Estudo de think tank aponta que nenhum plano de governo consegue estabilizar dívida pública

18 set 2026 - 18h39
Resumo
Estudo do Ranking dos Políticos aponta que nenhum dos seis principais presidenciáveis tem plano de governo capaz de estabilizar a dívida pública. A análise de quase 1,3 mil propostas concluiu que todas ampliam o descompasso fiscal, afastando o país do equilíbrio entre 2,9% e 3,6% do PIB. Romeu Zema e Augusto Cury apresentaram os menores impactos fiscais, enquanto Flávio Bolsonaro teve o pior resultado. A entidade alerta para a inviabilidade dos programas e a falta de clareza nas metas de gastos.

Uma análise feita pelo think tank Ranking dos Políticos concluiu que nenhum dos principais candidatos à Presidência da República consegue estabilizar a dívida pública. Foram avaliadas, do ponto de vista econômico-fiscal, 1.297 propostas dos seis candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest do início de setembro: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo).

Cada proposta foi testada contra um cenário-base traçado pela Instituição Fiscal Independente (IFI) em junho de 2026, e contra as duas restrições vinculantes em vigor - o limite de crescimento real de despesa do arcabouço fiscal e a regra de ouro da Constituição. A IFI estima em 2,1% do PIB o superávit primário necessário para estabilizar a dívida bruta. O resultado primário projetado para 2026 é de -0,4% do PIB. A diferença de 2,5 pontos percentuais do PIB, ou cerca de R$ 342 bilhões ao ano, é o esforço já necessário antes de qualquer promessa nova, qualquer que seja o vencedor da eleição.

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"Nenhum dos seis planos governamentais apresenta viabilidade orçamentária diante do atual desafio fiscal. Todos afastam o país da estabilização da dívida em vez de aproximá-lo, e a distância vai de 2,9% a 3,6% do PIB, com média de cerca de R$ 437 bilhões ao ano, ou 3,2% do PIB", diz o estudo.

Zema ficou na primeira posição entre os candidatos, com uma distância estimada de R$ 392 bilhões em relação à trajetória necessária para estabilização da dívida, equivalente a 2,9% do PIB.

Em seguida, aparecem Augusto Cury, com R$ 393 bilhões (2,9% do PIB); Ronaldo Caiado, com R$ 411 bilhões (3%); Lula, com R$ 452 bilhões (3,3%); Renan Santos, com R$ 478 bilhões (3,5%); e, por último, Flávio Bolsonaro, com R$ 496 bilhões (3,6%).

Segundo o levantamento, a diferença entre Zema e Cury é de apenas R$ 1 bilhão e deve ser considerada um empate dentro da precisão do método. O estudo também ressalta que estar na primeira colocação não significa que o plano de Zema e Cury sejam fiscalmente suficientes, mas que, entre os seis analisados, são aqueles que apresentam a menor distância em relação ao equilíbrio.

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A análise apontou que o plano de Zema indicou a possibilidade de autofinanciamento das medidas. O resultado, porém, depende em grande parte de uma reforma previdenciária cujos efeitos mais expressivos ocorreriam depois do horizonte do mandato.

Outro ponto de atenção é que Zema propõe substituir o atual arcabouço fiscal, mas não apresenta uma regra alternativa suficientemente detalhada. O estudo, portanto, considera o resultado favorável, mas destaca que sua sustentação depende de premissas que precisam ser examinadas com cautela.

Augusto Cury aparece praticamente empatado com Zema e é o único candidato, além de explicitar compromissos em seu programa, a estabelecer uma meta fiscal própria. Apesar disso, a análise aponta que a meta de déficit primário próximo de zero não seria suficiente, isoladamente, para estabilizar a dívida pública. Além disso, apenas 33% das propostas do candidato puderam ser efetivamente classificadas, o que limita a comparação.

