Caso de guaxinim que invadiu loja de bebidas mostra como estudar seus cérebros pode ajudar a esclarecer inteligência humana

O talento dos guaxinins para escapar dos laboratórios frustrou pesquisadores, mas suas habilidades para resolver problemas tornam seus cérebros uma área fascinante de pesquisa.

20 jan 2026 - 07h43
Os seres humanos têm uma relação ambivalente com os guaxinins, que parecem selvagens demais para serem domesticados, adoráveis demais para serem tratados apenas como pragas e onipresentes demais para serem considerados animais exóticos. Joshua J. Cotten/Unsplash, CC BY-SA
Os seres humanos têm uma relação ambivalente com os guaxinins, que parecem selvagens demais para serem domesticados, adoráveis demais para serem tratados apenas como pragas e onipresentes demais para serem considerados animais exóticos. Joshua J. Cotten/Unsplash, CC BY-SA
Foto: The Conversation

Quando um guaxinim curioso invadiu uma loja de bebidas em Ashland, Virgínia (EUA) em dezembro de 2025, provou do estoque e desmaiou no chão do banheiro, a história se tornou viral em questão de minutos. A publicação no Facebook do abrigo de animais local foi divulgada por veículos de comunicação nacionais e internacionais e rapidamente inspirou coquetéis com tema de guaxinim, produtos com a marca "trashed panda" (referência a um apelido comum para estes animais nos EUA, "pandas do lixo", devido a sua aparência considerada similar à dos famosos ursos nativos da China e seu hábito de revirar latas de lixo em busca de comida em ambientes urbanos) e até uma participação especial no programa "Saturday Night Live".

Para mim, a história soou ainda mais familiar. A loja invadida por esse "bandido embriagado" fica a poucos quarteirões do pequeno laboratório de neurociência comportamental onde comecei a investigar cérebros de guaxinins há cerca de 15 anos. Embora o guaxinim bêbado tenha tomado decisões questionáveis após invadir a loja de bebidas, a espécie - Procyon lotor - é conhecida por sua impressionante inteligência, curiosidade e capacidade para resolver problemas.

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Mas apesar de serem um dos mamíferos mais intrigantes que vivem lado a lado com os seres humanos, os guaxinins têm escapado dos holofotes científicos. Por que neurocientistas e psicólogos não estão estudando mais os guaxinins? O que os pesquisadores estão deixando de aprender sobre o cérebro dos mamíferos ao concentrarem seus estudos em roedores?

Alguém se divertiu muito.

Por que não são comuns em laboratórios?

Só nos EUA estima-se que os laboratórios utilizem mais de 100 milhões de roedores, incluindo camundongos e ratos, a cada ano. Os roedores são ideais para pesquisa porque se reproduzem facilmente e se adaptam bem ao confinamento. Os cientistas desenvolveram ferramentas de pesquisa abrangentes para estudá-los. Muito antes de os ratos dominarem os laboratórios de psicologia, os guaxinins eram, na verdade, os principais candidatos a modelos animais para resolução de problemas e inteligência.

Isso acabou quando os cientistas perceberam que haviam encontrado seus rivais cognitivos. Em um estudo, pesquisadores relataram que todos os guaxinins participantes escaparam pelo sistema de ventilação do laboratório.

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Assim, os cientistas prontamente migraram para roedores. A praticidade — e não a adequação científica — acabou por coroar o rato como rei do laboratório. Eu estudei ratos por décadas e posso confirmar que nenhum deles jamais fugiu pelo teto.

Nem animal de estimação nem praga

Os seres humanos têm uma relação ambivalente com os guaxinins. Eles parecem selvagens demais para serem domesticados, adoráveis demais para serem tratados apenas como pragas e onipresentes demais para serem considerados animais selvagens exóticos. Até o presidente Calvin Coolidge, que ficou famoso por receber um guaxinim destinado à mesa de jantar de um apoiador no Mississippi, acabou mantendo-o como um animal de estimação querido na Casa Branca.

E a confusão de papéis continua até hoje, com vislumbres de comportamentos humanos nos guaxinins à medida que eles entram em nossos espaços de convivência. Um relatório descreveu guaxinins interagindo com equipamentos de playground em uma creche na costa oeste do Canadá de maneiras semelhantes às crianças humanas, e até invadindo salas de aula como se estivessem assistindo à aula da manhã.

Guaxinim subindo em uma escada de metal
Foto: The Conversation
Os guaxinins sabem como chegar em muitos lugares.RLO'Leary/Moment Open

Inspirado pelos princípios da educação Montessori, visitei um centro de reabilitação de guaxinins em Saskatoon, Canadá, chamado Bandit Ranch Rehab há alguns anos. Depois de apresentar molas de brinquedo, quebra-cabeças e blocos aos guaxinins jovens, fiquei impressionado ao vê-los interagir com esses objetos com o entusiasmo concentrado de crianças em idade pré-escolar em uma missão.

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Essa confusão entre espécies parece ser mútua. Evidências recentes sugerem que os guaxinins urbanos estão se tornando cada vez mais tolerantes aos humanos, especialmente quando isso lhes convém. Mas eles são rápidos em ir embora quando a curiosidade ou a oportunidade os chamam.

Imaginação dos guaxinins

O guaxinim bêbado de Ashland chamou a atenção global porque se encaixava na narrativa que as pessoas projetam sobre a espécie: travesso, oportunista, inteligente e mais do que um pouco semelhante aos humanos. Mas seus cérebros e capacidades mentais sofisticadas, mais alinhados com os primatas do que com outros mamíferos, são ainda mais intrigantes.

