O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu seu discurso na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira, 22, fazendo duras críticas ao Conselho de Segurança da instituição, e afirmou que o Brasil "não cabe no quintal de ninguém", um claro recado ao presidente dos Estado Unidos Donald Trump. A fala do mandatário, que pode ser a última caso perca a corrida do pleito, teve um tom de campanha eleitoral.
"Na América Larina e Caribe, a proximidade com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém, precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para integração entre vizinhos", declarou.
O presidente ressaltou que a "democracia está novamente em xeque", e que o mundo voltou a presenciar "ingerência externa em processos eleitorais", a divisão do mundo em zonas de influências e "investidas neocoloniais por recursos extratégicos', para conseguir recursos estratégicos.
Em seguida, ele citou a Venezuela, que no início do ano foi invadida pelos Estado Unidos eteve Nicolás Maduro preso. Lula defendeu que o país vizinho merece escolher o próprio destino. Lula também usou como exemplo a Nicarágua, que excluiu opositores da eleição, e Cuba, que sobre há décadas com o bloqueio econômico feito pelos EUA.
Crime organizado e corrupção
O presidente também voltou seu discurso para medidas que seu governo tem tomado para combater o crime organizado e a corrupção, como a operação Carbono Oculto, realizada em 2025, e a Lei Antifacção. Lula também pontuou que o Brasil não vai “terceirizar a responsabilidade de defender as fronteiras” e nem a de dar à população o direito de viver sem medo, um recado direcionado ao governo norte-americano.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao Presidente dos Estados Unidos. Queremos combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior”, afirmou.
Criticou Conselho de Segurança
No começo de seu discurso, Lula afirmou que a ONU está falhando em “livrar a humanidade do flagelo da guerra”. A credibilidade da instituição, segundo o presidente, nunca esteve tão baixa, assim como a capacidade de proteger países mais vulneráveis, que não têm exército ou nem arsenais.
O mandatário ainda criticou o empenho do Conselho de Segurança em lidar com a crise de lideranças, ressaltando que, em 2025, registrou-se o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.
“Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista. Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma conflagração de proporções globais. Os que detêm as rédeas das decisões cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir", declarou.
"Não desconheço as realidades do poder. Mas as concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Isso não é idealismo. É o mais puro realismo. A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política. Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade. Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade", seguiu.
Defendeu multilateralismo
Lula ainda disse que os “pilares do multilateralismo estão sendo corroídos”, mencionando tarifas impostas como “armas de coerção e chantagem”, mais um claro recado aos EUA, pelo tarifaço que ocorre desde meados de 2025.
Segundo o presidente, a ONU reconheceu o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade, mas que agora deve se debruçar sobre temas “determinantes” para o futuro da humanidade, como multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; e soberania ou subordinação.
“Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista", disse.
Agenda para os próximos dias
Embora o presidente deixe Nova York depois do discurso, a agenda diplomática brasileira continua durante a semana. O chanceler Mauro Vieira permanece na cidade para uma série de reuniões multilaterais. Estão previstos encontros de grupos como Brics, G77, G4, IBAS, CPLP e Celac, além de discussões sobre a Palestina e a solução de dois Estados, direito internacional humanitário, segurança alimentar, combate à desigualdade e cooperação internacional.
Na quarta-feira, 23, Vieira também participa de uma reunião ministerial da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa lançada pelo Brasil durante a presidência brasileira do G20
**Texto em atualização