Ronaldo Caiado apresenta, segundo o estudo, o plano metodologicamente mais explícito em relação às consequências fiscais das propostas. O candidato afirma que cada medida deverá ter estimativa de impacto, fonte de financiamento e avaliação de compatibilidade com a trajetória da dívida. O problema identificado pela análise está na regra fiscal proposta: o novo mecanismo seria menos restritivo que o arcabouço atualmente vigente, e não identifica de maneira concreta quais despesas seriam cortadas para financiar suas medidas.

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O plano de Lula aparece na quarta posição, com impacto estimado de R$ 452 bilhões, ou 3,3% do PIB. A análise considera que diversas propostas ampliam ou preservam despesas públicas, enquanto parte dos mecanismos de financiamento desloca os custos para fora das despesas primárias. O estudo ressalta, porém, que apenas 29% das propostas de Lula puderam ser classificadas. Assim, o resultado calculado representa apenas o que foi possível mensurar objetivamente a partir das informações disponíveis no plano e das fontes externas utilizadas.

Renan Santos apresenta o maior percentual de propostas passíveis de classificação entre os seis candidatos, com 52% do total. Ainda assim, o plano aparece em quinto lugar, com uma distância fiscal estimada em R$ 478 bilhões, equivalente a 3,5% do PIB.

Flávio Bolsonaro aparece na última posição do ranking, com R$ 496 bilhões de distância em relação à estabilização da dívida, ou 3,6% do PIB. O estudo, entretanto, ressalta que apenas 32% das propostas do candidato puderam ser classificadas e, por isso, a posição no ranking não deve ser interpretada como uma avaliação completa de todo o programa.

Um dos principais alertas do estudo é a dificuldade de transformar promessas eleitorais em números. Das 1.297 propostas identificadas, somente 478 (36,9%) puderam ser classificadas. Outras 819 (63,1%) ficaram na categoria "não se aplica", principalmente por falta de valores, prazos ou bases de cálculo suficientes. Os autores alertam que os valores calculados devem ser entendidos como limites inferiores dos impactos fiscais dos programas.

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A análise também mostra que nenhum dos seis planos consegue, nas condições avaliadas, produzir uma trajetória de estabilização da dívida. Os programas aumentam a distância em relação ao equilíbrio entre 2,9% e 3,6% do PIB. Em uma simulação que atribui às propostas não mensuradas a mesma densidade fiscal das medidas classificadas, a distância estimada aumenta para 3,5% do PIB no caso de Zema e chega a 6% no de Flávio Bolsonaro.

Para Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, o levantamento mostra que a discussão eleitoral precisa avançar da promessa para o custo das escolhas. "O estudo mostra que, quando colocamos as propostas sob uma mesma régua fiscal, nenhum dos seis planos apresenta hoje uma solução suficiente para estabilizar a dívida", destacou.

Segundo Daniel Galvêas, especialista em Políticas Públicas do Ranking dos Políticos, responsável pelo estudo, o resultado de Zema precisa ser interpretado com atenção. "O fato de Zema aparecer em primeiro não significa que seu plano seja fiscalmente suficiente. Significa que, dentro do que foi possível mensurar e comparar, ele apresenta a menor distância em relação ao equilíbrio fiscal. É uma diferença importante: o estudo não encontrou um plano plenamente viável, mas um plano relativamente mais tangível do ponto de vista fiscal", explicou.

Substituição do arcabouço fiscal

Apenas dois planos, o de Lula e o de Cury, declaram intenção de manter o atual arcabouço fiscal, enquanto quatro candidatos propõem substituir a regra de controle de gastos públicos. Em três desses casos - Renan Santos, Flávio Bolsonaro e Romeu Zem -, porém, não são apresentados parâmetros suficientes para definir qual seria a nova regra. Na prática, segundo a análise, isso deixaria parte relevante do regime fiscal a ser definida somente depois da eleição.

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O plano de Ronaldo Caiado é o único que apresenta uma regra substituta explícita, e ela é mais frouxa do que a vigente. O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027 já projeta as despesas obrigatórias crescendo 6,0% em termos nominais contra 7,4% do PIB nominal, de modo que a regra proposta é cumprida na projeção oficial sem nenhuma medida nova.

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