Eduardo Bolsonaro ameaça fazer 'faxina' no Itamaraty caso irmão Flávio seja eleito presidente

Ex-deputado cotado para comandar MRE em eventual governo do candidato do PL diz que vai estar 'na cola' de diplomatas suspeitos de sabotagem

30 set 2026 - 22h14
Resumo
Eduardo Bolsonaro prometeu realizar uma "faxina" no Itamaraty caso seu irmão, Flávio Bolsonaro, vença a eleição presidencial. O ex-deputado afirmou ter mapeado diplomatas para coibir supostas sabotagens ideológicas e reagiu a notícias sobre o apoio da embaixada em Madri à mudança do filho do presidente Lula. O plano de expurgar servidores vistos como de oposição gera forte apreensão na diplomacia, entre empresários e políticos, que temem uma gestão externa radicalizada nos moldes trumpistas.

BRASÍLIA - O ex-deputado Eduardo Bolsonaro prometeu fazer uma "faxina" no Itamaraty, caso seu irmão Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito presidente da República. Ele afirmou que fez pessoalmente um mapeamento de quem é quem na chancelaria brasileira. "O Itamaraty precisa de uma faxina urgente e nós vamos fazê-la", publicou o ex-parlamentar nas redes sociais, nesta quarta-feira, dia 30.

Eduardo Bolsonaro afirmou que a "faxina" seria necessária para evitar que servidores de Estado fizessem algum tipo de resistência ou, nas palavras dele, "sabotagem" a políticas que Flávio deseje implementar. Segundo ele, no governo do pai houve "sabotagem" e depois diplomatas contaram ao jornalista Jamil Chade porque estavam "à vontade" e foram retratados como heróis.

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Eduardo Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro.
Foto: Reprodução/Youtube / Estadão

"Eu tive o trabalho pessoal de mapear todos os embaixadores e diplomatas do MRE. Quem saiu de tal posto e foi para outro país. Quem o Lula, logo na transição, pediu que arrumasse as malas às pressas, dando uma semana de prazo para certos embaixadores saírem de determinados países e retonarem para o Brasil, pouco se importando se eles tinham filho em escola no exterior ou como estaria a vida deles, não dando tempo para se organizar", relatou o ex-deputado, em vídeo nas redes sociais.

Em seguida, ele ameçou: "Meu caro servidor do Itamaraty, se você ajudou a sabotar o governo Bolsonaro preocupe-se de verdade, porque eu vou estar na tua cola. Se você não fez isso, parabéns, você fará parte do time que irá resgatar a credibilidade do Itamaraty e virar a página de serem servidores de corrupto e filho de corrupto para passar a servir ao povo brasleiro".

Eduardo reagiu à notícia de que, em 2025, o então embaixador do Brasil em Madri, Orlando Leite Ribeiro, prestou apoio e trocou informações para ajudar na mudança e instalção na Espanha de Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e sua mulher, Renata de Abreu Moreira.

Mensagens sobre a ajuda com escolha de bairro, busca de escolas e envolvimento de uma funcionária da embaixada foram recuperadas no celular da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha. Elas foram veiculadas no Metrópoles. O Estadão confirmou parte do auxílio com o embaixador Ribeiro e com o Itamaraty.

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"Embaixador e diplomatas do MRE, pagos com o seu dinheiro, receberam e satisfizeram os mimos de Lulinha na Espanha", disse o ex-parlamentar. "Flávio Bolsonaro sendo eleito, um dos primeiros a sair do posto certamente será o embaixador do Brasil na Espanha, para dar o exemplo de que isso não acontecerá mais."

Orlando Leite Ribeiro atualmente é embaixador em Praga, República Tcheca. Em Madri, o chefe da missão é o ex-chanceler Luiz Alberto Figueiredo.

Cassado pela Câmara e condenado pelo Supremo Tribunal Federal por coação, Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos em uma espécie de autoexílio e é um dos nomes mais influentes nas relações exteriores conduzidas pelo bolsonarismo.

Ele representa o clã Bolsonaro em eventos e junto a movimentos da direta radical global. Também mantém interlocução direta com o governo Donald Trump, e liderou uma campanha em prol de punição a autoridades brasileiras, que resultariam no tarifaço, na cassação de vistos e aplicação de sanções financeiras.

Como o Estadão mostrou, o Eduardo planeja exercer influência no MRE em caso de vitória na eleição de Flávio Bolsonaro. O candidato do PL teve que tentar demover um movimento de bastidores, de políticos e do empresariado, preocupado com a ideia de ter nova influência do irmão sobre o Ministério das Relações Exteriores.

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Visto como mais ideológico e radical, Eduardo protagonizou embates com a China no governo do pai, exerceu poder no MRE durante a gestão Ernesto Araújo. Ele era presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara e desagradou o agronegócio, que tem clientes de peso em Pequim. Eduardo era visto como um chanceler paralelo e mantinha agenda externa própria. Em algumas ocasiões, ocupou posições de mais destaque que o ex-ministro, como numa visita a Donald Trump, no Salão Oval.

Também cooperaram na construção das propostas de governo de Flávio o embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor da Organização Mundial do Comércio, o diplomata e ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento Marcos Troyjo e o ex-secretário de Produtos de Defesa Marcos Degaut - este último, o mais próximo colaborador de Eduardo.

Há meses, nomes ligados a Flávio Bolsonaro vêm fazendo pressão aberta sobre o MRE. E causado preocupação nos bastidores, além de uma série de especulações. Para conter temores do mercado, parte dos aliados de Flávio passou a pregar um nome com trânsito político e no agro para o MRE: a senadora e ex-ministra da Agricultura Teresa Cristina.

Em maio, quando Flávio e Eduardo estiveram juntos em Washington para uma visita a Donald Trump, o gabinete do senador pediu de última hora apoio da embaixada e não recebeu. Após a visita ao presidente dos EUA, Flávio acusou o órgão de uma atitude "mesquinha" e de "aparelhamento ideológico".

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Paulo Figueiredo, comunicador ligado aos Bolsonaro que exerce lobby político nos EUA, afirmou que a embaixada agia como órgão de "partido". Ele também já disse, no contexto das disputas sobra a culpa pelo tarifaço, que "em janeiro vai ter muita gente transferida para a embaixada da puta que pariu!!" e que a embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, deveria ser alvo da polícia migratória americana, o ICE, depois que seu visto teve a quantidade de entradas nos EUA reduzida para apenas uma.

Dentro da diplomacia, existe temor e especulação de que Flávio Bolsonaro implante uma fórmula similar à conduzida por Marco Rubio e Donald Trump no Departamento de Estado, com expurgos de servidores considerados não confiáveis e de perfil mais sênior, em prol de diplomatas mais novos na carreira.

A diplomacia trumpista também esvaziou a representação americana no mundo e passou a dar cargos de mais alto poder a apadrinhados políticos, familiares e empresários, em vez de diplomatas de carreira.

Para exercer uma reforma similar, seria preciso que Flávio aprovasse um projeto de lei a fim de mudar a Lei do Serviço Exterior Brasileiro, quebrando a exclusividade da carreira aos principais postos de gestão da Secretaria de Estado.

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Embaixadores afirmam que a combinação pode ser explosiva se houvesse acordo com o Senado. Nesse cenário, poderiam ainda reviver a PEC das Embaixadas, por meio da qual senadores tentaram revogar a necessidade de renúncia ao mandato para políticos que desejassem exercer a função de embaixador fora do País.

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