Erosão no Lulismo e denúncias contra Flávio podem favorecer 3º via, apontam institutos

Ronaldo Caiado pode ser o mais beneficiado, mas Lula ainda é favorito para vencer disputa eleitoral este ano

27 jul 2026 - 18h19

O pré-candidato à presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, é quem tem mais chances de se viabilizar como nome da terceira via nas eleições deste ano. A avaliação é do CEO da AtlasIntel, Andrei Roman.

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Para ele, essa terceira via, porém, depende, entre outros fatores, de uma "reorganização" dos votos da direita, em um cenário de continuidade de fragilidade do nome do ex-senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Durante almoço com dirigentes de institutos de pesquisa promovido pelo grupo empresarial Lide, Roman destacou que houve uma "erosão" na base de apoio à figura do presidente Lula nos últimos anos.

Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), pré-candidatos à Presidência da República
Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), pré-candidatos à Presidência da República
Foto: Wilton Junior/Tiago Queiroz/Cauê Del Valle/Divulgação MBL/Taba Benedicto / Estadão

Entre os pontos que comprovam essa avaliação, Roman mencionou que o nível de aprovação do governo em alguns Estados da Região Nordeste é hoje bastante inferior à média histórica, o que tem refletido, também, em uma menor intenção de voto em favor do petista.

"Existem Estados do Nordeste onde potencialmente a votação do Lula pode cair no primeiro turno em até 10 pontos neste ciclo eleitoral. A mesma erosão estrutural do Lulismo se reflete entre os jovens e também na classe C, na classe média baixa", detalhou o CEO da AtlasIntel.

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Roman ponderou, porém, que, apesar dessa configuração estrutural negativa para Lula, o atual presidente segue com uma condição "favorável" nas últimas pesquisas. Conforme o CEO, houve uma série de situações "bastante problemáticas" para o principal candidato de oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

"Quando se trata inclusive de uma análise temática, se o maior problema do País continua sendo a corrupção, é difícil fazer uma campanha, de oposição, em prol da luta anticorrupção tendo um grande um grande desgaste, ou grandes elementos negativos afetando a figura do candidato que teria que fazer esse tipo de defesa", pontuou.

Roman considerou, porém, que os recentes escândalos associados à figura de Flávio Bolsonaro, por enquanto, ainda estão restritos apenas à parcela do eleitoral que é mais bem informada. "Isso faz com que esse quadro conjuntural negativo para a oposição, pelo menos quando se trata da campanha do Flávio Bolsonaro, no meu entender é que, ao longo da campanha de primeiro turno, deve continuar", avalia ele, acrescentando que isso pode aumentar as chances da terceira via no pleito.

Segundo o cientista político e CEO da Quaest, Felipe Nunes, o petista inicia a campanha eleitoral em vantagem sobre os adversários. De acordo com Nunes, a probabilidade de reeleição do petista estimada pelos modelos do instituto subiu de 38% para quase 60% desde o início do ano.

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"No começo do ano, quando a aprovação do governo estava próxima de 43%, nosso modelo estimava uma probabilidade de reeleição em torno de 38%", afirmou o cientista político durante almoço empresarial promovido pelo Grupo Lide, em São Paulo. "Com a recuperação da aprovação para perto de 47%, essa probabilidade passou para quase 60%. É uma mudança, como você pode imaginar, muito significativa."

Na avaliação de Nunes, a decisão eleitoral deve ficar novamente nas mãos dos eleitores independentes, que não se identificam com nenhum dos polos, muitas vezes rejeitam ambos e buscam uma alternativa à polarização. Segundo ele, porém, as rodadas mais recentes da Quaest indicam que esse grupo passou a rejeitar mais o principal candidato da oposição, Flávio Bolsonaro , e a se aproximar do governo Lula. O cientista político acrescentou que, embora a direita possa estar "desanimada" com a candidatura do senador, continua rejeitando fortemente o PT - uma tensão que considera central para o desfecho da disputa.

Nunes avaliou que o cenário mais provável ainda é uma disputa entre os dois polos e ponderou que, nos últimos dois anos, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro já foram dados como politicamente derrotados e conseguiram se recuperar ao menos três vezes. Segundo ele, contudo, a eleição ainda não está decidida.

