A crescente sensação de insegurança e o avanço das facções criminosas no Ceará têm impulsionado pautas conservadoras e discursos punitivistas nas eleições, aponta o sociólogo Luiz Fábio Paiva. O medo da população favorece promessas de repressão imediata, exploradas pela oposição para desgastar o governo do PT. Contudo, o especialista alerta que focar apenas na força policial não soluciona o problema, pois as facções criam laços sociais e pertencimento, exigindo políticas públicas para os jovens.
Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Fortaleza
Na avaliação do pesquisador, a percepção de insegurança influencia não apenas a corrida ao Palácio da Abolição, mas também a disputa nacional, em um cenário em que temas ligados à ordem pública, ao endurecimento penal e ao papel do Estado mobilizam parte importante do eleitorado.
A pauta das facções criminosas parece mesmo ter voltado ao debate no Ceará. O candidado do PSDB ao governo, Ciro Gomes, voltou a associar no domingo (27) em Cedro, no sul do estado, a escalada da violência no estado à influência de facções criminosas sobre a política local. Ao comentar relatos de intimidação contra apoiadores de sua campanha, o candidato afirmou estar convencido de que há uma relação de proteção entre o poder público (encabeçado pelo atual governador, Elmano Freitas, do PT) e grupos criminosos que passaram a atuar no processo eleitoral. Sem apresentar provas durante o ato, Ciro declarou que facções teriam "ampliado sua presença na política". A declaração reforça uma das principais linhas de ataque do tucano nesta campanha, centrada na crítica à segurança pública e à alegada penetração do crime organizado nas estruturas políticas do estado.
Para Luiz Fábio Paiva, o Ceará passa por transformações políticas semelhantes às observadas em outras regiões do globo, sem que isso signifique uma ruptura completa com sua história recente. Depois de décadas marcadas pela predominância eleitoral de forças de esquerda, o estado passou a conviver com o avanço de agendas conservadoras, processo que tem na segurança pública seu principal indicador. Segundo ele, "a segurança se tornou um ótimo termômetro para isso".
A relação entre criminalidade e comportamento eleitoral, porém, não se resume ao aumento ou à redução dos índices de violência. Na avaliação de Paiva, a experiência cotidiana do medo produz uma demanda crescente por respostas rápidas e visíveis do poder público. "Muitas vezes quando a gente busca a solução para problemas de segurança pública, uma pauta autoritária acaba ganhando terreno", afirma. A resposta imaginada por parte da população costuma ser direta: "eu quero mais polícia, eu quero que a polícia entre, eu quero que a polícia prenda".
Esse processo afeta especialmente os setores de menor renda, segundo o pesquisador. "Uma pessoa que paga um celular em 24 meses e tem celular roubado enquanto ainda está pagando aquilo, vai ser mais afetada", observa. É nesse "terreno de frustração e insegurança" que, segundo ele, prosperam discursos que prometem resolver problemas complexos por meio da força. A direita e a extrema direita, diz o sociólogo, "têm se aproveitado com sucesso desse tipo de sentimento" ao oferecer "uma solução simplista que não resolve nada".
Com quase 7 milhões de eleitores aptos a votar nas eleições de 2026, o Ceará abriga o terceiro maior eleitorado do Nordeste, atrás apenas de Bahia e Pernambuco, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). Além de seu peso numérico, o estado é considerado estratégico porque costuma influenciar o desempenho das candidaturas na região e concentra uma disputa eleitoral frequentemente competitiva, tanto em âmbito estadual quanto nacional. Em 2026, o Ceará reúne exatamente 6.998.494 eleitores, o equivalente a cerca de 4,4% de todo o eleitorado brasileiro.
Facções sobrevivem porque oferecem "pertencimento"
A centralidade da segurança no debate político está diretamente ligada à transformação da dinâmica criminal no Ceará. Nos últimos dez anos, o estado passou a conviver com a expansão das facções, fenômeno que alterou a vida de bairros inteiros e introduziu novas formas de controle territorial no estado. Para o pesquisador, compreender esse cenário exige abandonar a ideia de que as facções são apenas organizações criminosas. Embora tenham se estruturado para atividades ilegais, elas também construíram mecanismos de pertencimento capazes de garantir sua sobrevivência ao longo das décadas.
"As facções criminosas brasileiras surgem dentro das prisões", lembra. "O Comando Vermelho nasceu no sistema prisional do Rio de Janeiro; o PCC, em São Paulo". Na origem, explica o pesquisador, não se tratava de associações criminosas organizadas para cometer delitos específicos, mas de "vínculos criados entre pessoas encarceradas".
Com o passar do tempo, essas redes se expandiram para além das prisões e alcançaram territórios urbanos em todo o país. "A facção também criou um vínculo social entre pessoas envolvidas em atividades ilegais", diz. "Trata-se de uma estrutura que reúne lideranças, operadores financeiros, responsáveis pela lavagem de dinheiro e integrantes encarregados do controle armado dos territórios", resume.
