Reforma agrária, coronelismo e imigração: como Benedito Ruy Barbosa fez das novelas um debate sobre a terra

Autor de clássicos como 'O Rei do Gado', 'Pantanal' e 'Renascer', o novelista morreu aos 95 anos, em São Paulo, por complicações de uma insuficiência renal crônica.

7 jul 2026 - 15h44
Patrícia Pillar em cena de O Rei do Gado, de 1996
Patrícia Pillar em cena de O Rei do Gado, de 1996
Foto: Jorge Baumann/TV Globo / BBC News Brasil

"Todo mundo tem na sola do pé um pouco de barro." Foi com essas palavras que Benedito Ruy Barbosa, morto nesta terça-feira (7/7), aos 95 anos, explicou o sucesso de O Rei do Gado, novela que coroou sua carreira ao descortinar o chamado Brasil profundo para 60 milhões de brasileiros.

Era 1996. Àquela altura, apenas 22% da população ainda vivia no campo. Mas o autor sabia que era ali que estavam alguns dos conflitos mais profundos e latentes da sociedade brasileira.

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O Rei do Gado girava em torno da rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, os Mezenga e os Berdinazzi, separadas por uma disputa de terras e por um romance proibido entre seus descendentes.

Por trás da trama com ares de Romeu e Julieta, porém, havia debates espinhosos sobre imigração, concentração fundiária, coronelismo e, principalmente, reforma agrária.

Um dos autores seminais da teledramaturgia brasileira, ao lado de Janete Clair, Dias Gomes e Lauro César Muniz, Benedito não foi o primeiro a ambientar histórias no campo.

Mas foi pioneiro ao transformá-lo em um espaço para discutir a formação e as desigualdades do país, rompendo com a visão idealizada do interior que predominava na teledramaturgia, dizem especialistas ouvidos pela reportagem.

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Essa mudança no retrato do campo acompanha o que também aconteceu na literatura, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP.

Ele explica que Benedito rompeu com a visão romântica do meio rural, característica da primeira fase do romantismo brasileiro, para incorporar críticas sociais e um realismo mais próximo do romance regionalista da geração de 1930.

O novelista Benedito Ruy Barbosa, morto aos 95 anos
Foto: João Miguel Júnior/TV Globo / BBC News Brasil

Alencar ressalta que O Rei do Gado não foi a primeira incursão de Benedito nos conflitos do campo.

Em Meu Pedacinho de Chão, sua novela de estreia, exibida em 1971, o tema já aparecia, mas filtrado pelo tom de fábula, com o coronel Epaminondas controlando a pequena Vila de Santa Fé, inspirada no interior paulista, onde o autor nasceu e cresceu.

Naquele momento, porém, o Brasil vivia os chamados anos de chumbo da ditadura militar, sob o comando do general Emílio Garrastazu Médici, e o autor não tinha liberdade para escrever o que quisesse.

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O folhetim, aliás, foi alvo da censura oficial, que vetou até cenas banais à primeira vista, como uma em que um personagem cantava o Hino Nacional em uma venda à beira da estrada, próximo a uma escola.

O argumento dos censores era que aquele não era um ambiente apropriado para a execução do hino, lembrou o autor em depoimento ao Memória Globo, portal da emissora que reúne informações sobre os bastidores de suas obras.

Censura à parte, também faria pouco sentido uma abordagem mais frontal desses conflitos, já que Meu Pedacinho de Chão inaugurou a faixa das seis na Globo, criada para exibir histórias mais leves e de apelo familiar.

A novela, aliás, ganhou um remake em 2014, escrito pelo próprio Benedito em tom de conto de fadas.

Na época, o autor disse ter conseguido "lavar a alma". "Pude começar a falar de política, de saúde, de educação. Foi a oportunidade de eu dizer as coisas que a censura não deixava", afirmou ao Memória Globo.

