Após o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto ser preso nesta quarta-feira, 18, suspeito de matar a esposa, a soldado Gisele Santana, autoridades da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) detalharam como ocorreu o trabalho de investigação do caso. A policial foi encontrada morta no apartamento onde morava com o marido, em São Paulo, com um tiro na cabeça no mês passado.
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A prisão ocorreu após expedição de um mandado contra Neto na madrugada. Segundo a SSP, por volta das 8h, um comboio com agentes da Polícia Civil e agentes da corregedoria da PM chegou ao apartamento do tenente-coronel, na rua Roma, no Jardim Paulista, na região central de São José dos Campos (SP). Não houve reação e o tenente-coronel se entregou. O mandado também autorizou a apreensão de aparelhos celulares, quebra de sigilo, dados eletrônicos e o compartilhamento das provas com as Polícias Civil e Militar.
Durante coletiva de imprensa realizada na sede da SSP, as autoridades da pasta destacaram que os elementos técnicos e investigativos reunidos pelas forças de segurança em cerca de um mês afastaram a hipótese inicial de suicídio, que era sustentada por Neto desde o início da apuração.
As investigações também constataram "inconsistências significativas quanto à conduta de Geraldo após o disparo da arma até a formulação da ocorrência, o que compromete a credibilidade da sua versão", explicou o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves.
"As provas periciais médico-legais analisadas pela polícia técnico-científica indicam a inviabilidade da hipótese de suicídio, além de apontar indícios de alteração do local do crime", continuou o secretário.
Laudos
Para o superintendente da Polícia Técnico-Científica, Claudinei Salomão, o conjunto probatório foi essencial para subsidiar o pedido de prisão. "Todos os achados da exumação confirmaram o laudo que foi inicialmente realizado pelo Instituto Médico-Legal. Posso dizer que em alguns exames complementares, por exemplo, não havia nenhum efeito de entorpecente ou de bebida alcoólica, que é um dado que já consta do laudo", disse.
"Marcas (no pescoço da vítima) já haviam sido descritas no primeiro laudo, que são marcas que correspondem à pressão digital nesta região. Então, durante a exumação, foram colhidos fragmentos de tecido, para ver qual a profundidade dessa lesão. E isso já estava descrito no primeiro laudo. Não houve sinal de asfixia", explicou.
As marcas, no entanto, foram feitas recentemente, detalhou a perita Amanda Rodrigues Marinone. "Para saber sobre o autor das marcas, são necessários exames complementares a partir da análise desse vestígio. Então, por hora, a gente não consegue dizer quem fez, mas foram feitas por uma segunda pessoa, obviamente não por ela", continuou.
Local do crime alterado
O inquérito policial que tramitou pela Polícia Civil visou confrontar as informações do tenente-coronel desde o dia do crime, "visando desmontar toda a narrativa que ele apresentava", segundo a SSP.
A pasta, no entanto, foi questionada sobre como a investigação entende a conduta do desembargador Marco Antônio Pinheiro, que foi acionado pelo próprio tenente-coronel para ir ao local do crime. "Ele foi lá como um amigo do tenente-coronel e foi esse o papel que ele desenvolveu lá", afirmou o coronel Alex Asaka, comandante da Corregedoria da Polícia Militar.
"Analisadas todas as condutas captadas pelas câmeras corporais, não foi detectado qualquer ato de ingerência", completou o delegado Denis Saito do 8° Distrito Policial, que investiga o caso.
Além do desembargador, depois da perícia na residência, três policiais militares mulheres foram até o imóvel para limpá-lo. "Os policiais que tiveram para fazer essa limpeza o fizeram por uma questão de humanidade. No primeiro momento, a notícia que se tinha era de um suicídio. A perícia já tinha passado e liberado o local do crime", seguiu Asaka.
Repercussão
Para o secretário-executivo da SSP, coronel Henguel Ricardo Pereira, o caso é "emblemático". "Eu acredito ser o primeiro caso de feminicídio envolvendo um tenente-coronel da Polícia Militar, também envolvido uma policial feminina, uma vítima desse caso", disse.
Segundo Pereira, o caso "chocou bastante, e por isso a gente precisou fazer esse trabalho em conjunto, esse trabalho integrado das polícias para a gente ter um olhar realmente técnico, um olhar detido".
"A SSP também fica super triste de ter um elemento da nossa corporação envolvido nesse caso. É muito triste para nós, mas ele mostra a força das nossas Corregedorias", complementou Nico.
Procurada pelo Terra, a defesa do tenente-coronel não se manifestou até o momento.