Consolidado na Seleção e no Barcelona, o atacante Raphinha integra uma das duas únicas famílias brasileiras com dois representantes em Copas do Mundo. Ele é ligado pelo histórico familiar a Everaldo, lateral-esquerdo tricampeão mundial em 1970. Nascido no bairro da Restinga, em Porto Alegre, Raphinha superou dispensas na infância devido ao físico franzino até brilhar no futebol europeu, mantendo fortes laços com suas origens e com os primos que celebram esse marco esportivo raro.
A vitória por 4 a 2 sobre a Austrália nesta terça-feira (29/9) destacou mais uma vez a importância de Raphinha na Seleção Brasileira - a vaga do atacante "sobreviveu" à renovação promovida pelo técnico Carlo Ancelotti após a eliminação na Copa do Mundo, em julho.
Mas antes de se consolidar como peça fundamental de Ancelotti e vestir a camisa 11 no Barcelona, o atacante já trazia no sangue a marca da Seleção: ele integra uma das duas únicas famílias da história do futebol brasileiro a ter dois representantes com a camisa canarinho em Copas — ao lado do ídolo gremista Everaldo, campeão em 1970.
A família do atacante vive no bairro porto-alegrense da Restinga. Pelo lado materno, esteve Everaldo Marques da Silva (1944-1974). Pelo paterno, Raphinha.
O primeiro foi lateral-esquerdo da Seleção Brasileira tricampeã mundial de 1970.
Os irmãos Otávio Miguel da Luz Pereira Jr., 33 anos, e Leonardo da Silva Pereira, de 31, são orgulhosos de uma herança que ultrapassa a genética e molda seu próprio cotidiano.
"Raphinha é sobrinho de meu pai, e Everaldo era pai da minha mãe. Eles não têm parentesco entre si, mas é um orgulho saber dessa coincidência e torcer pela Seleção Brasileira", afirma Otávio, de Almeirim, distante 94 quilômetros de Lisboa, em Portugal, à BBC News Brasil.
"Eu paro para ver [a Seleção]. Se estiver fazendo algo, interrompo para assistir [o jogo]", revela Leonardo, em Porto Alegre.
Aos 30 anos, Raphinha já disputou duas Copas - e parece ter chance de integrar a Seleção por mais uma vez, a depender de sua atuação nesse ciclo para a próxima competição.
Já Everaldo foi responsável pela estrela dourada sobre o escudo do uniforme do Grêmio, homenagem da equipe tricolor ao primeiro jogador de um clube gaúcho a conquistar uma Copa.
Otávio e Leonardo já se arriscaram nos gramados, sem sucesso.
O primeiro é dono de barbearia, e o segundo, gerente de estoque em uma loja de móveis em Porto Alegre.
Além dos Luz Pereira, a outra família brasileira a ver dois membros entrarem em campo pela Seleção em Copas são os Vieira de Oliveira, de Messejana (CE): os irmãos Sócrates, meio-campista em 1982 e 1986, e Raí, camisa 10 do grupo tetracampeão em 1994.
Quando o hoje atacante do Barcelona nasceu, em 14 de dezembro de 1996, os pais de Otávio e Leonardo já estavam separados.
Otávio da Luz Pereira, o pai, é irmão de criação (e também primo-irmão) da mãe de Raphinha.
Denise Helena Silva da Silva, a mãe, é filha de Everaldo.
'Sobrinhos do Capitão'
Para os primos, a separação do casal não significou afastamento: a convivência prosseguiu na casa da avó, Wilma da Luz, que compartilhava o mesmo quintal com a residência dos pais de Raphinha.
"A família foi criada toda pela dona Wilma, hoje com 78 anos", diz Otávio.
Trabalhando como auxiliar de serviços gerais e outras ocupações, Wilma educou três filhos biológicos e duas sobrinhas - uma delas, a psicopedagoga Lisiane Dias Belloli, é mãe de Raphinha.
No total, oito primos com diferenças de idade de poucos anos - cinco homens e duas mulheres - reuniam-se no pátio da matriarca.