"O Renan Santos (Missão) pode, e parece, ter um ótimo desempenho em debates. O Ronaldo Caiado (PSD) é um político experimentado, tem o apoio de um partido muito importante, além dos feitos que acumula em Goiás. O Romeu Zema (Novo) carrega a importância decisiva de Minas Gerais e é o outsider que se reelegeu conquistando a aprovação de seu Estado; pode ser uma surpresa. Mas nada disso parece ser mais decisivo agora", avaliou.

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Entre as principais incógnitas estão a possibilidade de o receio de uma nova vitória de Lula ser suficiente para reorganizar a direita em torno de Flávio, a eventual construção de outra candidatura pelo campo durante a campanha e a capacidade do bolsonarismo de fazer gestos ao centro, reduzir sua rejeição e reconquistar os eleitores independentes.

Nunes explicou que a Quaest utiliza quatro modelos para analisar o cenário eleitoral. O primeiro relaciona a aprovação do governo às chances de reeleição. Segundo ele, a análise de 140 eleições realizadas em 18 países da América Latina nos últimos 30 anos revela um padrão: governantes em busca de um novo mandato ganham, em média, quatro pontos porcentuais de aprovação no período que antecede a campanha, movimento observado com Lula neste ano.

O segundo modelo considera o impacto de fatores econômicos, como inflação, emprego e renda. De acordo com o cientista político, durante boa parte do atual governo, houve uma desconexão entre a melhora dos indicadores macroeconômicos e a percepção da população sobre a própria vida. Mais recentemente, porém, medidas como o Desenrola, a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IRPF) e o debate sobre a redução da jornada de trabalho teriam melhorado essa percepção, sobretudo entre os eleitores de centro, tornando o modelo mais favorável a Lula.

Já o terceiro modelo leva em conta as principais preocupações do eleitorado e qual candidato é considerado mais preparado para enfrentá-las. Nunes afirmou que esse é hoje o principal ponto de dificuldade para Lula, uma vez que violência e corrupção estão entre as maiores inquietações dos brasileiros e costumam favorecer a oposição, especialmente candidatos de direita. Para 2026, esse seria o modelo que mais aponta para uma eleição apertada e para a possibilidade de vitória da oposição.

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Por fim, o modelo de "calcificação política" aponta para um eleitorado dividido entre dois blocos consolidados. Segundo Nunes, lulistas e eleitores de esquerda formam um campo de aproximadamente 35%, porcentual semelhante ao reunido por bolsonaristas e eleitores de direita. Assim, a disputa começaria praticamente empatada entre os dois polos.

Na pesquisa Genial/Quaest mais recente sobre a corrida presidencial, divulgada em 15 de julho, Lula lidera o cenário de primeiro turno com 39% das intenções de voto, ante 29% de Flávio Bolsonaro. Em uma eventual disputa de segundo turno, o petista venceria o senador por 45% a 37%. A margem de erro do levantamento é de dois pontos porcentuais.

Já a CEO do instituto de pesquisas Datafolha, Luciana Chong, destacou há pouco que a desmobilização eleitoral em relação aos nomes colocados para a eleição presidencial deste ano é maior do que a observada em 2022.

Conforme explicou Chong, durante almoço do grupo empresarial Lide, o último levantamento do instituto apontou, na pesquisa espontânea, que 37% dos entrevistados não possuem candidato para o pleito deste ano, nível superior ao do mesmo período de 2022, de 25%.

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Segundo ela, essa fatia do eleitorado é aquela que ainda aguarda mais informações antes de decidir seu nome. Na avaliação da CEO do Datafolha, as últimas pesquisas têm apontado para um quadro estável nas intenções de voto dos dois principais candidatos, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro.

"Hoje, 45% das mulheres não sabem dizer o nome [de algum candidato] espontaneamente. Isso quer dizer que há uma desmobilização, apesar das mulheres ainda serem mais a favor da candidatura de Lula, elas ainda não estão totalmente mobilizadas para isso, diferente do que a gente viu em 2022", frisou.

Em relação às pessoas com mais de 60 anos, a CEO do Datafolha destacou que essa parcela de eleitores cresceu 74% em relação a 2010, pontuando que a abstenção desse grupo no dia das eleições vem diminuindo. "Enquanto os mais jovens deixam de votar, as pessoas com 60 ou mais se colocam e vão votar, apesar de não ter obrigatoriedade a partir dos 70", disse.

SP será Estado decisivo

O presidente da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, considera que, ao contrário do que tradicionalmente ocorre, o Estado mais decisivo para o resultado das eleições presidenciais deste ano deverá ser São Paulo, e não Minas Gerais.

