A audiência com o ex-diretor de Saúde dos Estados Unidos, Anthony Fauci, no Senado americano, reacendeu uma onda de desinformação sobre vacinas e a pandemia de covid-19 nas redes sociais. Nos últimos dias, médicos brasileiros e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro insinuaram que a audiência provou que eles estavam certos ao recomendar o tratamento precoce contra a doença e ao afirmar que as vacinas e outras medidas de prevenção não eram eficazes. Mas nada disso é verdade.
Ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid) de 1984 a 2022, o imunologista Anthony Fauci recusou-se, na última quarta-feira, 29, a responder a perguntas de uma comissão liderada por republicanos sobre sua gestão durante a pandemia. Fauci invocou a Quinta Emenda da Constituição americana e permaneceu em silêncio, o que, diferentemente do que circula em redes sociais, não significa admissão de culpa. O objetivo é proteger indivíduos contra eventuais coerções, erros e transferência injusta do ônus da prova de supostos atos ilícitos.
A sessão nos EUA ocorreu após o presidente do comitê, o senador republicano Rand Paul, divulgar mais de 1,1 mil páginas de um diário atribuído a Fauci. As anotações, segundo Paul, mostrariam uma convicção diferente de Fauci sobre medidas que ele publicamente orientou para combater a covid. Trechos do documento foram usados por republicanos para questionar a segurança das vacinas de mRNA, as hipóteses sobre origem da covid-19 e as recomendações de lockdown e uso de máscaras.
No Brasil, postagens usaram trechos da audiência e alegações de políticos americanos para espalhar desinformação. Houve alegações de confirmação de que a "vacina não funcionava" e de que o ex-presidente Bolsonaro estava certo ao recomendar o tratamento precoce contra a covid-19. Mas, assim como a audiência no Senado dos EUA, as anotações de Fauci não oferecem evidências que suportem as falsas alegações.
O Verifica procurou Davi Rodrigues, Osmar Terra (PL-RS), Roberto Zeballos, Raissa Soares (PL-BA) e Lucas Pavanato, mencionados na reportagem, mas não recebeu retorno até a publicação.
Conteúdos atacam a vacinação após audiência nos EUA
Em um vídeo com mais de um milhão de visualizações no Facebook, o médico Davi Rodrigues, que recomendou o tratamento precoce sem comprovação durante a pandemia, responde o que fazer "agora que a gente descobriu que muitas coisas relacionadas à pandemia eram falsas". Ele destaca que "a vacina não funcionava" e que o imunizante estaria ligado ao aumento de infartos e câncer. Contudo, as informações são comprovadamente falsas.
A Organização Mundial da Saúde afirma que a imunização salvou milhões de vida e desempenhou um papel vital na resposta global contra a covid-19. Em setembro de 2024, a revista The Lancet publicou um estudo estimando que, entre dezembro de 2020 e março de 2023, as vacinas contra a covid evitaram 1,6 milhão de mortes na Europa. Outro, publicado na Jama, estimou que a vacinação salvou 2,5 milhões de vidas no mundo entre 2020 e 2024.
Além disso, não há evidências científicas que apoiem a alegação de que infartos entre jovens aumentam por conta da imunização. Pelo contrário, a literatura mostra que as vacinas têm efeito protetivo contra esses problemas de saúde, porque previnem a infecção grave por covid - um fator de risco para o infarto. Também não existe comprovação de relação entre os imunizantes e casos de câncer.
O médico e deputado federal Osmar Terra (PL-RS), ministro da Cidadania de Bolsonaro entre 2018 a 2020, fez uma postagem no Instagram afirmando que Fauci "gostou de apavorar o mundo e da fama mundial que isso lhe dava". O político afirmou que o americano "prometeu uma vacina sem testagem minimamente adequada" que, segundo Terra, não protegeu contra o agravamento da covid, hospitalização ou morte.
Diferentemente do que publicou o deputado, as vacinas contra o coronavírus ofertadas à população passam por uma série de testes que determinam sua segurança e eficácia. Um estudo realizado com milhões de vacinados pela Global Vaccine Data Network (GVDN), em 2024, confirmou a segurança das vacinas e demonstrou que os efeitos adversos são muito raros.
O imunologista Roberto Zeballos também publicou um vídeo com mais de 760 mil visualizações no Instagram dizendo que as pessoas "foram enganadas". Ele afirmou que ignorou as recomendações de Fauci e tentou "espalhar um tratamento que funcionava". Zeballos disse que, atualmente, o problema é a síndrome pós-spike, segundo ele, "sinônimo de síndrome pós-vacina" e "covid longa". Não há, por sua vez, comprovação de que a doença atribuída às vacinas de mRNA exista.
Como mostrou reportagem do Estadão Verifica, a existência da "síndrome pós-spike" ou "spikeopatia" não é comprovada pela comunidade científica. Entidades médicas e autoridades de saúde afirmam que não há evidências de que a proteína spike induzida pelas vacinas cause efeitos semelhantes aos da covid longa, uma condição crônica causada pela infecção do vírus. Ao lado de outros médicos, Zeballos publicou um estudo para apoiar a hipótese sobre suposta síndrome. Mas o artigo foi contestado e retirado de publicação por conter falhas.
O Verifica ainda mostrou na terça-feira, 4, que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo em que dissemina alegações falsas já refutadas sobre as vacinas.
