BRASÍLIA - Contratada por R$ 129 milhões pelo Banco Master para se dedicar à produção e revisão de políticas de compliance, a advogada Viviane Barci de Moraes, que é esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, faturou até 645 vezes mais do que outros advogados ouvidos pelo Estadão que afirmam ter realizado, poucos anos antes, parte do mesmo trabalho que ela diz ter feito.
O escritório Barci de Moraes Advogados, do qual Viviane é sócia-administradora, divulgou uma nota à imprensa no dia 9 de março em que descreve os serviços prestados ao banco de Daniel Vorcaro, alvo de investigação no STF por suspeitas de fraudes financeiras bilionárias.
O escritório de Viviane manteve contrato com o Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025 com recebimentos mensais de R$ 3,6 milhões. No período, a esposa e os filhos de Moraes, que são os sócios da empresa, receberam R$ 75,6 milhões. O valor total de R$ 129 milhões seria atingido após três anos de contrato, mas o banco foi liquidado pelo Banco Central em novembro do ano passado.
Dono de um dos maiores escritório de compliance do País, o advogado Fabiano Machado explica que há uma certa periodicidade entre as empresas para promover mudanças nessa área. "Estima-se que um programa de compliance deve ser revisto, numa lógica de atualização, a cada três anos, como prática, e a cada cinco ou seis anos é possível fazer uma mudança profunda no programa", afirmou.
"Na área bancária, em que você tem um setor hiper regulado e de certa maneira estável, não há tantas mudanças, exceto na dimensão tecnológica com o compliance digital", completou.
O Estadão também entrevistou um ex-funcionário do Master que consta como autor de uma política criada em março de 2024, quando Viviane já figurava como prestadora de serviços para o Master. Ele afirmou que era comum o banco contratar escritórios de advocacia para auxiliá-los na construção de suas políticas internas, mas que nunca interagiu com Viviane ou qualquer outro membro do Barci de Moraes Advogados. A política construída por esse advogado não consta no rol de serviços prestados por Viviane.
Contudo, os rastros digitais dos documentos mostram que outras cinco políticas citadas por Viviane na nota foram criadas por outros funcionários do Master ou escritórios de advocacia entre novembro de 2024 e agosto de 2025, mesmo período em que o Barci de Moraes prestava serviços ao Master.
Um dos documentos que caberia ao Barci de Moraes produzir ou revisar é a política de PLDFT (Prevenção à Lavagem de Dinheiro, ao Financiamento do Terrorismo e ao Financiamento da Proliferação de Armas de Destruição em Massa) do Master. Esse documento consta, no entanto, como criado em julho de 2025 pela funcionária Patrícia Silveira, que trabalhou como superintendente de Risco Operacional do Banco Máxima, antecessor do Master, entre 2018 e 2020.
O Estadão questionou a ex-funcionária sobre a utilização da sua antiga conta profissional para produção de documentos do banco num período em que não atuava mais na instituição, mas não houve retorno.
Silveira também consta como a criadora autora da política de investimentos pessoais do Master, que também teria sido revisada pelo escritório de Viviane. Ela também assina outras duas políticas (anticorrupção e compliance) que não foram citadas na nota do Barci de Moraes Advogados, mas que constam no escopo dos serviços prestados pelo escritório ao Master.
Outra servidora do Master que assina documentos supostamente produzidos pelo Barci de Moraes Advogados é a gerente de compliance do Master, Marina Durval, que consta como autora da política de controle de limites operacionais em janeiro de 2025. O Estadão tentou contato com ela, mas não houve resposta.
Já a política de Transparência e Remuneração do Master foi criada em novembro de 2024 pelo escritório Saback Dau & Bokel Advogados. O Estadão questionou se a banca foi subcontratada pelo Barci de Moraes Advogados e um dos sócios respondeu que os serviços foram prestados diretamente ao Master e que jamais trabalharam com o escritório da família Moraes.
A última política que o Barci de Moraes diz ter revisto é a de Suitability, cujo autor não ficou registrado nos metadados do documento. O material foi produzido em fevereiro de 2025 e modificado em agosto do mesmo ano.
O único documento com rastros digitais do escritório Barci de Moraes é o código de ética e conduta do Master. O material é assinado pela advogada Ana Cláudia Consani de Moraes, que é cunhada do ministro Alexandre de Moraes. Conforme revelado pela Coluna do Estadão, o código utilizou imagens de repositórios públicos da internet, mesmo sendo parte de um contrato milionário.
Como mostrou o Estadão em consulta a 13 renomados escritórios de advocacia, os valores praticados pelo Master para o tipo de serviço prestado pela família Barci de Moraes estavam fora dos padrões de mercado. Na avaliação de especialistas, todo o trabalho que o escritório relatou ter prestado chegaria a R$ 7,8 milhões, caso fossem seguidos os padrões das firmas de elite, o que indicaria que a contratação foi feita mirando o nome do escritório em vez da expertise.,
O cálculo não inclui o custo dos procedimentos para implementação do Novo Código de Ética do Master e a atuação nas áreas penal e administrativa que o escritório de Viviane também afirma ter realizado. O contrato do Master com o escritório Barci de Moraes destoa mesmo quando considerados os serviços no ramo penal. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS identificou que o escritório Oliveira Lima & Dall'Acqua Advogados, um dos maiores do País com atuação criminalista, recebeu R$ 450 mil por um contrato com o Master. Procurado, o advogado José Luís Oliveira LIma, sócio da banca, não quis se manifestar.