A inelegibilidade de Jair Bolsonaro abre espaço para disputas internas na direita, que enfrenta dificuldades em unir-se em torno de um único candidato, enquanto a esquerda, liderada pelo PT, trabalha em estratégias para as eleições de 2026, buscando coordenação entre partidos progressistas.
Mesmo inelegível, preso e condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda conserva um trunfo importante: um amplo capital político. Sem poder disputar o pleito, mas para manter seu nome na urna, ele indicou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu filho, como seu sucessor, mas o campo da direita segue longe de um consenso. Esse ambiente de incerteza leva a esquerda a se organizar sem a definição clara de quem será seu principal adversário nas eleições de 2026, traçando estratégias diversas.
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A indefinição lembra o cenário de 2018, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mesmo inelegível e na cadeia em processo da Lava-Jato, insistiu em sua candidatura até o limite, a menos de um mês do primeiro turno e atrapalhou a organização da esquerda -- que, a partir de 11 de setembro daquele ano, definiu Fernando Haddad como candidato. Da mesma forma, a ausência de uma liderança única na direita abre espaço para disputas internas, segundo especialistas ouvidos pelo Terra.
"No campo da direita, há uma multiplicidade de nomes", disse o professor de Ciência Política da USP Glauco Peres da Silva. "Provavelmente, vários deles disputarão a eleição, o que, em si, não é um problema, já que Lula não deve vencer no primeiro turno”, acrescenta.
A cientista política Lara Mesquita, professora da Escola de Economia de São Paulo da FGV, também destaca que, em 2018, Fernando Haddad assumiu explicitamente o papel de herdeiro político da esquerda, usando sua imagem e o slogan “Haddad é Lula”. Para a pesquisadora, o cenário atual é distinto. “Parece pouco provável que a direita aceite se coordenar em torno de uma candidatura única vinculada à figura de Flávio Bolsonaro”, pontua. Segundo ela, essa fragmentação tende a gerar disputas internas, radicalização do discurso e afastamento de eleitores de centro e centro-direita.
PL apoia Flávio Bolsonaro e cita foco no Congresso
No campo conservador, o PL afirma que recebeu com “responsabilidade e motivação” a indicação de Flávio Bolsonaro como pré-candidato. O deputado Luciano Zucco (PL-RS) disse que, apesar de especulações sobre outros nomes, Flávio é o candidato do ex-presidente e conta com apoio interno.
Zucco ressaltou que o partido pretende ampliar alianças com siglas como Republicanos, Progressistas e União Brasil e destacou que a pluralidade de candidaturas no campo da direita não é necessariamente negativa. "Até mesmo ter várias candidaturas não é de todo ruim, até porque todas são de centro-direita e não concordam com o projeto da esquerda", disse.
A deputada Rosana Valle (PL-SP) afirmou que o partido acredita na capacidade de unificação do centro e da direita em torno de Flávio. Além da disputa presidencial, o PL pretende fortalecer suas bancadas no Congresso e lançar candidatos competitivos aos governos estaduais.
“Nós temos protagonismo em todos os estados e condições de eleger senadores em vários deles. Em alguns, inclusive, até dois", afirmou Zucco ao Terra. "A nossa intenção é formar um Senado muito forte, uma Câmara muito forte e também lançar candidatos aos governos estaduais. Tudo isso, no entanto, será construído de forma mais sólida nos primeiros meses do próximo ano. Acredito que até o fim de março já teremos um quadro bem claro sobre esse cenário", acrescentou.
Centrão ainda não confirma apoio a nome na Presidência
Apesar do apoio do PL ao nome de Flávio Bolsonaro, as reações de lideranças da direita e do centrão à possível candidatura do senador à Presidência surgiram de forma cautelosa e gradual. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que a pré-candidatura pode contar com seu apoio, mas ponderou que apenas o tempo dirá se essa é a escolha mais adequada.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do PP, destacou publicamente a jornalistas que decisões eleitorais não podem se basear apenas em vínculos pessoais. “Se eu tivesse que escolher pessoalmente um candidato para suceder Bolsonaro, não tenho a menor dúvida de que seria Flávio, pela minha relação com ele. Só que política não se faz só com amizades, se faz com pesquisas, com viabilidade, ouvindo os partidos aliados. Isso não pode ser só uma decisão do PL, precisa ser uma decisão construída”, afirmou.
Outra liderança do centrão, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, disse em 11 de dezembro que o partido manterá sua própria estratégia para 2026. Segundo ele, a legenda apoiaria Tarcísio de Freitas caso o governador decida disputar o Planalto. Se isso não ocorrer, o PSD deve lançar candidatura própria, com nomes como Ratinho Júnior (PR) e Eduardo Leite (RS). Sobre Flávio, Kassab limitou-se a desejar “boa sorte” ao senador.
O MDB, por sua vez, informou ao Terra que só decidirá em março de 2026 se lançará candidatura própria ou apoiará outro nome. Caso opte por uma aliança, o partido exigirá compromisso com seu programa “Caminhos para o Brasil”, lançado em 2025. A prioridade da sigla é fortalecer suas bancadas no Congresso e eleger governadores, com ao menos 11 pré-candidatos aos Executivos estaduais.
