A geleira Hektoria, localizada na Península Antártica, perdeu cerca de 25 quilômetros de extensão entre outubro de 2022 e março de 2024, segundo a agência espacial americana Nasa. Também foi registrado um recuo de mais de 8 quilômetros em apenas dois meses, considerado o maior ritmo de perda de gelo terrestre já observado por cientistas na história moderna. As imagens foram divulgadas nesta segunda-feira, 4, pela Nasa.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
O fenômeno foi analisado por uma equipe internacional de pesquisadores com base em dados de sensoriamento remoto e imagens de satélite. Segundo os cientistas, a geometria específica da geleira favoreceu o colapso acelerado. A Hektoria possuía uma “língua de gelo”, uma extensa plataforma flutuante conectada ao continente, que acabou se fragmentando e desaparecendo.
Além da perda da plataforma de gelo, os pesquisadores identificaram o desaparecimento de uma grande área de gelo apoiada sobre uma planície rochosa, fator que contribui diretamente para a elevação do nível do mar. Embora a Hektoria seja considerada pequena em comparação a outras geleiras antárticas, os cientistas alertam que um colapso semelhante em geleiras maiores poderia ter impactos muito mais graves para o planeta.
A origem da instabilidade remonta a 2002, quando uma plataforma que funcionava como uma espécie de “barreira protetora” para geleiras da região, entrou em colapso. Após isso, a Hektoria passou anos afinando e recuando lentamente. Em 2011, o gelo marinho voltou a estabilizar parcialmente a região, permitindo um novo avanço da geleira.
No entanto, em janeiro de 2022, o gelo marinho que sustentava a frente da geleira se rompeu novamente, provavelmente por causa de fortes ondulações oceânicas, segundo a Nasa. A partir daí, o processo de destruição acelerou rapidamente. Durante o verão antártico daquele ano, a língua de gelo se desintegrou em sucessivos desprendimentos, provocando uma perda de 16 quilômetros.
Após uma aparente estabilização no inverno de 2022, dados de satélites mostraram que o gelo continuava afinando. Os cientistas concluíram que parte da geleira estava apoiada sobre uma planície rochosa relativamente plana, permitindo que a água do mar penetrasse sob o gelo durante as marés altas e levantasse grandes blocos de uma só vez. O processo, conhecido como “desprendimento impulsionado pela flutuabilidade”, teria causado uma nova retração de cerca de 8 quilômetros em apenas dois meses.
A glaciologista da Universidade de Innsbruck e principal autora do estudo, Naomi Ochwat, estuda outras geleiras da Península Antártica que podem estar vulneráveis a colapsos semelhantes. Segundo os autores, novas tecnologias desenvolvidas pela Nasa devem ajudar a monitorar mudanças rápidas nas geleiras e entender melhor os impactos do aquecimento global sobre a região.
Dois satélites desenvolvidos pela Nasa e parceiros podem detectar o movimento das superfícies terrestres e de gelo com precisão de centímetros. Seus dados serão “muito úteis para avaliações estruturais da Hektoria e de outras geleiras na região”, disse o cientista Ted Scambos, coautor do estudo.
Para Scambos, a geleira Hektoria dificilmente voltará a apresentar o mesmo comportamento. “Ela perdeu tanta elevação e massa que simplesmente não consegue mais manter o mesmo fluxo de gelo”, afirmou. “Está a caminho de se tornar um fiorde, e não mais uma geleira.”