'Supergripe' é, na verdade, variante da influenza A; especialistas descartam risco de pandemia

POSTAGEM ENGANA AO DIZER QUE NOVA CEPA TERIA CONTAMINADO 15 MILHÕES DE PESSOAS NOS EUA; NÚMERO CORRESPONDE A TODA A TEMPORADA DE GRIPE NO PAÍS

22 jan 2026 - 17h40

O que estão compartilhando: que uma supergripe nos Estados Unidos (EUA) já infectou 15 milhões de pessoas e que isso indica o surgimento de uma nova pandemia.

Especialista ouvida descarta indicativo de pandemia.
Especialista ouvida descarta indicativo de pandemia.
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O número de infectados refere-se à temporada de gripe nos EUA como um todo, mas a postagem dá a entender que seriam causados por uma única variante do vírus causador da influenza A, o H3N2. Especialistas acreditam que a nova cepa pode causar uma epidemia, mas não há expectativas de que vire uma pandemia. Entenda abaixo.

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Saiba mais: Conteúdo compartilhado no Instagram alerta para uma "supergripe" que afeta os Estados Unidos. O post tem linguagem alarmista, alegando que 15 milhões de americanos foram infectados com a doença e 7.400 morreram "em poucas semanas".

O que é a supergripe?

A "supergripe" não é uma nova doença. Trata-se de uma variante do vírus da influenza A (H3N2). A cepa é chamada de subclado K, e ficou popularmente conhecida como "supergripe".

Foram relatados casos da variante no Canadá e Reino Unido durante o verão, onde a nova cepa causou aumento de hospitalizações no outono de 2025. Nos Estados Unidos, aumentaram os registros de casos com influência da subclado K, em dezembro de 2025.

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Os sintomas não são diferentes da gripe comum: dor de garganta, nariz escorrendo, febre, tosse, dor de garganta, dores musculares, suor e calafrios. Em alguns casos, os pacientes podem apresentar ainda diarreia, vômito, rouquidão e olhos avermelhados e lacrimejantes. Como a subclado K é uma variante a que a população tem pouca imunidade, muitas pessoas estão suscetíveis e estão sendo infectadas.

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A 'supergripe' já infectou 15 milhões?

Em 9 de janeiro, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos publicou um relatório de acompanhamento da gripe no país que apontou pelo menos 15 milhões de casos de gripe nos EUA, 180 mil hospitalizações e 7.400 mortes.

Mas, ao contrário do que insinua o conteúdo aqui analisado, esses dados não são exclusivos da subclado K. Apesar do vírus H3N2 ser o mais frequentemente relatado, há também casos de H1N1.

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O último relatório do CDC é do dia 16 de janeiro. A gripe permanece elevada em nível nacional, e os vírus da influenza A (H3N2) ainda são os mais relatados.

Entre os 547 vírus da influenza A (H3N2) coletados desde 28 de setembro de 2025 e submetidos à genética, 90,9% pertenciam ao subclado K. O órgão estima que já houve pelo menos 18 milhões de casos de gripe, 230 mil hospitalizações e 9.300 mortes nesta temporada.

Há risco de uma nova pandemia?

A virologista Paola Rezende descarta a possibilidade de que a "supergripe" vire uma pandemia. "Isso não é algo que a gente espera. Pode estar mais associado realmente a uma epidemia mais grave, mas não há uma pandemia", explicou Paola, pesquisadora do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

Uma epidemia é o aumento no número de casos de uma doença em diversas regiões, estados ou cidades, porém sem atingir níveis globais. Já a pandemia é quando a alta incidência da doença é observada em vários países e continentes.

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Segundo a pesquisadora da Fiocruz, historicamente, pandemias do vírus influenza estão associadas com novas combinações genéticas que levam a um novo vírus. Não é o caso do subclado K.

"(O subclado K) é basicamente uma evolução do vírus H3N2 que vem circulando na nossa população, que ganhou algumas mutações e acaba escapando da resposta imune e atingindo maior número de pessoas", explicou Paola.

A pesquisadora explica que os últimos vírus que causaram pandemias foram provenientes de rearranjos genéticos que ocorreram na natureza e acabaram saindo da espécie animal e vindo para a espécie humana, como a covid. Como já mostrou o Verifica, a hipótese de origem na natureza é a mais aceita na comunidade internacional, devido a dados publicados em estudos científicos revisados por pares.

Como mostrou o Estadão, por apresentar características genéticas novas, a OMS é obrigada a emitir um alerta, mas isso não significa risco de pandemia nem motivo para pânico. A recomendação é que as autoridades sanitárias mantenham a vigilância e acompanhem o comportamento do vírus.

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Vacinação é aconselhada por órgãos e especialistas

O subclado K foi identificado no Brasil, em dezembro, por pesquisadores da Fiocruz. A amostra foi coletada de uma paciente do sexo feminino, adulta e estrangeira, oriunda das ilhas Fiji. O caso foi classificado como importado. O Brasil tem quatro casos confirmados: são três registros no Mato Grosso do Sul e um no Pará.

Essa variante não foi incluída nas vacinas contra a gripe de 2025 nos Estados Unidos porque foi identificada depois da escolha das cepas incluídas. Mas ainda assim, as vacinas contém cepas relacionadas e funcionam contra a doença.

No Brasil, a composição da vacina de influenza é atualizada semestralmente, segundo a virologista do Fiocruz Paola. "Às vezes é necessário alterar a cepa da composição da vacina para deixá-la mais próxima aos vírus que circulam no momento", disse.

"Foi o que aconteceu para 2026. Duas cepas foram alteradas para compor a vacina de 2026, e a gente vai estar aí com cepas mais atualizadas. Então reforçamos a necessidade de vacinação da população, principalmente a população de alto risco", destaca Paola.

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A Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) recomendam a vacinação para a diminuição da gravidade da gripe. Segundo os órgãos, "apesar das diferenças antigênicas observadas no subclado K, os dados preliminares de efetividade vacinal mostram que a proteção contra hospitalizações se mantém em níveis semelhantes ao das temporadas anteriores."

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