Na reta final de uma disputa acirrada e aberta, Lula e Flávio Bolsonaro buscam votos decisivos em meio a temas polêmicos. Enquanto o petista tenta combater a abstenção da baixa renda e pauta o fim das apostas online para gerar debate programático, Flávio enfrenta desgastes com eleitores católicos e foca no apelo ao voto útil da direita, acusando o rival de eleitoreirismo na proibição das bets. Ambos correm contra o tempo para convencer indecisos que definirão o resultado da eleição.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
Os próximos dias são cruciais porque em geral é quando indecisos sedimentam a escolha e quando eleitores avaliam se migram para nomes com mais chance na disputa. "É aquele famoso caso de brasileiros que deixam para a última hora a escolha do voto. É um pequeno grupo, mas numa campanha acirrada, é um público importante", afirmou Bhreno Vieira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco.
"Por exemplo, está sendo suscitado dentro do Partido Novo uma movimentação para já abandonar o voto a (Romeu) Zema no primeiro turno e focar em Flávio Bolsonaro. Mas, do jeito que as coisas estão postas e como as pesquisas estão demonstrando, nenhum dos dois candidatos tem maioria absoluta de votos necessária para encerrar a disputa no primeiro turno. O cenário eleitoral está bastante aberto sobre quem vai ser o vencedor", destacou o analista.
Desafios de Lula
O candidato do PT tem entre seus desafios convencer o maior número de apoiadores a comparecer às urnas, já que o índice de abstenção costuma ser maior entre os eleitores de baixa renda, nicho em que Lula é mais forte. "Essa vantagem de Lula nesse segmento enfrenta uma questão que é o debate sobre o comparecimento eleitoral, e a tendência é de maior ausência entre eleitores com menor rendimento", disse Vieira.
O analista também frisou que hoje o maior adversário de Lula não é exatamente a figura de Flávio, mas a ideia de mudança buscada por muitos eleitores que compraram a narrativa do candidato do PL, ainda que ele seja um nome construído no sistema.
A campanha de Lula, que teve dificuldade em defender o legado das gestões petistas e de apresentar bandeiras novas consolidadas, inclusive em meio à crise envolvendo Supremo Tribunal Federal, lançou mão de medidas como o reajuste do Bolsa Família e o fim das apostas online, na tentativa de gerar um debate programático nesta reta final.
Desafios de Flávio
Os últimos dias foram marcados por novas revelações que reforçam a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, como viagens no avião do ex-dono do banco Master, em apuração no Supremo Tribunal Federal. No entanto, foram polêmicas mais distantes da toga que geraram repercussão.
Uma delas foi o embate eleitoral nos púlpitos religiosos, impulsionado pela preocupação de setores da Igreja Católica com o protagonismo do segmento evangélico na campanha de Flávio, assunto que ganhou força nas redes sociais diante da repulsa demonstrada por parte desse grupo à figura de Maria.
Além de correr para conter estragos entre os eleitores católicos, Flávio tenta equilibrar o discurso para manter os eleitores de direita que já aderiram a seu nome e avançar sobre aqueles que ainda o veem como um expoente de ideias conservadoras mais radicais.
"A campanha dele, de certa forma, encontra um teto, que é a questão das ideias extremas. Há uma parcela, ainda que muito pequena da sociedade, que opta em não querer nenhum e nenhum outro, mas vai ter que escolher alguém e isso pode fazer diferença", afirmou o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco.
A relação com Donald Trump é outro exemplo. Os apoiadores de Lula são contrários à interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira. Já os eleitores de Flávio tedem a vê-la de forma mais favorável. E uma pequena parcela ainda pesa se isso representa um risco importante a ser considerado nas urnas.
Fim das bets
Outro tema que virou embate entre os dois principais nomes foi a medida provisória (MP) assinada pelo presidente Lula que acabou com as apostas online.
"Eu conversei com uma mulher que tentou se matar, com outra cujo filho tirou a própria vida por causa de dívida de jogo. Então eu tomei essa decisão, porque é uma coisa muito séria", disse Lula.
"Interrompo minha campanha mais uma vez para falar à nação brasileira. Lula está cometendo mais uma estelionato eleitoral, acabando com as Bets a nove dias da eleição", criticou Flávio.
O candidato do PL diz que foi o governo petista que regulamentou as apostas online, inclusive cobrando impostos desse segmento. Sustenta que não há, portanto, motivo para uma proibição às vésperas do pleito, o que classifica como medida eleitoreira.
A campanha de Lula rebate afirmando que o governo regulamentou e criou regras sobre algo aprovado pelo Congresso em 2018, durante o governo de Michel Temer. E que decidiu proibir agora porque verificou que a regulamentação, feita em 2023, não surtiu efeito. Frisa também que durante o governo Bolsonaro, as bets já estavam autorizadas a funcionar, mas sem nenhuma regra, porque o ex-presidente não editou normas para regulamentá-las.
Embora a MP tem força de lei imediata, o Congresso terá de pronunciar sobre o tema, o que deve ser feito após as eleições. E o assunto, que envolve de clubes de futebol a influenciadores digitais, deve render também ações na justiça. Pelas pesquisas, a maioria dos brasileiros tem defendido a proibição das bets.