É falso que a entrega das mídias das urnas em salas abertas com várias pessoas seja crime ou indique fraude eleitoral. Vídeo gravado em Maringá (PR) foi tirado de contexto nas redes sociais para colocar em dúvida a segurança do pleito. Segundo o TSE, o procedimento segue regras oficiais de transparência e auditoria: os dados são gravados criptografados e transmitidos por rede privada e segura aos computadores centrais, garantindo a integridade dos votos sem vulnerabilidades.
Investigado por: A Gazeta, Zero Hora, NSC Comunicação
Não é crime o fato de a entrega das mídias com os resultados das urnas usadas nas eleições ser feita em uma sala aberta e com várias pessoas trabalhando, ao contrário do que afirma uma publicação no X. O post questiona a maneira como as informações com votos das urnas eletrônicas chegam a uma sala de contabilização para serem direcionadas para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Repostando um vídeo que mostra o procedimento em Maringá (PR), um usuário do X questiona o fato de o recebimento das bolsas com as mídias que serão levadas aos computadores ocorrer em uma sala aberta e "cheia de gente". "Achei que (…) entrava em uma sala lacrada e lá subiam os votos", aponta, afirmando ainda ser crime. O vídeo publicado no X teve mais de 367 mil visualizações no X até esta quinta-feira (8).
O TSE nega que a transmissão dos votos das urnas eletrônicas seja vulnerável ou irregular por ocorrer em salas abertas e com a presença de pessoas ou por utilizar "pen drives" e computadores.
De acordo com o TSE, a transmissão dos resultados das urnas eletrônicas é um processo transparente, auditável e altamente seguro. A presença de pessoas e fiscais no local de transmissão reforça a publicidade e a transparência do ato democrático.
O vídeo do post é real? Mostra o momento da apuração dos votos?
O vídeo da postagem que viralizou foi repostado de um perfil de Instagram de um jornal de Santa Catarina, mas originalmente foi gravado por uma repórter de uma rede de TV do Paraná na noite da apuração em Maringá (PR). As imagens mostram o que acontece com as Mídias de Resultado das urnas, que têm formato parecido com um pen drive, depois que a votação termina.
As imagens acompanham a chegada das bolsas a um cartório eleitoral de Maringá, a entrega das mídias e o momento em que elas são colocadas nos computadores do ponto de transmissão. Nesse local, segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), os arquivos são enviados ao TSE por uma rede de comunicação privada e criptografada. Antes de incorporar os resultados à totalização, o sistema verifica a autenticidade, a integridade e a identificação dos arquivos.
Submetido à análise do SynthID, o vídeo é real e apresenta baixa probabilidade de alteração fraudulenta, de uso de IA ou de manipulação de conteúdo.
"A única alteração identificável é a inclusão convencional de legenda e vinheta informativa de mídia jornalística (pós-produção editorial), sem evidências de adulteração do conteúdo dos quadros ou de geração por inteligência artificial", aponta a ferramenta.
Como é feita a contagem? Onde? Por quem? É usado pen drive?
Segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral, a apuração dos votos começa imediatamente após o encerramento da votação, às 17h. Nesse momento, o presidente da seção eleitoral seleciona a opção "Encerrar votação" no terminal do mesário e confirma o procedimento seguindo as orientações do sistema. A partir desse momento, a urna é bloqueada para novos votos.
A própria urna realiza a soma de todos os votos registrados naquela seção eleitoral. Como a urna eletrônica não fica conectada à internet nem utiliza tecnologias como Wi-Fi ou Bluetooth durante a votação, os votos permanecem armazenados no equipamento até o fechamento oficial da seção.
Após o encerramento da votação, a urna imprime ao menos cinco vias do chamado Boletim de Urna (BU), documento que apresenta o resultado daquela seção específica. O boletim mostra quantos votos cada candidato recebeu, além dos votos em branco, dos nulos e do total de eleitores que compareceram para votar. Isso permite que partidos, candidatos ou qualquer cidadão possa conferir se os resultados são iguais aos contabilizados pelo TSE.
