Desde pouco antes da estreia do Brasil na Copa do Mundo, também se intensificou uma disputa que vai além das quatro linhas: a apropriação política dos símbolos da Seleção por diferentes pré-candidatos. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem intensificado a associação entre a camisa da Seleção Brasileira e a identidade bolsonarista, relação que ganhou força nos últimos anos. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e aliados também já vem investindo nesse campo, recorrendo a um discurso de patriotismo e ao uso das cores da bandeira nacional em suas estratégias de comunicação.
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Outros nomes de pré-candidatos à disputa presidencial igualmente têm tentado se inserir na visibilidade gerada pelo Mundial. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), por exemplo, fez referência à estreia da Seleção no torneio para associar o momento à sua campanha. "Nessa hora vocês não reparem não, mas vale o trocadilho, hoje eu sou Brasil para Caiado", disse em um vídeo no qual aparece ao lado da esposa vestindo a camisa da seleção e segurando uma bandeira do Brasil.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) também tem recorrido ao tema em sua estratégias de comunicação. Em uma publicação feita em junho, apareceu vestindo a camisa canarinho ao comentar a participação de mulheres trans na categoria feminina --pauta que já havia sido explorada por setores da direita durante os Jogos Olímpicos de 2024. Em outras publicações, Zema também iniciou os vídeos com referências à Copa do Mundo para fazer críticas ao governo Lula, abordando temas como a relação do Brasil com os Estados Unidos.
Lula x Flávio
Às vésperas da estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, em 11 de junho, foi lançado o primeiro jingle da campanha de reeleição de Lula. Com o lema “Lula joga pelo Brasil”, a peça faz uma associação entre futebol, identidade nacional e soberania, além de destacar iniciativas do governo, como o fim da escala 6×1 e programas como CNH do Brasil, Desenrola Brasil, Gás do Povo e Agora Tem Especialistas.
Entre os elementos explorados no vídeo também está o Pix. Em uma das cenas, uma mulher utiliza o sistema de pagamentos, que passou a ser alvo de críticas do governo de Donald Trump. Depois que um relatório do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) questionou o modelo brasileiro de pagamentos digitais, o governo incorporou o assunto ao discurso de defesa da soberania nacional.
A reação veio no dia seguinte. Flávio divulgou uma nova peça de pré-campanha utilizando o jingle “Vem com fé”, lançado no início daquele mês, mas agora adaptado ao contexto da Copa do Mundo. No vídeo, afirma que “Lula e o PT usam o verde e amarelo apenas em períodos de eleição e Copa do Mundo”. “A gente veste essa camisa a vida inteira”, diz o material.
As imagens divulgadas pelo senador alternam cenas de manifestações bolsonaristas marcadas pelo uso da camisa da Seleção Brasileira com registros de agendas públicas em que ele aparece vestindo as cores nacionais e também ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Além disso, em discurso durante agenda no Pará, Flávio vinculou as cores da Seleção ao bolsonarismo e pediu que vestissem o que chamou de “camisa do Bolsonaro”.
Na avaliação do marqueteiro Marcelo Vitorino, que já atuou em campanhas presidenciais de nomes como José Serra (2010) e Geraldo Alckmin (2018), além de coordenar a campanha de Marcelo Crivella (Republicanos) à Prefeitura do Rio de Janeiro em 2016, a Copa do Mundo sempre foi um ativo explorado por governos e candidatos, independentemente de ocorrer ou não em ano eleitoral.
Segundo ele, o desempenho da Seleção Brasileira pode influenciar a narrativa política, permitindo que governistas associem eventuais vitórias a um sentimento de orgulho nacional, enquanto derrotas também podem ser incorporadas aos discursos de adversários.
Para o especialista, no entanto, o torneio exerce um papel muito mais simbólico do que decisivo sobre o voto. Vitorino avalia que, em uma eleição presidencial, fatores como economia, segurança pública e poder de compra da população tendem a ter peso muito maior na decisão do eleitor. Nesse contexto, a Copa funciona como um elemento de comunicação capaz de reforçar mensagens de campanha, mas dificilmente altera, por si só, a percepção do eleitorado.
O marqueteiro também afirma que campanhas costumam se apropriar de acontecimentos que já estão em evidência para construir narrativas. "No último jogo, por exemplo, entre Brasil e Japão, o jogador brasileiro que perdeu a bola na jogada que originou o gol do Japão vestia a camisa número 13. Já o jogador que definiu a partida usava a camisa 22. Então foi, vamos dizer assim, um prato cheio para os apoiadores do Bolsonaro, que usam o número 22 para votar, construírem uma narrativa, dizendo: 'Enquanto o 13 fez bobagem, o 22 foi lá e resolveu'. Eles associaram os números das camisas aos números dos partidos para criar essa narrativa", destacou.
Para Vitorino, a disputa em torno dos símbolos nacionais vai além da Copa do Mundo e está ligada ao próprio futebol, que desperta forte identificação entre os brasileiros. Segundo ele, paixões populares costumam ser apropriadas por campanhas políticas para construir associações positivas ou negativas. Nesse contexto, o especialista avalia que a adoção da camisa amarela da Seleção Brasileira pelo bolsonarismo foi uma estratégia bem-sucedida.
"O bolsonarismo projeta valores como pátria, família e patriotismo. A partir do momento em que passa a dar muito peso para a bandeira brasileira e para a camisa amarela da seleção, busca se apropriar de símbolos que, até então, eram símbolos nacionais. E deu certo para eles. O símbolo é maior do que a seleção ou a Copa do Mundo", afirma.
O uso da imagem de Neymar
Outro exemplo citado por Vitorino é o uso de figuras conhecidas do futebol para dialogar com diferentes segmentos do eleitorado. Na avaliação dele, o presidente Lula buscou se aproximar de seu público ao fazer críticas a Neymar, que enfrenta resistência entre parte dos eleitores alinhados ao campo progressista.
"Ele, por exemplo, viu que o Neymar não é tão bem quisto por uma parcela da população, principalmente entre eleitores mais alinhados ao campo progressista, e fez críticas ao jogador. Ele usou a figura de um atleta conhecido para, vamos dizer assim, ficar em uma posição melhor perante o grupo que é o dele", apontou.
A declaração faz referência a uma agenda realizada no fim de junho em Belo Horizonte (MG), quando Lula brincou com a condição física do atacante e o chamou de "convocado home office". Durante uma conversa com uma criança sobre futebol, o presidente perguntou quem era o melhor jogador da Seleção Brasileira atualmente. Ao ouvir a resposta "Neymar", afirmou que o camisa 10 não estava "nem jogando" e fez a brincadeira em referência a um meme que circulava nas redes sociais.
Pouco depois, o senador Flávio Bolsonaro respondeu a fala do petista ao publicar um vídeo produzido com inteligência artificial em que Neymar aparece como protagonista de uma operação fictícia de resgate para disputar a Copa do Mundo. Ao compartilhar o conteúdo na plataforma X, o pré-candidato à Presidência escreveu: "Missão de hoje: o resgate do menino Ney @neymarjr. Porque os heróis brasileiros não devem ser deixados pra trás", em referência às críticas feitas por Lula ao jogador. A defesa ao camisa 10 acontece porque Neymar já declarou, em eleições passadas, votar em Jair Bolsonaro.