O que decidirá a eleição presidencial de 2026?

Mais do que uma disputa entre governo e oposição, a eleição parece estar sendo organizada em torno de competências distintas percebidas pelos eleitores

23 out 2026 - 21h07
(atualizado às 21h10)
Resumo
Pesquisa do instituto Ipsos-Ipec revela empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026, com forte divisão temática. Enquanto Bolsonaro lidera na percepção de competência em segurança pública e combate à corrupção, além de concentrar a expectativa de vitória, Lula se destaca nas agendas de desigualdade social, saúde e educação, mantendo uma base eleitoral sólida. O resultado final dependerá de qual dessas prioridades terá maior peso para o eleitorado até o pleito.

Os dados mais recentes da disputa presidencial, inclusive os nossos (do instituto Ipsos-Ipec), mostram um cenário de forte equilíbrio eleitoral.

Nas intenções de voto, o cenário é de empate técnico. Os indicadores de imagem também apontam para um equilíbrio notável. Tanto a rejeição quanto a favorabilidade dos dois candidatos apresentam níveis muito semelhantes, reforçando a percepção de uma disputa altamente competitiva.

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À primeira vista, esses números sugerem uma disputa praticamente empatada. No entanto, a análise dos atributos de competência percebida pelos eleitores oferece pistas importantes sobre a dinâmica da corrida presidencial.

Flávio Bolsonaro é visto como o candidato mais preparado para lidar com temas ligados à ordem pública. Na área de segurança pública, a maioria dos eleitores considera que ele teria melhor desempenho no combate ao crime e à violência, abrindo uma vantagem de 9 pontos sobre Lula neste tema. No combate à corrupção, a distância é menor, mas Flávio aparece com uma ligeira vantagem sobre o atual presidente. Nas questões econômicas mais sensíveis para o cotidiano da população, como inflação, impostos e endividamento, os dois candidatos apresentam avaliações bastante semelhantes, com uma pequena diferença favorável a Lula apenas no tema do endividamento das famílias, o que reforça a percepção de equilíbrio na agenda econômica.

Lula e Flávio Bolsonaro, candidatos no segundo turno da disputa presidencial
Lula e Flávio Bolsonaro, candidatos no segundo turno da disputa presidencial
Foto: Wilton Junior/Estadão e Vittor Sales/Campanha Flávio / Estadão

Por outro lado, Lula é visto como mais preparado em temas historicamente associados à sua trajetória política. Na redução das desigualdades sociais, Lula mantém uma diferença favorável de 11 pontos sobre Flávio Bolsonaro, assim como na saúde, área em que tem 7 pontos a mais do que seu adversário. Na educação, no combate ao desemprego e na questão do meio ambiente e mudanças climáticas, Lula aparece 6 pontos à frente do que seu oponente.

O quadro que emerge desses dados é o de uma divisão temática bastante clara. Flávio Bolsonaro apresenta suas principais forças nos temas relacionados à segurança pública e ao combate à corrupção. Lula, por sua vez, é percebido como mais capacitado para enfrentar desafios ligados à desigualdade social, saúde, educação, emprego e meio ambiente. A diferença parece estar menos na quantidade de áreas em que cada candidato lidera e mais no peso que os eleitores atribuem a cada uma dessas agendas.

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Esses resultados são particularmente importantes porque crime e violência, assim como corrupção, aparecem de forma recorrente entre as principais preocupações identificadas nas pesquisas da Ipsos (What Worries the World?). Portanto, tornam-se temas com maior potencial de mobilização eleitoral.

Essa distribuição ajuda a explicar por que a disputa permanece tão equilibrada. Cada candidato apresenta pontos fortes reconhecidos por parcelas significativas do eleitorado e consegue se conectar com preocupações distintas da sociedade brasileira.

Além das avaliações de desempenho temático, outros indicadores ajudam a compreender a dinâmica atual da disputa. Quando perguntados sobre quem acreditam que vencerá a eleição, Flávio Bolsonaro é apontado por maioria absoluta, assim como o desejo de mudança. Embora Lula apresente melhor avaliação em um número maior de áreas temáticas, Flávio Bolsonaro se beneficia em temas de elevada saliência eleitoral, especialmente segurança pública, e por um ambiente mais favorável de expectativa de vitória e desejo de mudança.

Ainda assim, seria precipitado concluir que a eleição está definida. Lula mantém uma aprovação de governo de 44% que praticamente não mudou durante a campanha, e uma intenção de voto em patamar semelhante, números que demonstram uma base eleitoral sólida e resiliente. Sua capacidade de competir permanece elevada, especialmente se temas sociais ganharem centralidade no debate público.

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Mais do que uma disputa entre governo e oposição, a eleição parece estar sendo organizada em torno de competências distintas percebidas pelos eleitores: de um lado, segurança, combate à corrupção e gestão econômica; de outro, proteção social, saúde pública e redução das desigualdades. Em um ambiente tão polarizado, a capacidade de conectar essas prioridades às preocupações concretas dos eleitores poderá ser decisiva para determinar o resultado final.

Por fim, em uma disputa tão equilibrada, fatores de curto prazo poderão exercer influência decisiva. O último debate, a capacidade das campanhas de pautar temas relevantes para o eleitorado, o nível de engajamento dos apoiadores e o comparecimento às urnas deverão desempenhar papel fundamental na definição deste pleito histórico.

* Márcia Cavallari é Head de Opinião Pública da Ipsos

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