conversar de qualquer jeito. Mas isso tem de ser em cima de ações, mensurações e mudanças de procedimentos concretos. Não é só conversa.

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