No ato de 7 de Setembro na Paulista, Flávio Bolsonaro transformou revelações sobre Alexandre de Moraes em combustível eleitoral, buscando herdar o capital político do pai. Sob cautela jurídica para evitar punições da Justiça Eleitoral, Flávio atacou Moraes, associou-o a Lula e evocou perseguição política, enquanto aliados como Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira reforçaram o palanque. A crise no STF serviu para unificar a base e impulsionar a candidatura rumo ao primeiro turno.
A menos de um mês do primeiro turno, Flávio Bolsonaro usou o ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista para transformar as revelações sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro em novo combustível para a campanha. As mensagens divulgadas após André Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal recolocaram Moraes no centro dos ataques e deram ao bolsonarismo um fato novo para alimentar uma pauta antiga. Ao mesmo tempo, o presidenciável reforçou a tentativa de se apresentar como herdeiro político de Jair Bolsonaro, reproduzindo símbolos e narrativas associados ao pai.
O resultado foi um ato em que confronto e cautela caminharam juntos. No palco, Flávio associou Moraes a Lula, falou em perseguição política e evocou uma possível "terceira facada", mas também disse ser preciso preservar o Supremo. Fora do microfone, a campanha mantinha atenção aos limites jurídicos dos ataques para evitar que a manifestação produzisse munição para adversários na Justiça Eleitoral.
Um sinal desse cuidado estava a poucos passos do candidato e quase passou despercebido em meio às lideranças no trio elétrico. Paulo Amador da Cunha Bueno, advogado de Jair Bolsonaro, permaneceu ao lado de Flávio durante praticamente todo o discurso.
O Estadão apurou que o candidato recebeu orientações da equipe jurídica da campanha para evitar ataques às urnas, ao sistema eleitoral e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de declarações que pudessem abrir espaço para questionamentos posteriores. A estratégia era elevar o tom contra Moraes sem transformar o ato em um novo problema jurídico para a candidatura.
Esse controle convivia com uma manifestação de forte carga simbólica. Sob o frio de São Paulo, bandeiras do Brasil se misturavam mais uma vez às dos Estados Unidos, enquanto um boneco inflável de Donald Trump se destacava acima da multidão, repetindo uma estética já vista em atos anteriores do bolsonarismo na Paulista no Dia da Independência.
A novidade, desta vez, estava no episódio que alimentava a indignação dos manifestantes. O relatório da PF tornado público por Mendonça revelou uma troca de mensagens entre Moraes e Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e aprofundou a crise no Supremo às vésperas do 7 de Setembro.
Na avenida, o reflexo era visível. O nome de Moraes dominava gritos e cartazes, enquanto Mendonça ocupava o papel oposto. O ministro era celebrado por parte dos manifestantes como contraponto dentro da própria Corte e ganhou até um boneco inflável em sua homenagem.
A imagem remetia a outro personagem do Judiciário transformado em símbolo político na mesma avenida anos antes: o então juiz Sérgio Moro, alçado à condição de herói por apoiadores da Operação Lava Jato.
Se Moraes fornecia o antagonista do ato, Jair Bolsonaro continuava sendo a principal referência política e emocional. Flávio usou o palanque para reforçar uma operação que acompanha sua candidatura desde o início: apresentar-se não apenas como sucessor, mas como herdeiro político e simbólico do pai. A comparação foi estimulada pelo próprio candidato. "Sei que vocês estão olhando para cá e enxergando outra pessoa parecida comigo: Jair Messias Bolsonaro", afirmou.
Flávio vestiu uma camisa em homenagem ao pai, relembrou o atentado sofrido por Jair Bolsonaro em Juiz de Fora, em 2018, e incorporou a trajetória familiar à própria narrativa de campanha. Falou em uma possível "terceira facada" contra ele e seus aliados e classificou as condenações relacionadas ao 8 de Janeiro como uma "segunda facada". Também revelou que faz campanha usando colete à prova de balas.
Mais do que citar Bolsonaro, o candidato procurou reproduzir uma das narrativas que ajudaram a moldar a identidade política do pai: a ideia de que enfrentar o sistema e ser perseguido por ele fazem parte de uma mesma trajetória. Flávio evocou episódios centrais da biografia política do ex-presidente e apresentou a candidatura como continuidade de uma missão recebida dele.
Essa tentativa de transferência do capital político de Bolsonaro também atravessou as falas dos aliados. Nikolas Ferreira reafirmou sua fidelidade ao ex-presidente ao mesmo tempo em que apresentou Flávio como o candidato capaz de derrotar o PT. Tarcísio de Freitas adotou tom mais institucional: cobrou uma resposta do próprio Supremo às revelações envolvendo Moraes e defendeu a eleição de senadores de direita capazes de ampliar a pressão sobre a Corte.
A crise no STF acabou funcionando como elemento de unidade para uma manifestação com objetivos eleitorais mais amplos. Moraes era o antagonista mais visível, Mendonça aparecia como contraponto dentro do próprio tribunal e Flávio buscava converter a indignação da base em demonstração de força numa disputa em que aparece tecnicamente empatado com Lula em cenários de segundo turno.
Fora do trio, houve também momentos de tensão. Policiais precisaram intervir em um confronto entre grupos de orientações políticas diferentes nos arredores da Paulista. O episódio, porém, não alterou a dinâmica principal da manifestação, concentrada nos discursos e na tentativa da campanha de fazer da avenida uma vitrine de mobilização na reta final antes do primeiro turno.
Ao terminar o discurso, Flávio foi diretamente até Daniella Marques, braço direito da campanha na área econômica, de quem ouviu que havia feito um "belo discurso". Em seguida, permaneceu alguns minutos diante do público. Com uma tesoura de papelão nas mãos, em referência ao "tesouraço" de gastos que promete promover na economia caso seja eleito, acenou para os apoiadores antes de descer do trio.
Já cercado pelos seguranças, ouviu uma menina, aos choros, pedir uma fotografia. Flávio interrompeu a saída, deixou a barreira formada pela equipe e foi em direção a ela.
A cena não permite saber se a emoção da apoiadora vinha de Flávio, do sobrenome que ele carrega ou das duas coisas ao mesmo tempo. Mas condensava uma das apostas centrais daquele 7 de Setembro: fazer com que parte do vínculo construído por Jair Bolsonaro com seus seguidores seja transferida para o filho que tenta sucedê-lo.