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"Numa eleição apertada como deve ser, eu não tenho dúvida em afirmar para você que o Estado decisivo não vai ser Minas. São Paulo vai decidir quem será o próximo presidente. Hoje, o Lula tem essa desvantagem, que foi o desempenho dele de quatro anos atrás contra Jair Bolsonaro. Prestem muita atenção nisso", alertou o presidente do instituto.

Segundo Hidalgo, a tendência que se desenha para este ano também é de um menor envolvimento dos candidatos à governador nas campanhas presidenciais. "Pode ver que, até agora, eles [governadores] estão um pouco mais distantes", frisou.

Ainda sobre os desempenhos nos Estados, o presidente da Paraná Pesquisas mencionou ser importante observar se haverá ou não segundo turno em unidades da região Nordeste. "Acho que é uma luz amarela no segundo turno, se tivermos o segundo turno, para o presidente Lula. Há risco de ter de 70% a 75% dos eleitores do Nordeste não votarem no segundo turno. Hoje, é bem possível que em Pernambuco, Ceará, Bahia, Piauí e Alagoas, essa eleição termine no primeiro turno. Teria menos mobilização de eleitor para o segundo turno."

O cientista político e presidente de honra da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais, Antonio Lavareda, disse nesta segunda-feira, 27, que o grau de rejeição às instituições por parte dos brasileiros continua elevado, mas é hoje bastante inferior ao visto em 2018. Esse quadro tende a favorecer menos o nome de um outsider, como o do pré-candidato pelo Missão, Renan Santos, em relação à eleição que levou Jair Bolsonaro ao poder, oito anos atrás.

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"O Renan cultiva esse espaço anti-institucional, de repúdio aos Poderes da República, novamente agora que o escândalo do Banco Master produziu uma crise que alcançou os Três Poderes. Mas não tem as mesmas proporções [do que a crise contra as instituições de 2018]", avaliou o cientista político durante almoço empresarial do grupo Lide, que reuniu os principais diretores de institutos de pesquisa do País.

Para Lavareda, essa rejeição às instituições é menor hoje porque, em 2018, ao mesmo tempo em que a Operação Lava Jato acontecia, o País passou por uma grave crise econômica. "A crise da Lava Jato coincidiu com a maior recessão econômica em décadas e o azedume produzido pela recessão acelerou o repúdio dos brasileiros à classe política", disse.

Caiado poder ser beneficiado

O pré-candidato à presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, é quem tem mais chances de se viabilizar como nome da terceira via nas eleições deste ano, na avaliação de Andrei Roman. Para ele, essa terceira via, porém, depende, entre outros fatores, de uma "reorganização" dos votos da direita, em um cenário de continuidade de erosão do nome do senador Flávio Bolsonaro.

"Se a definição de terceira visa for uma candidatura pragmática de centro, eu diria que não tem a menor chance de isso acontecer, em função da grande polarização que existe hoje no País", detalhou Roman.

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"Mas se a terceira via for entendida como reorganização da direita em prol de uma candidatura mais forte que a do Flávio Bolsonaro; alguém que tenha mais força no segundo turno, que não tenha o desgaste do Flávio por conta do escândalo do Banco Master, e que possa trazer uma postura mais crível no combate à corrupção e ao crime, o candidato que mais poderia se beneficiar disso seria o Caiado", acrescentou o CEO da Atlas Intel.

Para ele, esse movimento refletiria a avaliação do eleitor de direita que assimila que Flávio não tem chances e cujo maior objetivo no pleito é derrotar o Lulismo.

Nesse quadro, o CEO da AtlasIntel disse, porém, que não é possível descartar alguma surpresa, como o crescimento das intenções de voto em Renan Santos (Missão). Ele frisou, porém, que há uma "clivagem geracional" muito forte em relação ao nome do ex-integrante do MBL. "O eleitor do Renan Santos é muito jovem. Renan tem uma resistência muito grande entre eleitores com mais de 40 anos de idade. Se ele conseguir, de alguma forma, suavizar essa resistência e penetrar essa base mais adulta, acho que esse sinal alternativo do Renan Santos também poderia ser vislumbrado", avaliou.

Na avaliação de Roman, é muito difícil imaginar que a eleição presidencial deste ano será resolvida em primeiro turno. "Para isso acontecer, a gente teria que ver uma aprovação do presidente Lula acima de 50%. Não me parece que, por mais que ele esteja se recuperando aos poucos, que isso irá acontecer."

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