BRASÍLIA - No ano em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai disputar o quarto mandato, o PT indica que tentará mudar os rumos da política econômica e da relação com o Congresso, caso vença as eleições de outubro. Uma resolução política aprovada pelo Diretório Nacional do PT nesta sexta-feira, 6, em Salvador, prega o afrouxamento da meta de inflação, diz que a política monetária conduzida pelo Banco Central vai contra o projeto de Lula e fala em "sistema permanente de chantagem política" enfrentado pelo Executivo.
"É necessário revisar a meta de inflação, compatibilizando-a com crescimento econômico, geração de empregos de qualidade, fortalecimento doinvestimento público e ampliação de políticas sociais", diz um trecho do texto, obtido pelo Estadão.
A meta atual é de 3% e, no ano passado, a inflação foi de 4,26%, abaixo do teto de tolerância. Mesmo assim, a taxa Selic continua em 15% ao ano, o que, na avaliação da cúpula do PT, é "incompatível com a necessidades do desenvolvimento nacional". O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo - indicado para o cargo por Lula - tem sido muito criticado por não atuar para baixar os juros.
"A política monetária conduzida pelo Banco Central, cuja autonomia foi instituída durante o governo Bolsonaro, tem operado como instrumento de bloqueio ao projeto eleito nas urnas, aprofundando a financeirização da economia, drenando recursos públicos e restringindo o investimento produtivo", destaca o comando do PT.
No rastro do escândalo do Banco Master, o partido de Lula tenta se descolar da crise e volta a defender o fim da autonomia do Banco Central, fazendo questão de assinalar que essa concessão foi aprovada na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A cúpula do PT está reunida em Salvador para comemorar os 46 anos do partido, que serão completados no próximo dia 10. A direção petista classifica 2026 como "um dos anos mais desafiadores e decisivos" da sua história, elogia programas e projetos do governo, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, e diz que tudo será feito para garantir palanques fortes a Lula em todos os Estados.
Mesmo sem citar partidos de direita, o PT defende "a maior ampliação possível" das alianças para a eleição de Lula e de mais deputados e senadores. O argumento é de que esse processo contribui não só para a governabilidade como para o fortalecimento da presença do PT nas instâncias de poder.
"A correlação de forças no Congresso Nacional segue sendo um dos principais desafios ao avanço do projeto eleito nas urnas. Trata-se de um Congresso majoritariamente branco, masculino, conservador e fortemente comprometido com os interesses das elites econômicas", afirma a resolução.
O partido admite que o governo não conseguiu acabar com a prática do orçamento secreto, que, mesmo proibido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), continua em vigor.
"A captura do orçamento público por meio das emendas parlamentares impositivas e de mecanismos herdados do orçamento secreto distorce o presidencialismo, subordina políticas públicas a interesses privados e estabelece um sistema permanente de chantagem política sobre o Executivo", diz o texto, que, diferentemente de outras vezes, não cita o Centrão.
A resolução afirma, ainda, que "tributar bancos, bets e bilionários e aliviar o bolso de quem vive do trabalho é corrigir distorções históricas", dando o tom do mote da campanha de Lula à reeleição. Diz também que o PT é um partido "democrático, popular e socialista", que não fecha os olhos para "os bilhões movimentados por crimes finaceiros", em mais uma tentativa de se afastar da crise do Master.