Posts defendem que Bolsonaro 'tinha razão' ao defender tratamento precoce sem comprovação
A médica Raissa Soares (PL-BA), candidata a deputada federal, publicou uma série de vídeos em suas contas afirmando que a imprensa "escondeu a verdade" sobre o uso de ivermectina e hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19. Não há provas de benefício do uso dos medicamentos contra a doença (aqui e aqui).
Citando Jair Bolsonaro, ela afirmou que a "narrativa começa a desmoronar" e que o ex-presidente "tinha razão". Durante sua gestão, Bolsonaro defendeu o uso dos remédios na pandemia mesmo sem comprovação de eficácia e segurança.
Pesquisas nacionais e internacionais apontam a ineficácia da ivermectina contra a covid-19. Como mostrou o Verifica, um estudo publicado pela British Infection Association, no Journal of Infection, em abril de 2024, concluiu ser improvável que o medicamento ofereça uma melhora clinicamente significativa na recuperação, nas internações hospitalares ou nos resultados a longo prazo.
Segundo o Ministério da Saúde, a ivermectina é um antiparasitário indicado para doenças como estrongiloidíase, filariose e escabiose (sarna). O uso indiscriminado do medicamento pode causar efeitos adversos e trazer riscos à saúde.
A defesa do tratamento precoce voltou a circular após o senador Ron Johnson questionar, durante a audiência nos EUA, se Fauci estaria envolvido em um "ataque" da Food and Drug Administration (FDA) à hidroxicloroquina e à ivermectina. A agência americana revogou, ainda em 2020, autorização para o uso dos medicamentos contra a doença.
O senador Johnson é apontado pela imprensa americana (aqui e aqui) como um disseminador de teorias conspiratórias, tratamentos ineficazes e informações falsas sobre a segurança das vacinas.
Estudos científicos também provaram não haver eficácia de cloroquina e hidroxicloroquina para tratamento da covid-19, como o Estadão Verifica mostrou em diversas checagens (aqui, aqui, aqui, aqui).
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e agências internacionais - como a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e a FDA, dos EUA - seguem contraindicado ivermectina, cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19.
Outras publicações ainda viralizaram ao divulgar alegações falsas sobre a ineficácia do uso de máscaras, do distanciamento social e do lockdown para prevenir a transmissão do vírus da covid.
Checagens já publicadas pelo Estadão Verifica (aqui, aqui, aqui e aqui) destacaram dados que apontam o contrário. Um artigo publicado na revista médica The Lancet concluiu, após revisar 44 estudos observacionais, que medidas como distanciamento físico de um metro e uso de máscaras faciais reduziram significativamente a transmissão do vírus da covid-19. Já a revista Nature publicou um extenso material em que aponta que os lockdowns reduziram em média 80% das transmissões do vírus.
Evidências sobre a origem da Covid
Como presidente do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado, o senador Rand Paul vem conduzindo uma investigação sobre a origem do coronavírus. A divulgação do diário de Fauci, com relatos entre 2019 e 2022, serviu para retomar o debate em torno do tema. Mas não constam, nas anotações do imunologista, revelações que confirmem a origem do vírus. Até o momento, não existe consenso na comunidade científica sobre o assunto. Mas a principal suspeita é a de que o vírus tenha inicialmente passado de um animal para um ser humano.
Em seu diário, Fauci demonstra incerteza em relação à origem do coronavírus. Mas afirma que a origem natural por meio de um salto de espécies animais para humanos é a explicação mais provável, embora escreva que mantém uma "mente aberta" diante da hipótese de um vazamento de laboratório.
A questão vem sendo explorada politicamente nos EUA. Em 2024, um relatório publicado por um subcomitê do Congresso norte-americano que investigou as possíveis origens da covid-19 - formado por maioria do Partido Republicano, o mesmo de Trump - apontou que a origem mais provável para o surgimento do vírus da covid-19 foi o vazamento de um laboratório em Wuhan, na China. O relatório, porém, não é capaz de provar a hipótese cientificamente, assim como um site do governo Trump, lançado em abril do ano passado, que se baseia no relatório para afirmar que o vazamento de laboratório "é a verdadeira origem da covid-19".
Membros do Partido Democrata discordaram do relatório e publicaram conclusões próprias. Segundo eles, tanto a origem do vírus na natureza quanto por meio do vazamento de um laboratório são plausíveis.
A mesma conclusão consta no relatório final do Grupo Consultivo Científico para as Origens de Novos Patógenos (SAGO, em inglês) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Formado por 27 especialistas de diferentes nacionalidades, o grupo concluiu, em junho do ano passado, que as hipóteses de origem natural ou vazamento de laboratório continuam válidas. No entanto, segundo a OMS, as evidências científicas tendem mais para a origem natural no vírus "diretamente de morcegos ou através de um hospedeiro intermediário".
Essas evidências, baseadas em estudos publicados em importantes revistas científicas, foram mostradas em checagem do Estadão Verifica, na qual os cientistas entrevistados concordaram que a origem natural é a hipótese mais provável. Porém, como consta na matéria, ainda não se pode afirmar com exatidão a origem do vírus da covid por dois motivos: não se encontrou que animal estaria infectado pelo vírus no momento em que houve a transmissão para humanos; e não se sabe exatamente de qual vírus o SARS-CoV-2 evoluiu.
Mesmo diante da falta de consenso científico sobre o tema, o vereador Lucas Pavanato (PL-SP) comentou em um vídeo, com mais de 3,3 milhões de visualizações, que "o coronavírus pode sim ter sido criado por um laboratório da China". O post defende que "Bolsonaro tinha razão" sobre a pandemia de covid-19.