A ausência de consenso também foi reconhecida pelo próprio Flávio Bolsonaro. Em 9 de dezembro, o senador admitiu a existência de resistência entre lideranças do centrão e da direita e afirmou que pretende trabalhar para reverter esse quadro, defendendo que seu nome seria o mais competitivo contra o PT em 2026. A declaração foi dada após uma visita ao pai, que está preso. "Mais uma vez cabe a mim convencê-los de que o melhor projeto é vir comigo, provar que minha candidatura é a vencedora", disse ele.
Segundo Glauco Peres, professor de Ciência Política da USP, esse cenário representa o maior desafio da direita neste ano: o dilema principal é transferir o apoio do eleitorado bolsonarista radical sem perder o centro-direita. Por isso, ele avalia que nomes como os dos governadores Tarcísio e Ronaldo Caiado (GO) precisarão se apresentar à extrema direita como a opção “menos pior”, de forma semelhante ao que Lula representa para setores mais radicais da esquerda.
Peres também ressalta que a eleição no Brasil é muito mais guiada por símbolos e paixões do que por projetos ou políticas públicas. “Em 2026 vai ser isso, em que parte do eleitorado olha para essas pessoas candidatas de uma maneira muito apaixonada, com uma identidade muito clara e forte, e a partir disso elas escolhem”, afirma. Ele destaca ainda que a prisão de Bolsonaro, ao limitar sua capacidade de mobilizar aliados e eleitores, “torna tudo mais difícil”, pois ele nunca criou uma política partidária e "sempre foi o próprio elo direto com seu eleitor".
Prioridades e alianças da esquerda para 2026
Do lado do PT, a indefinição está na chapa presidencial. O coordenador inter-religioso do PT, Gutierres Barbosa, disse ao Terra que ainda não há discussões formais sobre o nome do vice em 2026 e que esse debate ocorrerá no momento adequado, dentro do congresso partidário. Atualmente, o posto é ocupado por Geraldo Alckmin (PSB), mas ele pode tentar o governo paulista caso a candidatura da direita para o Planalto seja do atual governador paulista: Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Do lado do PSB, porém, a estratégia para as eleições de 2026 passa pela consolidação da unidade do campo progressista. A tendência é a manutenção de Geraldo Alckmin como vice, e reforçar alianças construídas desde as eleições municipais de 2020.
A avaliação é de que o cenário segue altamente polarizado e desafiador para a esquerda, o que torna indispensável a coordenação entre partidos como PT, PSB, PCdoB, PSOL e Rede. “Esse esforço de trocar apoios e priorizar candidaturas com mais chance de vitória é um sinal de amadurecimento do campo progressista”, disse um interlocutor do partido.
O PT vê a importância de colégios eleitorais como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, mas afirmou que o PT só lançará candidaturas próprias onde houver competitividade. “Onde a gente tiver candidaturas com chances reais de ganhar, nós vamos para a disputa. Onde não tiver, vamos dialogar com o campo democrático”, explicou.
A presidente nacional do PSOL, Paula Coradi, afirmou que a fragmentação da direita após a prisão de Bolsonaro torna o cenário ainda mais aberto. "Há uma dispersão muito grande no campo da direita, que causa uma série de indefinições que afetam os estados”.
Diante desse contexto, o PSOL orienta suas bases a buscar alianças onde houver convergência programática e respeito ao tamanho do partido. Paula indicou uma “forte tendência” de apoio à reeleição de Lula, ao mesmo tempo em que a legenda pretende negociar pautas próprias dentro dessa aliança. O foco do partido será a ampliação da bancada no Congresso e a disputa pelo Senado, com destaque para a filiação de Manuela D’Ávila, que concorrerá no Rio Grande do Sul.
Candidaturas próprias e avaliações de caminhos
Na contramão das alianças, o PSTU confirmou que terá candidatura própria à Presidência. O pré-candidato Hertz Dias afirmou que o partido pretende apresentar um programa voltado à classe trabalhadora e se colocar como alternativa tanto ao governo Lula quanto à direita bolsonarista. “Um dos nossos objetivos é buscar a aliança com essas organizações da classe trabalhadora, como os sindicatos, o movimento quilombola, o movimento indígena, com a juventude, com todos os setores oprimidos da classe trabalhadora”, destacou.
Outras siglas, por sua vez, afirmam ainda ter cenário indefinido. A UP informou que ainda não iniciou discussões sobre as eleições do próximo ano. De acordo com o partido, a expectativa é de que haja candidaturas, mas o tema ainda não está na pauta interna neste momento.
Já a Democracia Cristã (DC) afirma que entrará na disputa presidencial com Aldo Rebelo como pré-candidato ao Palácio do Planalto. Em relação a coligações e alianças, a legenda diz que ainda está avaliando possíveis composições e que as definições serão feitas mais adiante.
A vereadora Marina Bragante afirmou que a Rede Sustentabilidade não pretende lançar candidatura própria à Presidência da República em 2026 e tampouco ao governo de São Paulo. Segundo ela, além da falta de estrutura partidária, o cenário passa pela federação com o PSOL, que ainda está em debate. Ela ressaltou que há, no máximo, a possibilidade de discutir nomes do partido para o Senado, o que dependerá tanto do formato da federação quanto da disponibilidade de recursos. A vereadora indicou que a Rede segue apoiando o governo Lula.
Os outros partidos não retornaram o contato do Terra até a última atualização desta reportagem.