Além da versão impressa, a urna também grava eletronicamente os dados do resultado em uma mídia de armazenamento chamada Mídia de Resultado. Nessa mídia ficam registrados os dados da votação daquela seção, protegidos por mecanismos de criptografia que permitem verificar se o conteúdo permaneceu íntegro e não sofreu alterações.
Depois da impressão dos boletins, o presidente da seção retira essa Mídia de Resultado da urna. O dispositivo é então encaminhado ao cartório eleitoral juntamente com uma das vias impressas do Boletim de Urna. No cartório, os dados são lidos por computadores preparados especificamente para o processo eleitoral e passam por novas verificações de autenticidade e integridade.
Somente após essas conferências, as Mídias de Resultado são transmitidas para os centros de recebimento da Justiça Eleitoral, onde são processadas e incorporadas aos sistemas de totalização. A transmissão ocorre por uma rede exclusiva utilizada pelos tribunais eleitorais, separada do sistema de votação.
A contagem dos votos não é realizada manualmente por servidores públicos nem por mesários. Atualmente, a soma nacional dos votos é processada em uma infraestrutura de alta segurança mantida pelo TSE em Brasília, incluindo ambientes conhecidos como sala-cofre, projetados para proteger os equipamentos e os dados eleitorais.
Quem criou a postagem e qual é seu interesse na disseminação do conteúdo?
A postagem original foi feita por uma repórter de uma emissora de TV do Paraná e mostra os bastidores da apuração em Maringá. Ao Comprova, ela afirmou que não teve intenção de causar desinformação com a postagem. "Na verdade, estava tudo super organizado e eu estava sob a supervisão da juíza eleitoral", disse.
O vídeo foi republicado por um portal de Santa Catarina que, na legenda, explica como funciona o processo de apuração eleitoral. No entanto, apesar de inicialmente não aparentar ser desinformação, o conteúdo está inserido em um contexto de outras postagens, do mesmo portal, que misturam informações descontextualizadas, notícias em tom sensacionalista e publicações que favorecem a extrema direita. Há também uma postagem que questiona: "Você ainda acredita em pesquisa?". A postagem, portanto, é voltada a gerar engajamento com dúvidas sobre a segurança da urna.
Procurado pelo Comprova, o portal de Santa Catarina disse: "Não temos que nos pronunciar sobre o que as pessoas compreendem de um conteúdo".
Quais táticas de persuasão foram utilizadas pela publicação?
O vídeo registra um procedimento operacional padrão e legítimo do processo eleitoral brasileiro, mas ao afirmar que o trabalho da recepção das mídias com os votos das eleições em sala aberta e com muitos trabalhadores é crime, o usuário recorre a táticas de descontextualização e falsas conexões para insinuar uma fragilidade ou manipulação no sistema do TSE.
Dessa forma, o conteúdo explora, por exemplo, o aproveitamento do viés de confirmação em um ambiente já polarizado, levando o leitor a tirar conclusões precipitadas sobre o processo de contabilização dos votos nos cartórios eleitorais.
Fontes que consultamos: O Comprova consultou a Justiça Eleitoral sobre as etapas do processo de apuração eleitoral. Também consultou a ferramenta SynthID para verificar se o conteúdo foi manipulado por IA e entrou em contato com os autores das postagens originais.
Por que o Comprova investigou essa publicação: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e em aplicativos de mensagens sobre políticas públicas, saúde, mudanças climáticas, eleições e golpes virtuais e abre investigações sobre aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
Outras checagens sobre o tema: A AFP fez uma checagem do mesmo vídeo, assim como oTribunal Superior Eleitoral. O Comprova já checou outros conteúdos desinformativos relacionados às eleições de 2026 sobre pesquisas eleitorais, alertas de segurança e um avião enviado pelos EUA para capturar Lula.
Notas da comunidade: Nenhum dos posts analisados sobre esse tema pelo Comprova tinha notas da comunidade.
Verificado por: Correio de Carajás, Correio Braziliense, Estadão, Projeto Comprova