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O ator Angelo Antônio durante as gravações da versão original de Pantanal, da Rede Manchete, em 1990, em Mato Grosso do Sul
Foto: Ricardo Funari/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images / BBC News Brasil

Quando escreveu O Rei do Gado, de toda forma, a ditadura já havia terminado havia 11 anos, e a censura, sido extinta. Além disso, Benedito já ocupava a extinta faixa das oito — hoje exibida às nove —, que permitia debates mais profundos e delicados, explica Alencar.

"Foi quando Benedito pôde trazer à tona, de forma integral, sua visão sobre o mundo rural. Ele fez, de maneira muito precisa, um retrato social em que as emoções estavam a serviço do debate sobre a terra. A preocupação dele era social, educativa. Suas novelas foram grandes tratados sociológicos", analisa.

O melodrama, por outro lado, deu um verniz mais palatável a esse debate. Se poucos espectadores ligariam a TV para assistir a discussões sobre temas complexos como a reforma agrária, milhões acompanharam, noite após noite, histórias em que esses assuntos surgiam entrelaçados a elementos como o romance proibido de José Mezenga e Giovana Berdinazzi, o Romeu e a Julieta do interior paulista em O Rei do Gado.

Essa é a avaliação da jornalista Cristina Padiglione, especializada na cobertura de televisão desde os anos 1990. Ela, assim como Mauro Alencar, participou da bancada do Roda Viva em que Benedito discutiu O Rei do Gado ao fim da exibição da novela.

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Também estavam presentes representantes da bancada ruralista e do MST, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, retratado na trama.

"Benedito discutiu temas muito caros, mas que nunca tivemos muita disposição para discutir. Não houve documentário, filme ou série que tenha sido mais feliz do que O Rei do Gado ao falar sobre divisão de terras e reforma agrária, porque ele fez isso de uma maneira não panfletária. Quando esse debate é colocado como entretenimento, existe muito mais disposição do público", ela analisa.

A mesma ideia guiou outras de suas obras, como Cabocla, que Benedito adaptou do romance de Ribeiro Couto em 2004. Por trás do romance entre Luís Jerônimo, um jovem advogado rico, e Zuca, uma jovem cabocla simples, desenrolava-se a disputa pelo poder na fictícia Vila da Mata entre os coronéis Boanerges e Justino.

Revolução estética

Indiretamente, Benedito Ruy Barbosa também foi responsável por uma mudança profunda na forma como as novelas eram filmadas.

A necessidade de deixar os estúdios para gravar no campo, algo que pode ser visto com clareza em obras de sua autoria como Renascer, transformou a gramática visual da teledramaturgia.

Até então, os folhetins adotavam uma encenação mais estática, próxima do teatro.

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Sob diretores como Luiz Fernando Carvalho, responsável por Renascer e O Rei do Gado, elas passaram a incorporar uma linguagem mais próxima do cinema.

Cinegrafista filma pôr do sol em Mato Grosso do Sul para a versão original de Pantanal, da Rede Manchete, em 1990
Foto: Ricardo Funari/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images / BBC News Brasil

A mudança se refletiu em uma fotografia de planos mais abertos e movimentos de câmera mais fluidos, que acrescentaram novas camadas à atuação dos atores ao substituir o tradicional pingue-pongue de closes durante os diálogos.

Em vez de enquadrar o elenco quase sempre da cintura para cima, a câmera passou a acompanhar seus movimentos.

A mudança veio acompanhada da profundidade que os cenários ganharam, ao passarem a ser construídos com teto e explorados em toda a sua dimensão, e de uma iluminação mais sofisticada, que abandonou a claridade uniforme típica das novelas para privilegiar a penumbra, a luz filtrada por portas e janelas e a névoa.

Décadas depois, quando suas histórias voltaram à televisão em remakes recentes como os de Pantanal e Renascer, escritos por seu neto, Bruno Luperi, essa estética voltou a conquistar o público.

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Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o apelo continua o mesmo: em meio à exaustão da vida urbana, essas novelas oferecem um refúgio visual e emocional sem abrir mão de discutir questões centrais do país.

Humberto Carrão em cena do remake de Renascer, feito pela Globo em 2024
Foto: Fabio Rocha/Divulgação / BBC News Brasil
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