Pesquisas comportamentais iniciais sugerem que os guaxinins podem aprender uma tarefa, ir embora e mais tarde voltar para resolvê-la com precisão - como se tivessem ensaiado mentalmente a solução. Em contraste, outras espécies, incluindo cães e ratos, precisam manter um foco contínuo. Os cientistas assim especulam que os guaxinins têm capacidades de imaginação mental semelhantes às dos humanos.

Pessoa ajoelhada no chão segurando um caderno, enquanto um guaxinim fica em pé sobre as patas traseiras para também olhar para o caderno
Foto: The Conversation
O guaxinim também tinha algumas sugestões de notas para o aluno da autora deste texto.Kelly Lambert, CC BY-NC-SA

Quando um guaxinim rebelde escalou um arranha-céu de 25 andares em Minneapolis alguns anos atrás, não pude deixar de me perguntar o que aquele animal estava antecipando encontrar no topo. Os guaxinins formam representações internas de resultados futuros? E, se sim, quanta agência e previsão eles trazem para suas decisões?

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Para responder a essas perguntas, colaborei com biólogos da vida selvagem, veterinários e neurocientistas para estudar o que pode ser um dos cérebros mais subestimados e pouco estudados do reino animal.

O que acontece dentro do cérebro do guaxinim?

Trabalhando com a neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, meu laboratório na Universidade de Richmond descobriu que os guaxinins têm um número surpreendente de neurônios em seus cérebros, comparável ao dos primatas. Em escala proporcional ao tamanho, o cérebro de um guaxinim conteria aproximadamente o mesmo número de neurônios que o cérebro humano.

Também descobrimos que os guaxinins possuem células cerebrais especializadas de condução rápida, conhecidas como neurônios de von Economo, que também são encontradas em humanos, outros grandes primatas e alguns outros mamíferos de cérebro grande. Nos primatas, esses neurônios aparecem tanto na insula — uma parte do cérebro importante para o processamento dos estados internos do corpo — quanto no cíngulo anterior, que desempenha um papel fundamental na regulação emocional. Nos guaxinins, esses neurônios estão presentes apenas na insula e não no cíngulo anterior.

Esse arranjo neural pode ajudar a explicar a impressionante combinação da espécie de resolução inteligente de problemas e tomada rápida de decisões durante a exploração - frequentemente levando a comportamentos arriscados que podem ter consequências infelizes. Essas descobertas levantam a possibilidade de que a neurociência dos guaxinins possa oferecer insights úteis sobre as bases neurais do controle de impulsos e da atenção distraída dos humanos.

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Dois pares de patas de guaxinim seguras por uma mão humana
Foto: The Conversation
A destreza das mãos dos guaxinins permite que eles realizem travessuras semelhantes às dos humanos.Zocha_K/iStock via Getty Images Plus

Em colaboração com a ecologista Sara Benson-Abram, também descobrimos que os guaxinins com habilidades cognitivas mais sofisticadas tinham mais células neurais no hipocampo, reforçando a ideia de que suas capacidades de aprendizagem e memória se assemelham aos sistemas cerebrais humanos. Os motoristas de táxi em Londres, que usam frequentemente seu conhecimento das 25.000 ruas da cidade, também têm uma área hipocampal maior.

Além de seus cérebros impressionantes, as mãos hábeis dos guaxinins desempenham um papel fundamental em suas aventuras cognitivamente criativas. De fato, pesquisadores descobriram que as patas dianteiras dos guaxinins estão mapeadas em seu córtex cerebral - a camada externa do cérebro - de maneira semelhante às mãos humanas. Ambas ocupam muito espaço no cérebro. Como escreveu o jornalista Carl Zimmer, "A mão é onde a mente encontra o mundo."

O que os guaxinins podem nos ensinar sobre o cérebro humano

Como argumento em meu próximo livro, "Wild Brains" ("Cérebros Selvagens"), para compreender a inteligência dos guaxinins é preciso observá-los nos ambientes que eles escolhem - não confiná-los a espaços pequenos e simples, adequados para ratos e camundongos. Os chamados laboratórios vivos, que monitoram a vida selvagem sem restringir seu comportamento, podem ser a melhor chance dos cientistas de desvendar os segredos da mente notável dessa espécie.

Na minha formação de pós-graduação, fui ensinada a evitar antropomorfizar os animais em pesquisa — a resistir à tentação de projetar pensamentos e emoções humanas em mentes não humanas, porque o cérebro humano provavelmente contribui para experiências cognitivas e emocionais exclusivamente humanas. Mas o primatologista Frans de Waal mais tarde introduziu o útil contraponto da antroponegação: a suposição errônea de que os animais não podem compartilhar capacidades emocionais ou cognitivas com os humanos simplesmente porque não são humanos.

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O guaxinim bêbado de Ashland chamou a atenção global não apenas porque a história era engraçada, mas porque parecia familiar. As pessoas reconheceram algo de si mesmas nesse animal curioso, impulsivo e solucionador de problemas, navegando em um ambiente muito humano. A disposição de se afastar da antroponegação - mantendo-se fundamentado na ciência rigorosa - pode abrir novos caminhos para a compreensão da inteligência dos guaxinins e, em última análise, do maravilhosamente complexo cérebro humano.

The Conversation
Foto: The Conversation

Kelly Lambert recebeu financiamento do NIH e da NSF.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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