O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) emitiu nesta quinta-feira uma série de recomendações à fabricante do avião ATR turboélice e à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), como desdobramento das investigações sobre a queda de uma aeronave do modelo em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, que matou 62 pessoas.
Entre as recomendações, o Cenipa sugeriu à Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) para revisar junto à ATR o sistema de "Degraded Performance" para prevenir a ocorrência de situações limite em voos futuros, conforme relatou o tenente-coronel Aviador Paulo Mendes Fróes, investigador encarregado da investigação do acidente durante a apresentação das conclusões da investigação à imprensa.
A ATR é uma joint venture entre a europeia Airbus e a italiana Leonardo.
Segundo o investigador, outra recomendação de modificação do nível de alerta de "increase speed", saindo do nível de "Alerta Caution" para o "Alerta Warning". "Este (segundo) nível de alerta exige a atuação corretiva imediata durante o voo", disse Paulo Mendes Fróes.
O investigador disse que a Anac deverá acompanhar as recomendações emitidas para a Aeasa, a sua congênere europeia.
No documento de 266 páginas, o Cenipa listou 19 fatores que contribuíram para a queda do avião. Segundo as autoridades brasileiras, o acúmulo de gelo na aeronave, falhas no sistema de degelo do avião, ações da tripulação e deficiências da companhia aérea Voepass contribuíram para a queda do ATR 72-500.
O voo 2283 da Voepass caiu em 9 de agosto de 2024 na cidade de Vinhedo, cerca de 80 quilômetros a noroeste de São Paulo, atraindo atenção mundial depois que imagens dos últimos momentos da aeronave, em um chamado parafuso chato, circularam nas redes sociais.
Entre outros pontos, o chefe do Cenipa, brigadeiro do Ar Alexandre Avellar Leal, citou que a aeronave não deveria sequer ter decolado devido ao não-funcionamento do limpador de parabrisas por causa da previsão de chuva para o dia do voo.
O relatório final sobre o acidente concluiu que a aeronave encontrou condições favoráveis à formação severa de gelo em sua estrutura e que o sistema de degelo apresentou múltiplas falhas, sendo ligado e desligado diversas vezes em meio a alertas de formação de gelo.
O investigador do acidente destacou também o estado emocional da tripulação, influências externas, condições meteorológicas adversas e fiscalização regulatória insuficiente.
ATR, EASA não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.
A Anac afirmou que após receber o relatório do Cenipa "iniciará a etapa de análise técnica detalhada das conclusões apontadas e das recomendações relacionadas às competências da Anac".
O prazo para conclusão desse trabalho pela Anac é de até 120 dias, afirmou a agência.
CULTURA DE INFORMALIDADE
Além dos aspectos relacionados ao voo, o relatório apontou falhas mais amplas na Voepass, descrevendo o que os investigadores chamaram de "normalização dos desvios" dentro da companhia aérea.
O Cenipa afirmou que falhas anteriores envolvendo o sistema de degelo da aeronave não foram devidamente notificadas nos registros de manutenção e citou evidências de que alguns serviços de manutenção foram realizados sem a supervisão adequada.
"Isso decorreu de uma cultura de informalidade na qual pilotos e mecânicos não registravam problemas relacionados à aeronave nos registros de manutenção, com o objetivo de permitir que a aeronave continuasse operando no dia seguinte", afirmou Froes.
(Edição Alberto Alerigi Jr.)