"Raphinha sempre foi doente por futebol. Não sei o que ele seria se não fosse jogador", afirma outro primo, o advogado Guilherme Dias de Souza, 30 anos.
Inseparáveis, os cinco meninos eram conhecidos como Os Sobrinhos do Capitão, personagens de histórias em quadrinhos do início do século 20.
Todos eram aficionados por bola, embora Raphinha já se destacasse.
"Ele tinha fardamentos, organizava todos para jogar", recorda-se Guilherme.
Depois de passagens por times de bairro da Restinga, nos anos 2000, Raphinha tentou a sorte nas categorias de base dos dois grandes clubes da capital, Grêmio e Internacional, mas não foi aproveitado em razão do físico pouco avantajado.
"Antigamente, no Rio Grande do Sul, a força física era muito valorizada", observa Guilherme.
"Tu podias ter muita bola, mas se fosses franzino, não conseguias ter destaque na base."
Raphinha acabou aprovado no final da década de 2000 na base do Esporte Clube São José, conhecido como Zequinha, clube fundado há 113 anos que hoje disputa a Série D do Campeonato Brasileiro.
Era o início de uma trajetória que o levaria à elite do futebol europeu, depois de uma meteórica passagem como titular pelo Avaí Futebol Clube, de Florianópolis.
Além do futebol, outra das paixões dos primos é o pagode.
Em junho de 2018, o já atacante do clube Vitória de Guimarães, de Portugal, e o primo Guilherme foram escalados para um show universitário na casa de espetáculos Opinião, em junho de 2018.
18 anos após a morte do avô
A banda Pagode dos Guri, na qual se somariam aos amigos Gabriel Finato, professor, e Gabriel Gabbardo, advogado, era estreante, mas o local, com as portas abertas havia 35 anos, já tinha recebido Bob Dylan, Morrissey e Deep Purple.
Momentos antes de subir ao palco, Raphinha, que assumiria o tantã, foi acometido de uma paralisia facial de origem viral e teve de ser substituído às pressas pelo primo Otávio.
"Ele [Raphinha] é muito engraçado, sempre fazendo brincadeiras, e também muito humilde", garante Finato, vocalista da banda.
Quando jogava na equipe francesa do Rennes, o hoje atacante da Seleção não esqueceu os amigos do Pagode dos Guri: em uma passagem por Porto Alegre, presenteou-os com camisetas oficiais do clube.
"A gente nunca imaginou que ele chegaria à Seleção, mas sim que ele chegaria a algum lugar como grande jogador", diz Otávio.
O futebol continua fazendo parte da vida de Otávio: ele é treinador do time sub 10 da equipe local Footkart.
Sua ligação com o avô está estampada na certidão de nascimento.
Ele veio ao mundo no dia 27 de outubro de 1992, exatos 18 anos depois da morte de Everaldo em um acidente automobilístico no interior do Rio Grande do Sul.
"Minha mãe escolheu essa data para esquecer o dia em que perdeu toda a família", afirma.
A mãe de Otávio e Leonardo foi uma das três sobreviventes do choque entre o Dodge Dart dirigido pelo pai e um caminhão na BR-290, na região central do Rio Grande do Sul.
Além de Everaldo, então com 30 anos, morreram na colisão a mulher, Cleci Silva da Silva, 27, a filha do casal Deise, quatro anos, e uma irmã do jogador, Romilda Marques da Silva.
Denise, então com seis anos, um tio do jogador, Jardelino, e uma cunhada, Maria Madalena, escaparam.
Aos 57 anos, Denise lembra-se de ter desfilado no colo do pai a bordo de um caminhão pelas ruas de Porto Alegre no retorno do então atleta do Grêmio do México após a conquista da Copa de 1970.
Mãe de outros dois filhos (Thayron, 38 anos, e Naomi, 23), mas privada ainda na infância da única irmã, ela considera autênticos sobrinhos os primos de Otávio e Leonardo pelo lado paterno.
"Eu digo a eles: 'só tenho vocês, não tenho outros sobrinhos'. Tenho a maior paixão por todos eles", diz a servidora de escola da rede estadual.