Grupos locais
No Ceará, o fenômeno ganhou características próprias. Além da presença de grupos nacionais, surgiram organizações locais que passaram a disputar espaço com eles. O resultado foi a formação de um sistema de enfrentamento que contribuiu para a explosão dos homicídios a partir da segunda metade da década passada. Segundo Paiva, a disputa ultrapassou o universo criminal e passou a afetar diretamente a vida da população. Em áreas sob domínio de facções, moradores passaram a conviver com regras impostas por grupos armados. "Você imagina ter que sair da sua casa porque você tem um grupo lhe ameaçando. Isso tira a paz", resume.
A consequência política do processo foi imediata, segundo o pesquisador. À medida que a violência passou a ocupar o centro das preocupações cotidianas, cresceu também a tendência de responsabilizar os governos pelo problema, analisa. "Quando eu tenho um eleitor que identifica este fenômeno a quem está no poder, eu vou obviamente começar a atribuir culpa", diz Paiva. O efeito, afirma, é uma "reconfiguração das disputas eleitorais, na qual a segurança ganha peso desproporcional diante de outras agendas".
É nesse ponto que o sociólogo identifica aquilo que chama de "a maior ironia das eleições". Apesar da sucessão de operações policiais e do endurecimento do combate às facções, o problema permanece. "Praticamente todas as lideranças dos grupos que atuaram no Ceará foram presas e ao mesmo tempo eu tenho uma reprodução do problema." A explicação está no fato de que "
"o Estado consegue atingir estruturas criminosas específicas, mas encontra mais dificuldades para romper os laços sociais que sustentam essas organizações. Eu consigo atacar o esquema criminal, mas eu não consigo atacar o vínculo social que foi criado."
O diagnóstico ajuda a explicar, segundo ele, por que discursos baseados exclusivamente na repressão seguem encontrando respaldo popular mesmo após anos de aplicação prática. A promessa de mais policiamento, mais vigilância, mais prisões e penas mais duras continua mobilizando o eleitorado porque oferece respostas simples para questões complexas. "Isso está sendo feito. E não está resolvendo o problema." Ainda assim, reconhece, a mensagem convence porque é direta e facilmente compreensível.
"Vender soluções autoritárias é fácil."
Paiva também rejeita a ideia de que a percepção de insegurança acompanhe automaticamente a evolução dos indicadores criminais. Pesquisas internacionais de vitimização, afirma, mostram que medo e estatística nem sempre caminham na mesma direção. "A sensação de insegurança tem conexão, mas ela não é proporcional ao número de violência." Mesmo em contextos de redução dos crimes, a população pode continuar se sentindo ameaçada, sobretudo quando episódios violentos ganham grande visibilidade pública. Segundo ele, é perfeitamente possível que haja "cenário de redução da violência" e, simultaneamente, aumento do medo.
Direitização do eleitorado?
Embora reconheça o avanço de grupos conservadores, o pesquisador considera simplificadora a ideia de uma direitização irreversível do Ceará. "Grupos conservadores vão ganhando força no Ceará, isso é sem dúvida, mas eles ainda encontram muita dificuldade e resistência", afirma. Como exemplo, cita a própria disputa estadual. Segundo ele, o governador Elmano de Freitas (PT) procura associar Ciro Gomes (PSDB) ao campo bolsonarista e reforçar sua proximidade com o presidente Lula, enquanto o ex-governador tenta se apresentar como uma alternativa independente da polarização nacional. Para o sociólogo, o fato de Ciro resistir à essa identificação com a direita mostra que esse campo político "ainda não é tão forte assim no Ceará".
Outro elemento importante para entender o cenário eleitoral é o desgaste de quem governa. Na análise de Paiva, movimentos políticos mudam quando chegam ao poder. Lideranças antes dedicadas à mobilização social passam a administrar estruturas complexas, com restrições orçamentárias e responsabilidades institucionais. A consequência é a perda de parte da capacidade de renovação que possuíam na oposição. "É muito mais fácil ser um adversário", afirma. Governar significa administrar problemas e responder por resultados; quem está fora pode concentrar seu discurso nas críticas. Em resumo, diz o pesquisador, "o poder gera um desgaste".
Ao final da entrevista, o sociólogo retornou àquilo que considera o centro da questão. Se as facções sobrevivem apesar das prisões, das mortes e do endurecimento das políticas de segurança, isso ocorre porque "elas oferecem algo que vai além do dinheiro". Em muitos territórios, garantem reconhecimento, proteção e perspectivas de futuro. Por isso, "a resposta ao problema não estaria apenas na repressão, mas na reconstrução de horizontes sociais para as novas gerações".
"Temos que reconstruir os vínculos [sociais], sobretudo dos jovens", afirma. Para isso, diz, é necessário investir em "educação, saúde, moradia e acesso a direitos". O desafio é devolver perspectivas a uma juventude que, segundo ele, "vive hoje um profundo desencantamento com a possibilidade de construir um projeto de vida por meios convencionais". Sem isso, conclui, o crime continuará encontrando espaço para oferecer justamente aquilo que parte da sociedade deixou de enxergar: pertencimento, reconhecimento e futuro.