Lula ignora carta golpista de Flávio e intenção do Planalto é deixar senador falando sozinho

No Planalto, texto de candidato derrotado do PL é visto como tentativa de inflamar apoiadores com discurso de 'perseguição política'

28 out 2026 - 21h08
Resumo
O presidente eleito Lula decidiu ignorar a carta em que o senador derrotado Flávio Bolsonaro se autointitulou presidente do Brasil. Classificando a atitude como golpista e patética, o Planalto optou pelo silêncio para não dar palanque ao parlamentar, que viajou aos EUA após o resultado. A coligação petista acusou Flávio de tentar inflamar apoiadores para fugir da Justiça, lembrando que ele enfrenta investigações no STF e obteve mais de 4,4 milhões de votos a menos que o líder petista.

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ignorou nesta quarta-feira, 28, a carta em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se autointitulou como "verdadeiro presidente eleito do Brasil". Ao menos por enquanto, Lula - que no domingo foi eleito para o quarto mandato, com 64.256.232 votos - não vai se pronunciar sobre o episódio.

Auxiliares do presidente disseram ao Estadão, sob reserva, que o governo não dará palanque a um político que fugiu para os Estados Unidos após perder a eleição presidencial e agora manifesta ímpeto golpista.

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"Patética", "ridícula" e "golpista" foram as expressões mais usadas por esses auxiliares para definir a atitude de Flávio. Nas últimas horas, circularam ao menos quatro versões da carta de Flávio. Na primeira delas, o brasão da República trazia a palavra Brasil escrita com "z". Na última, o candidato derrotado do PL recuou e substituiu a expressão "verdadeiro presidente" por "líder do Brasil".

Na avaliação de um ministro, que falou sob a condição de anonimato, a carta de Flávio teve o único objetivo de inflamar apoiadores com o discurso de "perseguição política" para tumultuar o "day after" das eleições. O Palácio do Planalto, porém, quer deixar o senador falando sozinho para mostrar quem ele é.

"Os desafios do Brasil são muitos e vamos olhar para a frente", disse o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas, ligado ao PT. "O objetivo de Flávio Bolsonaro nunca foi presidir o País: ele só disputou a eleição para manter o foro privilegiado e se livrar da prisão", completou Carvalho, que coordenou a campanha de Lula em São Paulo.

Em nota, os partidos da coligação de Lula (PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT) também destacaram que Flávio fugiu do Brasil para não enfrentar a Justiça. "Não por acaso, o candidato derrotado buscou abrigo justamente junto a Trump (Donald Trump, presidente dos Estados Unidos), que atuou abertamente para interferir em nossas eleições", assinala o texto.

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O documento lembra que a prorrogação do horário de votação, no domingo, foi pedida pelas duas campanhas, PT e PL, "por restrição em transportes públicos e chuvas fortes, e concedida de forma isonômica em todo o país". Nesse período, assinala a nota, foram registrados apenas 33.866 votos para presidente, 0,026% do total, enquanto a diferença entre os candidatos foi de mais de 4,4 milhões.

No segundo turno, trackings da campanha de Lula mostraram o crescimento do medo de eleitores em relação a Flávio e ao retorno da família Bolsonaro ao poder. Um dos integrantes da equipe petista disse ao Estadão que o que mais mexeu no voto das mulheres, por exemplo, foi o fato de o senador ser visto como um político ligado a armas e a milícias.

Flávio é investigado em dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Em um deles, o senador é suspeito de lavagem de dinheiro por meio de apostas online, as bets, ao lado do advogado Willer Tomaz. O outro inquérito apura o destino dos R$ 134 milhões que Flávio pediu para o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, sob a justificativa de que os recursos seriam para financiar o filme Dark Horse, que conta a trajetória política de Jair Bolsonaro. Até agora, o filme não apareceu.

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